Ipea: restrição de oferta e demanda maior devem manter preço agropecuário em alta

As restrições de oferta provocadas por problemas climáticos e o aumento na demanda doméstica e internacional devem manter os preços de produtos agropecuários em níveis elevados. O comportamento da taxa de câmbio nos próximos meses também será determinante para o possível encarecimento dos alimentos. A avaliação é do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), na Carta de Conjuntura publicada nesta quinta-feira, 19.

Considerando os valores médios praticados no primeiro semestre de 2021 em relação aos do primeiro semestre de 2020, houve alta de preços em todos os produtos pesquisados, exceto a batata. Os grãos se sobressaíram, com aumentos de mais de 40% em todos os itens: soja (78%), milho (77%), trigo (40%), algodão (75%) e arroz (55%).

“Deve-se destacar o importante impacto negativo desse aumento sobre os custos de produção na pecuária, o que pode influenciar negativamente a oferta de proteínas no País. Em termos de perspectivas, para a maior parte dos produtos acompanhados, espera-se aumento ou estabilidade em alto patamar dos preços no curto e médio prazos”, escreveu Ana Cecília Kreter, pesquisadora associada na Diretoria de Estudos e Políticas Macroeconômicas do Ipea.

Segundo a pesquisadora, os problemas meteorológicos, que incluem tanto as geadas quanto a estiagem em diferentes regiões do País, devem continuar a ter um papel decisivo na formação de preços desses alimentos.

“A intensidade desse possível aumento de preços também depende estreitamente do comportamento da taxa de câmbio nos próximos meses e dos preços internacionais”, acrescentou Cecília Kreter, no documento.

O Ipea lembra que as commodities mais exportadas pelo Brasil mantiveram demanda aquecida mundialmente no primeiro semestre de 2021 e os preços internacionais estiveram mais elevados que no mesmo período do ano anterior: grãos, carnes e café.

“No caso dos grãos, essa alta dos preços internacionais é reflexo do balanço apertado entre produção e consumo na safra corrente, somado a estoques que vinham decrescendo nas últimas safras. Para as carnes, o que se observa é um movimento de substituição entre as proteínas animais, seja por questões sanitárias ou pela busca de proteínas mais baratas”, justificou a carta do Ipea.

Apenas o arroz registrou redução nos preços internacionais no primeiro semestre de 2021 em comparação a 2020, uma queda de 11%. As altas ocorreram na soja (65,9%), milho (72,3%), trigo (24,4%), algodão (38,1%), boi gordo (18,3%), porco magro (65,3%) e carne de frango (24,2%).

O estudo do Ipea contou com a colaboração do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo (Cepea/Esalq/USP) para as análises dos preços domésticos e da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) para as informações de produção e balanços de oferta e demanda domésticos.

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Os setores que estão no radar de investimentos da Itaúsa, que segue interessada em expandir seu portfólio

Itaúsa (Foto: Divulgação)

SÃO PAULO – O presidente-executivo da Itaúsa (ITSA4), Alfredo Setubal, holding que tem participação no Itaú Unibanco (ITUB4) e em outras companhias, destacou em teleconferência com jornalistas nesta terça-feira (10) que a empresa está atenta a possíveis investimentos no agronegócio e também em energia, mas que não tem um negócio no radar para ser fechado nos próximos meses.

Desde o final do ano passado, a holding anunciou diversas aquisições, como a compra de 8,53% da empresa de saneamento básico Aegea – que, após arrematar dois dos quatro blocos do leilão da Cedae em abril tornou-se a maior empresa de saneamento do País –  e também fatia na Nova Transportadora do Sudeste (NTS).

“Vamos continuar perseguindo bons investimentos, que gerem retorno para os acionistas”, afirmou Setúbal, reiterando que segue interesse em ampliar o portfólio da Itaúsa. Além desses investimentos, a holding também tem participação na fabricante de calçados Alpargatas (ALPA4) e na Dexco (DTEX3) – ex-Duratex, de louças e painéis de madeira -, além de XPart e Copa Energia.

Os números das companhias levaram a Itaúsa a registrar lucro líquido de R$ 3,5 bilhões no segundo trimestre deste ano, valor 487% superior ao apresentado um ano antes. O lucro líquido recorrente, por sua vez, foi de R$ 2,86 bilhões no período, alta de 99% sobre o mesmo período de 2020.

A alta do lucro foi impactada, principalmente pelo resultado de seu principal ativo, o Itaú, além de um ganho de R$ 476 milhões com a reavaliação de crédito tributário com a majoração da alíquota da CSLL.

Com relação aos possíveis investimentos no agronegócio, Setúbal apontou que até o momento não foi encontrada nenhuma oportunidade. “Mas é um setor que sem dúvida nenhuma gostaríamos de participar, faz falta no nosso portfólio”. Já no setor de energia, o segmento em que a Itaúsa está de olho é em renováveis e também em distribuição.

Além desses segmentos, Setúbal apontou que a Itaúsa avalia entrar em outros setores de concessões públicas, além de saneamento.

O CEO ainda apontou que a Itaúsa está se preparando para lidar com uma eventual crise energética. “Estamos nos preparando principalmente para evitar que as agências tenham problemas, eventualmente com uso de geradores”, apontou.

Ele destacou que alguns ativos industriais nos quais a Itaúsa tem participação já possuem autogeração de energia, mas que opções adicionais estão sendo discutidas.

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Sobre as discussões sobre a reforma do Imposto de Renda, que prevê o fim dos juros sobre o capital próprio e a taxação de dividendos, o CEO da holding avalia que ainda é cedo para falar sobre o tema, uma vez que pode estar sujeito a muitas mudanças. Contudo, ele aponta que, se por um lado, os proventos serão taxados, por outro haverá redução também do imposto de renda sobre as empresas, que pode impactar positivamente no resultado.

De acordo com Setúbal, o relator da proposta, deputado Celso Sabino (PSDB-PA), tem se mostrado aberto a ouvir as demandas e procurar soluções que não gerem aumento da carga tributária e nem complique o sistema.

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Cana-de-açúcar vai sofrer impacto do clima, diz CEO da BP-Bunge

(Bloomberg) – O Brasil enfrenta as piores condições climáticas das últimas décadas, o que pode resultar em perdas significativas da produção de açúcar e agravar a já apertada oferta global, segundo a BP-Bunge.

A joint venture calcula que as perdas causadas pelo clima na região Centro-Sul, que responde por 90% da produção de açúcar no país, sejam maiores do que o previsto anteriormente, segundo o diretor-presidente da empresa, Geovane Dilkin Consul.

Os próprios campos da BP-Bunge também foram atingidos pela forte geada nas últimas semanas, afirmou.

A moagem de cana da empresa deve cair pelo menos 12% na safra 2021-2022 em relação ao ano anterior devido às condições climáticas adversas. E o executivo pode revisar ainda mais para baixo a projeção da BP-Bunge para a moagem no Centro-Sul, que atualmente é de 535 milhões de toneladas.

“Há previsão de pelo menos mais duas frentes frias se aproximando dos canaviais em agosto”, disse Consul em entrevista na terça-feira. “O Brasil vai sofrer, e o recente rali de Nova York é um claro reflexo disso.”

As lavouras de commodities como açúcar e café arábica foram afetadas pelas condições climáticas, como a pior seca em quase um século e a geada mais forte em mais de duas décadas. A crise de oferta impulsionou os futuros de açúcar bruto em julho para a maior cotação desde 2017.

E o rali da commodity não dá sinais de desaceleração diante das incertezas sobre o fornecimento. A StoneX Group espera que a demanda por açúcar supere a produção em 2021-2022.

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O déficit global tende a sustentar os contratos futuros do açúcar nos próximos dois anos, com um teto estimado em 19 centavos de dólar por libra-peso, nível acima do qual estimula enormes exportações da Índia, disse Consul.

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A BP-Bunge deve processar 24 milhões de toneladas de cana na atual safra frente a 27,3 milhões esmagadas em 2020-2021.

A estimativa leva em consideração apenas o impacto da seca e da geada até agora. Ainda há dúvidas sobre o efeito das temperaturas congelantes sobre a cana que será colhida nos próximos meses, disse Consul.

No Mato Grosso do Sul – onde a empresa opera sua menor unidade – todas as áreas de cana foram afetadas.

Apesar dos danos climáticos, a BP-Bunge espera que seus resultados na atual safra sejam melhores do que em 2020-2021.

O Ebitda da empresa somou R$ 3,4 bilhões na safra passada, 63% maior frente à temporada anterior.

A joint venture, formada há pouco mais de um ano, tem se concentrado em melhorar a eficiência e cortar custos, disse o presidente do conselho da BP-Bunge, Mario Lindenhayn, durante a mesma entrevista.

No primeiro ano, a empresa operou 11 usinas no Brasil e atingiu dois terços da sinergia de R$ 1 bilhão prevista para os próximos anos.

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Geadas no Sul e no Sudeste: qual o impacto para a inflação e para as ações de agro da Bolsa

Frio na Serra Catarinense (Foto: Paulo/Fotos Públicas)

SÃO PAULO – Em meio a condições climáticas adversas, com uma intensa onda de frio prejudicando o agronegócio e uma crise hídrica contribuindo para custos mais elevados de energia elétrica, o bolso dos consumidores deve sentir mais nos próximos meses.

O mesmo vale para investidores de ações, que têm empresas do agronegócio na carteira, que devem ficar atentos aos potencias impactos nas companhias.

Em relatório divulgado nesta sexta, a XP avalia que a geada de julho e dessa semana nas regiões Sul e Sudeste podem se traduzir em uma inflação ainda mais alta no curto prazo.

Isso porque, com a diminuição da oferta, devido ao impacto das geadas nas colheitas, os preços tendem a subir e esse repasse aos consumidores costuma ser rápido.

Na avaliação da XP, isso pode significar alta de 0,10 ponto percentual na projeção de inflação para 2021, já em 6,7%.

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Entre as culturas mais impactadas pela intensa onda de frio, a XP destaca o café, as hortaliças e as frutas.

O frio intenso, somado ainda à estiagem severa, que impactou fortemente os preços de grãos – como soja e milho, cana de açúcar, café e cítricos –, e elevou o custo da energia elétrica, especialmente no setor industrial, tende a pressionar ainda mais o índice de preços.

No caso da carne bovina, a XP escreve que a alta segue sustentada pelas exportações brasileiras de carne para a China em um cenário de escassez de animais prontos para abate. E a falta de chuvas fez com que o confinamento do gado aumentasse, gerando mais custos aos produtores.

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Tatiana Nogueira, economista da XP que assina o relatório, chama atenção ainda para a reabertura da economia pós-Covid, permitindo que serviços tenham seus preços reajustados, de uma forma mais rápida do que a projetada já esse ano.

Desta forma, a inflação pode ficar acima de 7% no ano, segundo Nogueira.

Em julho, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo 15 (IPCA-15) subiu 0,72% frente junho, acima do esperado pelo mercado financeiro, de alta de 0,64%, e na maior variação para o mês desde 2004.

No ano, o indicador acumula alta de 4,88%, enquanto em 12 meses, sobe 8,59%.

E o impacto na Bolsa?

No mercado de renda variável, investidores com papéis ligados ao agronegócio também devem monitorar as questões climáticas no país.

Embora colheitas possam ser afetadas pelas geadas, alguns nomes podem se beneficiar de uma menor oferta de produtos, elevando os preços no mercado. É o caso, por exemplo, de São Martinho (SMTO3).

Em relatório, o Itaú BBA escreve que a produção da empresa deve ser impactada negativamente pelas geadas nas colheitas de 2021 e 2022, com a situação podendo perdurar até a colheita de 2022 e 2023.

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Ao mesmo tempo, a companhia pode se beneficiar de um aumento nos preços do açúcar diante da menor oferta, destaca o time de análise.

O Itaú tem recomendação outperform (acima da média do mercado) para os papéis SMTO3, com preço-alvo de R$ 42.

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O mesmo acontece com SLC Agrícola (SLCE3), que deve, segundo o Itaú BBA, ver seus preços de milho subirem no mercado nos próximos meses em meio à menor oferta da commodity.

O caso é semelhante em M. Dias Branco (MDIA3), cuja produção é concentrada, em sua maioria (cerca de 80%), na região Nordeste do país – também contribuindo para uma alta no preço do trigo, escrevem os analistas.

De acordo com o Itaú BBA, JBS (JBSS3) deve ser blindada dos efeitos da geada, em grande parte, dada a menor exposição ao mercado brasileiro. A oferta restrita de grãos, contudo, pode reprimir as margens da marca Seara.

Por fim, o banco escreve que o cenário deve continuar elevando os custos para a BRF (BRFS3). A companhia, contudo, pode compensar parcialmente as tendências negativas por meio de aumentos de preços, destaca o time de analise.

“Embora haja pressão sobre os custos dos grãos para ração, a compressão de margem esperada para a BRF foi mitigada pelos preços mais altos, uma vez que os preços dos alimentos processados no Brasil mantiveram seu ritmo de crescimento anual de dois dígitos”, escreve o Itaú, em relatório.

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O banco tem recomendação de market perform (performance em linha com o mercado) para os papéis de BRF e M. Dias Branco, com preço-alvo estimado de R$ 25 e R$ 30, respectivamente. Para SLC e JBS, a recomendação é de outperform, com preço-alvo de R$ 55 e R$ 47, respectivamente.

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JBS, Cosan, SLC Agrícola e mais: como a crise hídrica impacta o agronegócio brasileiro?

Plantação de soja em Mato Grosso; Agronegócio (Paulo Fridman/Corbis via Getty Images)

SÃO PAULO – Diante da maior seca do Brasil em 111 anos, a crise hídrica tem sido motivo de muita preocupação devido à predominância da matriz hidrelétrica na geração de eletricidade. No entanto, há outro setor que sofre muito com a falta de chuvas e é justamente a chamada locomotiva do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro: o agronegócio.

Em relatório, a equipe de análise do Itaú BBA lembra que desde fevereiro o Brasil enfrenta um período de chuvas abaixo da média, o que levou o Instituto Nacional de Meteorologia a enviar um aviso de emergência para o período entre junho e setembro para cinco estados: Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso do Sul, São Paulo e Paraná.

De acordo com analistas do banco Morgan Stanley, ainda são esperadas sólidas safras no Brasil comparadas com anos anteriores, mas o tempo seco persistente está levando a uma onda de revisões para baixo nas expectativas de ofertas de grãos.

“Isso coincide com os estoques já pressionados e com uma perspectiva de forte demanda global, principalmente devido à recuperação da pecuária na China”, analisa a equipe da instituição financeira americana. O Morgan Stanley projeta um déficit de 9 milhões de toneladas de soja e de 26 milhões de toneladas de milho para o atual ano-safra, que se encerra em setembro.

A consequência disso é que os preços das commodities devem continuar elevados e descolados de fundamentos como custos e margem dos produtores. “Com as notícias negativas relacionadas ao clima e consumidores tentando garantir seu fornecimento, nós projetamos que os grãos de soja fiquem em US$ 13,80 o bushel, e que o milho fique em US$ 5,50 o bushel em 2021.”

Como lembram os analistas, esses valores estão acima dos custos de produção das duas commodities tanto no Brasil como nos Estados Unidos, que são de US$ 7 e US$ 9 o bushel respectivamente para a soja e de US$ 3 e US$ 4 o bushel respectivamente para o milho.

Já para o ano-safra 2021/22 os analistas esperam pequenos superávits de 12 milhões e 7 milhões de toneladas de soja e de milho respectivamente.

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Voltando à análise do Itaú BBA, os especialistas ressaltam que a “safrinha” – ciclo de plantio e colheita feito depois da safra “normal”, na qual o plantio é feito entre outubro e dezembro, a estação chuvosa –  de milho foi afetada de maneira desigual dentro das microrregiões do Mato Grosso, estado que é o maior produtor da commodity do país. A produtividade de safras por hectare no norte do estado caiu 5%, enquanto a região sul teve uma redução de 8%.

De acordo com o relatório, somando as plantações de Mato Grosso do Sul, São Paulo, Minas Gerais e Goiás, as projeções são de uma disponibilidade de 60 milhões de toneladas comparada com um potencial de chegar a 90 milhões de toneladas.

“Isso ocorreu porque em torno de 35% da área agricultável alocada para o milho foi plantada fora da janela ideal (devido ao atraso na colheita de soja) e a falta de chuvas durante a estação de cultivo de também prejudicou os volumes da safra”, escrevem os analistas do Itaú.

Já para o setor sucroalcooleiro o cenário era de expectativa por aumento nas chuvas, pois as plantações de cana-de-açúcar enfrentaram atrasos na colheita em 2020 durante a estação seca, o que foi frustrado pela realidade meteorológica de 2021.

A consequência imediata dessa situação é que o fornecimento de etanol caiu, uma vez que a maior parte do açúcar já está comprometida para exportações. A redução na oferta do combustível aumentou seu preço na bomba e a paridade com a gasolina, segundo o Itaú BBA, deve se manter próxima de 70%.

Na pecuária os impactos da seca também são sentidos, pois as condições do pasto já estão deterioradas em regiões do Mato Grosso, de Minas Gerais, de São Paulo e do Paraná. “Nós estimamos produção baixa e que a disponibilidade do gado caia ainda mais. Esse cenário é agravado por custos maiores de grãos, que estão contribuindo para os altos gastos dos fazendeiros com alimentação.”

Impacto nas empresas da Bolsa

As empresas do agronegócio que possuem ações negociadas na B3 serão impactadas cada uma à sua maneira, de acordo com o relatório.

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Confira abaixo o compilado de recomendações do Itaú BBA para as companhias do setor

Empresa Ticker Recomendação Preço-Alvo Variação até o preço-alvo***
Hidrovias do Brasil HBSA3 Outperform* R$ 10,00 +60%
Cosan CSAN3 Outperform R$ 30,00 +17,6%
São Martinho SMTO3 Outperform R$ 42,00 +10,5%
SLC Agrícola SLCE3 Outperform R$ 55,00 +7,95%
Ambev ABEV3 Market Perform** R$ 19,00 -1,66%
BRF BRFS3 Market Perform R$ 25,00 -10,55%
M.Dias Branco MDIA3 Market Perform R$ 30,00 -2,98%
Camil CAML3 Market Perform R$ 14,00 +38,61%
JBS JBSS3 Outperform R$ 47,00 +60,79%
Marfrig MRFG3 Outperform R$ 26,00 +39,41%
Minerva BEEF3 Outperform R$ 17,00 +70,34%

*Outperform: espera-se um desempenho acima da média do mercado
*Market Perform: espera-se um desempenho dentro da média do mercado
***Considerando o valor de fechamento da ação no pregão de 10 de junho de 2021

Os frigoríficos JBS (JBSS3) e Marfrig (MRFG3) serão menos afetados, já que estão menos expostos ao mercado brasileiro. As operações no país representam apenas 20% e 14% respectivamente do Lucro Antes de Juros, Impostos, Depreciações e Amortizações (Ebitda) de cada uma das duas empresas, aponta o Itaú BBA.

Por outro lado, a oferta restrita de gado pressionará as margens das companhias nas operações brasileiras e a redução da lucratividade nos lotes de confinamento também deve reduzir a disponibilidade de gado no período. “Esperamos que essas duas empresas continuem a experimentar margens desafiadoras dentro de suas unidades brasileiras de negócios de gado”, avalia o banco.

A Minerva (BEEF3), por ter mais exposição ao mercado brasileiro, deve manter margens comprimidas. “Minerva pode ser a mais afetada de todos os três players de gado listados porque a crise hidrológica pode prejudicar a relação valor de mercado dividido pelo lucro da companhia. Além disso, nós destacamos que o real mais forte deve impactar as margens das exportações”, completam os analistas.

No ramo de processados de frango, a BRF (BRFS3) deve ser pressionada pelos custos nos preços de grãos, que já estão mais elevados desde a metade do ano passado. “Devido à seca atual, a perspectiva de oferta se tornou ainda mais comprimida e a inflação dos custos deve continuar sendo um tópico recorrente pelo restante do ano de 2021.”

Vale lembrar que, recentemente, chegaram as primeiras cargas de milho argentino importadas pela JBS e pela BRF, que buscam no país vizinho uma alternativa ao produto nacional por causa da quebra de safra.

Um carregamento de cerca de 35 mil toneladas foi desembarcado ao final de maio, no porto de Paranaguá (PR), e um segundo de aproximadamente 30 mil toneladas chegou a Rio Grande (RS) no meio da semana passada, de acordo com informações da Reuters.

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Entre as produtoras de açúcar, Cosan (CSAN3) e São Martinho (SMTO3) terão suas produtividades negativamente afetadas pelas duas estações de secas combinadas. O lado positivo é que como a maioria das vendas de açúcar já estão comprometidas com exportações, a comparação dos preços entre o etanol e a gasolina pode subir.

“As margens maiores do etanol, neste caso, poderiam parcialmente ofuscar a menor produtividade da safra”, apontam os analistas.

Na mesma linha, falando especificamente sobre a São Martinho, os analistas da XP Leonardo Alencar e Larissa Pérez, destacam que os preços recordes tanto para o açúcar como para o etanol, junto com o real depreciado, mostram que o momento atual poderia ser um dos mais positivos da história para o setor sucroalcooleiro não fosse o clima seco.

Outro fator que é citado como positivo pela XP é a Oferta Pública Inicial (IPO, na sigla em inglês) da Raízen, que segundo Alencar e Larissa, deve aumentar a transparência do segmento.

A São Martinho trabalha com projeções de longo prazo do barril do petróleo a US$ 55 (contra US$ 72,79 o barril do Brent hoje) e do açúcar a US$ 0,15 por libra-peso com um dólar médio a R$ 5,00. E o cenário de demanda global pelos derivados da cana é auspicioso depois que a Índia antecipou sua meta de ter pelo menos 20% de etanol no mix de combustíveis de 2025 para 2023.

Concluindo o relatório, a XP aponta que os efeitos da seca nos negócios da São Martinho devem ser mitigados pelo incremento tanto nos preços do açúcar quanto nos do etanol. A XP tem recomendação de compra para as ações SMTO3 com preço-alvo de R$ 38,00, o que corresponde a uma virtual estabilidade ante o fechamento da véspera (R$ 38,01).

Já o BBA aponta que, exposta à safra do milho, a SLC Agrícola (SLCE3) teve a maior parte das suas plantações impactadas pela falta de chuvas, o que levou a uma revisão do guidance para um valor 20% menor de produtividade do produto conforme divulgado na demonstração de resultados da companhia no primeiro trimestre.

Porém, não é tudo negativo para a SLC, pois a empresa fez hedge para aproximadamente 74% da safra atual de milho e, assim, provavelmente será capaz de garantir preços acima da média no mercado à vista.

Além disso, os analistas do BBA explicam que a empresa também fez hedge em níveis mais elevados para a próxima safra, uma vez que os preços dispararam desde o início do ano.

Em alimentos e bebidas, Ambev (ABEV3), Camil (CAML3) e M.Dias Branco (MDIA3) têm efeitos limitados por ora, avaliam os analistas do BBA. Sobre a Ambev, o Itaú comenta que os custos pressionados de grãos são um fator importante, mas não crítico para o próximo ano. As preocupações da cervejaria seriam mais com a inflação do alumínio e do malte.

Camil e M.Dias Branco, por sua vez, teriam como vantagem o menor impacto da crise hídrica em arroz e trigo, culturas cujas colheitas já estavam em estágios mais avançados quando a falta de chuvas começou, apontam.

Por fim, para Hidrovias do Brasil (HBSA3) o abalo é maior no sul do Mato Grosso, mas essa região é menos relevante nos negócios da companhia do que o norte do estado. As operações no Sul do país, por sua vez, é afetada porque desde o ano passado as condições hidrológicas no Paraná e no Paraguai estão piores do que a média histórica, o que prejudicou os resultados da companhia no segundo semestre de 2020 e no primeiro trimestre de 2021.

Confira abaixo o compilado de recomendações de bancos, corretoras, consultorias e casas de análise para as empresas citadas nesta reportagem de acordo com dados da Refinitiv:

Empresa Ticker Recomendações de compra Recomendações neutras Recomendações de compra Preço-alvo médio Variação média até o preço-alvo
Hidrovias do Brasil HBSA3 8 0 0 R$ 9,79 +56,64%
Cosan CSAN3 3 3 0 R$ 26,73 +4,78%
São Martinho SMTO3 8 6 0 R$ 35,22 -7,34%
SLC Agrícola SLCE3 7 1 0 R$ 51,00 +0,1%
Ambev ABEV3 4 7 3 R$ 16,78 -13,15%
BRF BRFS3 5 8 0 R$ 28,81 +3,08%
M.Dias Branco MDIA3 3 4 2 R$ 35,94 +16,24%
Camil CAML3 2 4 0 R$ 13,83 +36,93%
JBS JBSS3 12 2 0 R$ 38,94 +33,22%
Marfrig MRFG3 8 4 0 R$ 22,45 +20,38%
Minerva BEEF3 7 4 0 R$ 14,95 +49,80%

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Valor Bruto da Produção Agropecuária em 2021 deve ser de R$ 1,076 bi; 12% acima de 2020

O Valor Bruto da Produção Agropecuária (VBP) deste ano deve ser de R$ 1,076 bilhão, 12,1% acima de 2020, segundo o Ministério da Agricultura. Com base no desempenho do setor em abril, as lavouras continuam liderando o indicador, com faturamento de R$ 741,2 bilhões (+16%), e a pecuária, R$ 335,1 bilhões (+4,4%).

Em nota, o coordenador da pesquisa e de Avaliação de Políticas e Informação do Ministério da Agricultura, José Garcia Gasques, disse que a falta de chuvas no período de plantio do milho, soja e feijão prejudicou pontualmente essas lavouras, mas ainda assim houve aumento de produção. “Permanecem, em essência, os valores que representam resultado recorde da produção em 2021”, disse.

Conforme a pasta, houve crescimento do VBP do algodão (+3,7%), do arroz (+4,8%), da banana (+2,4%); do cacau (+8,3%); da cana-de-açúcar (+1,3%); do milho (+22,7%), da soja (+31,3%) e do trigo (+25,4%). Na pecuária, os melhores resultados são no segmento de carne bovina, com crescimento previsto em 10,3%, e carne de frango, com alta de 2,2%.

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Credit Suisse vê safra 21/22 como melhor momento da história do agro brasileiro e eleva projeções para ações do setor

Produção de soja, commodities, agricultura (fotokostic/GettyImages)

SÃO PAULO – Animados com um aumento no valor da terra no Brasil e em meio à disparada dos preços da soja, os analistas Victor Saragiotto e Felipe Vieira, do Credit Suisse, acreditam que a safra de 2021/2022 será a melhor da história para o agronegócio do país.

Em relatório, a equipe de análise manteve recomendação outperform (desempenho acima da média do mercado) tanto para as ações da Brasil Agro (AGRO3) quanto para os papéis da SLC Agrícola (SLCE3).

De acordo com Saragiotto e Vieira, nunca se viu tanto otimismo entre os fazendeiros do Mato Grosso do Sul e do Pará. “Desde o início de 2018, quando a dinâmica das indústrias no Brasil começou a ser positivamente afetada pela guerra comercial entre EUA e China, os preços do grão de soja aumentaram em 2,5 vezes. Milho e algodão também tiveram um sólido desempenho, com os preços triplicando e dobrando, respectivamente, no mesmo período”, explica.

Eles ressaltam que mesmo os preços do gado, que historicamente são menos voláteis, apreciaram-se em 60% ao longo de 2020.

“Consequentemente, nós acreditamos que a safra de 2021/22 vai ser o melhor momento para o agronegócio em sua história. E isso deve durar por algum tempo ainda.”

Além disso, segundo o Credit Suisse, o solo arável, que é negociado em função de sacas de soja por hectare, mais do que dobrou de preço desde o início de 2018. Assim, conforme a lucratividade melhora, os analistas dizem que será possível ver fazendeiros pagando mais pela terra.

“Pelo menos provavelmente haverá uma aceleração no ritmo de valorização de terras não maduras. Como a lucratividade agora é recorde, ela estimula a expansão da área plantada e oferece suporte a uma melhor dinâmica de preço para a terra”, destacam.

Em termos de oferta e demanda de soja, o banco projeta que na colheita de 2020/21 haverá um déficit de 6,4 milhões de toneladas globalmente, menos que as 18 milhões de toneladas registradas na safra passada. No entanto, a relação entre estoque e uso deve atingir seu menor nível em sete safras, algo que beneficia os preços.

Para o milho, por sua vez, o déficit entre oferta e demanda deve chegar a 11,9 milhões de toneladas, em linha com os 11,7 milhões da última colheita.

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Já para o algodão é esperado um leve superávit de 200 mil toneladas de algodão, também em linha com o que ocorreu na última safra.

Brasil Agro

A Brasil Agro continua sendo a preferida do banco em termos de exposição à valorização das terras no Brasil. Escrevem os analistas que a maior parte do VPL (Valor Patrimonial Líquido) da empresa vem do valor de suas propriedades e o aumento nos preços das fazendas deve ter como consequência um crescimento neste VPL.

“Em um cenário conservador enxergamos o novo VPL da companhia em R$ 47,80 por ação, o que implica em um atrativo desconto de 27% nos papéis AGRO3.”

Diante disso, o Credit Suisse manteve recomendação outperform (desempenho acima da média do mercado) para os papéis da Brasil Agro, elevando o preço-alvo de R$ 22 por ação para R$ 50 por ação. Considerando o valor de R$ 33,33 com que fecharam as AGRO3 na terça-feira (12) isso significa um upside (valorização) de 50,02%.

Segundo dados compilados pela Refinitiv, as ações da Brasil Agro acumulam quatro recomendações de compra, nenhuma neutra e nenhuma de venda. O preço-alvo médio estimado por analistas para os papéis AGRO3 é de R$ 37,00, o que corresponde a uma valorização de 11,01% sobre o patamar de fechamento das ações na véspera.

SLC Agrícola

No caso específico da SLC, os analistas enxergam uma “rara combinação” de crescimento da produção na esteira do aumento de 40% na área plantada com fortes preços futuros para todas as commodities vendidas pela empresa.

“Apesar dos 90% de valorização no preço dos papéis este ano ainda vemos espaço para maior apreciação no valor das SLCE3”, afirma o banco suíço.

Saragiotto e Vieira projetam um Ebitda (Lucro Antes de Juros, Impostos, Depreciações e Amortizações) atingindo R$ 2,3 bilhões no ano de 2022, contra R$ 960 milhões em 2020. Nesse caso, a ação operaria a um múltiplo de 4,8 vezes o valor de mercado da companhia dividido pelo Ebitda, o que está abaixo das 8 vezes que são a média histórica do ativo.

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Como consequência, os analistas elevaram o preço-alvo das ações da SLC Agrícola de R$ 27,50 a R$ 70, o que corresponde a uma valorização de 23,92% ante o fechamento do pregão anterior.

As ações da SLC possuem oito recomendações de compra, uma neutra e nenhuma de venda. O preço-alvo médio das SLCE3 é de R$ 51,00, patamar 9,72% abaixo do valor de fechamento dos papéis na última terça.

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O CRA Garantido como instrumento de fomento aos pequenos produtores

No último dia 29 de março, foi emitido o primeiro Certificado de Recebíveis do Agronegócio (CRA) que contou com garantia do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).

Foi a 59ª Emissão da Ecoagro, com lastro em notas promissórias emitidas por produtores pessoas físicas e jurídicas clientes ou associados à Cotrijal Cooperativa Agropecuária e Industrial, uma cooperativa agropecuária sediada na cidade de Não-Me-Toque, no Rio Grande do Sul.

A operação foi revolucionária para o mercado de capitais do agronegócio, que ainda não conseguiu transpor adequadamente a barreira das operações de financiamento corporativo.

Desde a segunda metade da década de 1990, o mercado de crédito rural foi marcado pelo fomento direto do BNDES. Com o esgotamento das fontes oficiais de crédito rural, o banco implementou uma série de programas de investimento com intuito de alavancar a infraestrutura produtiva de agricultores e cooperativas.

Ao desenvolver esse papel, foram geradas duas importantes consequências para o mercado de crédito a pequenos e médios produtores.

Em primeiro lugar, o acesso a crédito a taxas subsidiadas e carências alongadas fez as condições oferecidas pela inciativa privada, a taxas de mercado, não serem atrativas a produtores “mal-acostumados”.

A segunda consequência está atrelada à falta de fiscalização do direcionamento dos recursos. As linhas de financiamento acabam se tornando meros empréstimos, com indevidos desvios de finalidade.

Esses fatores incentivaram os produtores rurais a não se estruturarem para acessar outros tipos de crédito, principalmente via mercado de capitais, que, em regra, é mais rígido quanto ao controle da destinação de recursos, garantindo assim o investimento na infraestrutura produtiva.

Entretanto, o BNDES parece estar revisando sua atuação no segmento.

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O CRA Garantido (como vem sendo chamado o CRA com essa modalidade de garantia do BNDES) materializa a nova postura da entidade, que vem a reboque de um novo marco regulatório do financiamento ao agronegócio, iniciado com a Lei do Agro (Lei nº 13.986 de 7 de abril de 2020), e, mais recentemente, com a criação dos Fundos de Investimento nas Cadeias Produtivas Agroindustriais (Fiagro) pela Lei 14.130 de 29 de março de 2021.

Foram emitidas três séries de CRA (sênior, mezanino e subordinada), sendo a sênior a única que contou com o aval do BNDES. Aplicou-se uma taxa de equivalente a 100% da variação acumulada da Taxa DI, acrescida da taxa prefixada de 0,5% ao ano (em um ano de 252 dias úteis). Isso equivale hoje a uma taxa de juros de 3,15% ao ano. Ainda que pós-fixada, é muito atrativa para um financiamento rural.

A garantia tem, obviamente, um custo. Ele não está refletido na taxa de juros, mas sim no custo “all in” da operação, que correspondeu a uma comissão de R$ 515.366,93 a ser paga pela securitizadora, descontado do preço de integralização dos CRA.

Aqui fica uma possível crítica: não estaria o BNDES apenas trocando o veículo pelo qual o produtor rural obtém financiamento a taxas subsidiadas?

Nesse ponto, eu vejo o copo meio cheio, como um bom otimista. A participação do BNDES vai servir de catalizador para esse tipo de captação de recursos. Caso o histórico dessa e das próximas emissões de CRA demonstrem que a estruturação foi adequada, que o arcabouço contratual e de demais garantias foram seguros e suficientes, bem como que não se teve um histórico de inadimplemento justificando a execução da garantia, pode haver aí um caminho para futuras emissões sem a necessidade do aval do BNDES. Não vai ser logo, mas terá sido dado o primeiro passo.

Inevitável comparar o CRA com o Certificado de Recebíveis Imobiliário (CRI), que está uma década à frente em termos de regulação e aplicação prática.

É certo que hoje o CRI consegue fomentar o pequeno empreendedor imobiliário, ainda que em sua maioria por meio de ofertas restritas captadas junto a investidores profissionais, seja ele um incorporador em São Paulo ou uma loteadora no Mato Grosso.

Com o CRA Garantido, deu-se um primeiro passo para que o certificado rural atenda os pequenos e médios produtores, a meu ver com uma capacidade de crescimento muito maior do que o mercado de CRI.

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Obviamente, pelo pioneirismo e pelos riscos que permeiam um “novo produto”, a emissão foi objeto de oferta restrita destinada apenas a investidores profissionais, cuja distribuição foi realizada pelo Banco Alfa, na figura de coordenador líder da oferta.

Outro ponto que vale a pena destacar é que o lastro dos CRA emitidos na operação analisada foram notas promissórias.

A primeira operação com lastro em nota promissória da qual participei foi em um CRA emitido em agosto de 2019, já dentro da regulamentação da Instrução CVM 600, com regras específicas sobre a emissão e oferta de CRA. Desde então, esse tipo de lastro vem se popularizando na securitização, tanto por meio de CRA quanto de CRI.

No caso do CRA da Cotrijal, as notas promissórias foram emitidas por produtores rurais, tendo cada uma delas a vinculação de Cédula de Produto Rural (CPR) com penhor cedular de soja ou milho (mas considerando a possibilidade de se atrelar mais de uma cultura como garantia de uma emissão, outra atipicidade do caso, pois em regra as garantias se limitam a um só tipo de cultura).

As formalizações das notas promissórias e das CPRs são verificadas por um agente de formalização e cobrança extrajudicial, contratado na operação para este fim, que deve verificar e atestar a existência e a exigibilidade dos direitos creditórios do agronegócio e das CPR, bem como sua legalidade, legitimidade, veracidade e correta formalização.

Isso, sem dúvida, dará uma maior segurança à operação e diminuirá o risco, tendo em vista a pulverização dos devedores.

Tenho muita esperança de que esse projeto piloto do BNDES ganhe escala, que o CRA com aval do BNDES se concretize como um fator de democratização do crédito e que permita o acesso dos pequenos produtores ao crédito por meio do mercado de capitais, com riscos adequados ao investidor, taxas acessíveis ao produtor rural, bem como segurança e previsibilidade para ambos os lados.

Agro é pop, mas não na Bolsa. Por quê?

Os 64 IPOs de 2007 entraram para a história da bolsa brasileira. Trata-se da maior quantidade de aberturas de capitais já registradas por aqui.

Um olhar histórico, porém, revelaria um outro período que, no agregado, merece também atenção. Entre 1905 e 1913 o país registrou nada menos do que 250 aberturas de capital, incluindo aí a Alpargatas, cujo IPO ocorreu há 108 anos.

Em comum, os dois períodos se conectam por uma peculiaridade da economia brasileira: a dependência dos ciclos externos.

O período que antecedeu a primeira guerra mundial viu um balão de ensaio da globalização e da demanda global por commodities, cuja força foi tamanha que tornaria a Argentina a quarta maior economia global, mas que viria a ser adiado em função do exibicionismo de Franz Ferdinand e da guerra propriamente.

Ainda assim, o Brasil viu ali o poder do comércio global e sua economia reagiu como era esperado, com certa euforia. Empresas de infraestrutura se lançaram nas bolsas de São Paulo e do Rio de Janeiro atrás dos recursos cada vez mais abundantes proporcionados pelas exportações de café e borracha, e criaram o primeiro boom capitalista do Brasil.

De fato, este é apenas um dos tantos exemplos de como o agro permeia nossa história e está diretamente conectado com grandes momentos da economia nacional.

Foi do agro, por exemplo, que nasceu o impulso para o porto de Santos, a joia da coroa da infraestrutura brasileira que sob a batuta da família Guinle se tornou o maior de todo hemisfério sul.

Discutir os motivos de um setor tão relevante na nossa história estar “de fora” da bolsa brasileira é portanto uma questão crucial, sob inúmeros aspectos.

O primeiro deles diz respeito à própria bolsa brasileira. Temos hoje cerca de 380 empresas listadas, menos da metade das chamadas “grandes empresas” existentes no país.

Um número tão baixo demonstra que, de fato, a bolsa não chega a ser um espelho da economia. Para se ter uma ideia, em 1986 o país possuía 568 empresas listadas, o maior número desde que o Ibovespa nasceu.

Outra questão se torna também mais relevante. O custo para abrir capital e manter uma SA no país ainda é elevado, afastando empresas que, em outras condições, poderiam buscar recursos em ofertas públicas de ações.

Este é, de longe, um dos pontos mais relevantes para discutir a relação entre o agro e a bolsa, portanto.

Como os ciclos mencionados acima demonstram, a bolsa sempre esteve focada em grandes empresas e grandes projetos. Das 250 aberturas de capital no início do último século, cerca de ⅕ está diretamente relacionado ao setor de ferrovias, que dependem do agro, mas possuem uma escala maior enquanto empreendimento.

O agro brasileiro, como é próprio do setor no mundo, é extremamente fragmentado, e portanto com poucas opções de empresas de escala relevante para uma abertura de capital.

Isso, porém, não impede que, destrinchando os setores do próprio agro, encontremos oportunidades de consolidação. Este é o caso da Boa Safra, o mais recente do setor.

Em seu prospecto, a empresa lista como objetivos consolidar o setor de sementes, com exemplos como o mercado americano, onde 3 empresas dominam a área, contra uma miríade de empresas por aqui.

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Também nos objetivos do IPO da Boa Safra a questão relativa à demanda de capital de giro chama atenção. 

Por se tratar de um setor que depende de ciclos de commodities, além do próprio ciclo de plantações, o agro acaba tendo peculiaridades em termos de demanda por financiamento.

Na utopia planejadora brasileira, temos três bancos estatais com funções distintas: a Caixa, que financia mobilidade, construção e outras questões relativas às cidades; o BNDES que financia grandes indústrias e projetos de infraestrutura (como um porto em Cuba); e o Banco do Brasil, que financia o agro.

Como você já deve ter entendido, o BB atua em um efeito chamado de “crowding out”. Em suma, como ocorreu quando o BNDES expandiu sua carteira por meio do PSI, o Programa de Sustentação do Investimento, quando um banco público age de maneira deliberada a financiar e subsidiar um setor, as empresas tendem a se afastar da bolsa.

O número de IPOs no período da loucura do BNDES é uma amostra de como isso pode ser nefasto. Um efeito pouco medido, entretanto, é a perda na área de gestão.

Ao contrário de um banco que lhe empresta dinheiro com juros menores que a taxa Selic, como foi o caso, a bolsa lhe cobra resultados, inovação, melhora nos processos.

Em suma, o Banco do Brasil e seu Plano Safra, os subsídios, perdões fiscais garantidos pela bancada ruralista, jogam água no chope aprisionando assim o setor cuja produtividade mais cresce na economia.

Ao garantir facilidades, as políticas de governo criam pouco ou nenhum incentivo para que o setor busque melhorias de gestão ou consolidação.

Na outra ponta, temos uma bolsa que ainda luta para inovar e ampliar a oferta de opções de investimentos.

O que temos, porém, são boas oportunidades de consolidação nos setores auxiliares à produção.

A Cosan, maior produtora de etanol do mundo, é um bom exemplo. Trata-se de um grupo que produz commodities agrícolas, mas que se expande para infraestrutura, através da Rumo.

A própria JBS, maior processadora de carnes do mundo, também poderia ser citada como exemplo bem sucedido de consolidação no setor (talvez consolidação até em excesso).

É pouco provável que o jogo de incentivos que mantém o produtor rural fragmentado vá mudar, ou que a bolsa vá conseguir competir diretamente pelo produtor, mas as opções auxiliares ainda constituem uma grande aposta.

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Mercados agrícolas trazem ganho recorde para Cargill no Brasil

(Bloomberg) — Os ganhos das commodities agrícolas impulsionaram o lucro da Cargill para nível recorde no Brasil, o maior exportador de soja.

A unidade brasileira da maior trading de commodities agrícolas do mundo teve lucro líquido acima de R$ 2,1 bilhões e receita de R$ 68,6 bilhões no ano passado, um recorde. A empresa se beneficiou dos preços mais altos no mercado global, da alta do dólar frente ao real, da forte demanda e da oferta global mais apertada, disse Paulo Sousa, CEO da Cargill no Brasil.

Os resultados ilustram como a trading se favoreceu com a retomada do negócio de compra e venda de produtos agrícolas, que há anos enfrentava baixas margens. No ano passado, a Cargill, uma das maiores empresas de capital fechado dos Estados Unidos, parou de publicar resultados para o grupo em geral, depois de décadas de divulgação.

Em entrevista, Sousa disse que os agricultores brasileiros viram os preços subirem tanto em dólares quanto em reais. Segundo ele, vários fatores ajudaram: boas safras, preços altos e desvalorização do real.

Potência agrícola

O lucro da Cargill no Brasil foi multiplicado por cinco no ano passado, enquanto a receita aumentou 38%, disse a empresa. A trading de Minneapolis investiu R$ 3,7 bilhões nas operações brasileiras nos últimos cinco anos e quer continuar crescendo na potência agrícola.

O aumento dos preços das commodities agrícolas ocorre no momento em que a China compra grãos dos EUA para alimentar o plantel de suínos que se recupera da peste suína africana mais rápido do que a maioria das tradings esperava. Isso se somou a cortes na produção dos EUA do ano passado e aumento da demanda, enquanto países estocavam devido a preocupações de segurança alimentar. Um indicador dos preços de grãos subiu para a máxima em oito anos, impulsionado em parte pelo clima adverso no Brasil.

A safra de soja do Brasil, agora em sua última etapa, foi plantada e colhida tarde, mas a produção acabou sendo boa, disse Sousa, que não quis divulgar a estimativa da Cargill. O atraso fez com que a safrinha de milho perdesse a janela ideal de plantio, afirmou.

Além disso, ele destacou a falta de chuva e um clima mais seco do que o ideal no Centro-Sul. “Principalmente Paraná, Mato Grosso do Sul, São Paulo e partes de Minas Gerais e Goiás estão em um cenário no qual as expectativas de produção estão sendo reduzidas.”

Sustentabilidade

Os preços elevados começam a reduzir as margens de produtores de aves e suínos no Brasil, mas os custos ainda não são altos o suficiente para conter a demanda, de acordo com Sousa. Embora haja rumores de que fabricantes brasileiros de ração estejam migrando para o trigo, a Cargill diz que qualquer mudança no país seria limitada.

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Ele destaca que o milho e o farelo de soja são os grandes componentes das rações, “então não há muitas opções”.

A agricultura brasileira é rentável e continuará se expandindo com o aumento das áreas plantadas, afirmou. O maior risco é a percepção internacional de que o país carece de padrões de sustentabilidade no que diz respeito ao desmatamento, seja essa percepção verdadeira ou não, disse Sousa.

Segundo ele, se a agricultura brasileira não conseguir mudar essa percepção, vai sentir o impacto no futuro, principalmente em mercados mais desenvolvidos como a União Europeia, que tem metas rígidas para a redução das emissões no setor de alimentos. Sousa destaca que alguns dos maiores produtores estão cientes disso e já começaram a adotar práticas de baixo carbono.

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