Coronavírus levanta questão existencial para setor que movimenta US$ 3 trilhões no mundo

(Bloomberg) – Desde que quase morreu por Covid-19 no início deste ano, o primeiro-ministro do Reino Unido, Boris Johnson, embarcou em uma missão para reduzir sua cintura e a de seus conterrâneos.

A relação entre obesidade e casos mais graves de coronavírus ajudou a inspirar Johnson a abandonar sua postura libertária em favor da intervenção do estado nos últimos meses. Seu governo propôs restringir a publicidade de junk food, banir certas promoções de alimentos açucarados e gordurosos e obrigar cafés e restaurantes a colocarem rótulos de calorias em mais produtos.

O maior controle deu a investidores do setor global de alimentos e bebidas, que movimenta US$ 3 trilhões, motivo para uma pausa. À medida que a pandemia destaca a importância de uma dieta saudável, governos além do Reino Unido podem optar por impor mais medidas contra a obesidade, mudando ainda mais a maneira como fabricantes de refrigerantes, cereais matinais, barras de chocolate e refeições prontas conduzem o negócio.

“Vemos que a Covid poderia muito bem reforçar escolhas e regulamentações mais saudáveis”, disse David Czupryna, responsável por desenvolvimento ambiental, social e de governança da Candriam, com sede em Paris, que administra cerca de US$ 143 bilhões em ativos. “Colocar no mercado produtos altamente prejudiciais à saúde é uma maneira muito ruim de cuidar de seus clientes. As autoridades podem muito bem decidir mirar empresas que são as principais responsáveis pelo comportamento alimentar não saudável.”

Czupryna diz que a gestora vê questões relacionadas à saúde e obesidade como “um risco muito grave” para empresas envolvidas na fabricação de junk food e bebidas açucaradas com o “tamanho de seu mercado diminuindo devido à regulamentação e mudança no comportamento do consumidor” em um futuro próximo. “Por isso integramos tanto isso em nossas análises, o que pode nos levar a evitar o investimento em algumas empresas e a preferir aquelas que fazem opções de alimentos mais saudáveis e nutritivas”, afirma.

À medida que as economias afundam e o desemprego atinge níveis históricos, milhões de pessoas tentam equilibrar seus orçamentos com a necessidade de porções vitais de frutas frescas, vegetais e proteínas.

Cerca de 3 bilhões de pessoas não podem pagar por dietas saudáveis e nutritivas e, se o aumento global da alimentação não saudável e da obesidade não for combatido, os custos de saúde relacionados ultrapassarão US$ 1,3 trilhão por ano na próxima década, de acordo com as Nações Unidas.

A obesidade quase triplicou em todo o mundo nas últimas quatro décadas e tem aumentado no mundo todo. Pesquisas mostram que pessoas obesas e com sobrepeso correm maior risco de sofrer complicações de Covid-19 e morte, ao mesmo tempo que são vulneráveis a doenças como diabetes, doenças cardíacas, derrame e câncer.

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Empresas pressionam Johnson sobre acordo comercial pós-Brexit

Boris Johnson (Shutterstock)

(Bloomberg) — Depois de se sentirem ignoradas em relação ao Brexit nos últimos quatro anos, empresas britânicas esperam que a sorte mude em 2020.

Enquanto o primeiro-ministro do Reino Unido, Boris Johnson, se prepara para iniciar negociações para um acordo comercial com a União Europeia, o empresariado do país pretende pressionar por um pacto final que limite qualquer estrago na economia. Em jogo, está o acesso ao maior mercado de exportação do Reino Unido.

“Os ministros precisam trabalhar no mesmo ritmo conosco para acertar nos detalhes”, disse Adam Marshall, diretor-geral das Câmaras de Comércio Britânicas, que representam 75 mil empresas. “O foco deve estar em obter respostas concretas para as questões do mundo real enfrentadas pelas empresas e pela economia.”

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O setor privado do Reino Unido passa por um período difícil desde o referendo de 2016, desperdiçando recursos com estoques e planejamento de contingência à espera de prazos que iam e vinham. A grande vitória de Johnson nas eleições pode ter eliminado a incerteza política no curto prazo, mas ainda há dúvidas significativas sobre o futuro relacionamento com a UE e o que isso significará para as empresas.

Quando Johnson se encontrar na quarta-feira com a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e com o principal negociador da UE, Michel Barnier, em Downing Street para discutir os planos para este ano, as negociações não se concentrarão explicitamente no comércio. Mesmo assim, é provável que Der Leyen e Barnier reiterem a escolha do primeiro-ministro: ele pode decidir por um alinhamento próximo às regras do bloco de 27 membros – destino de cerca de 45% das exportações britânicas – em troca de um acesso favorável ao mercado ou procurar divergir das normas da UE à custa de criar barreiras ao comércio.

Prazo apertado

Uma das principais preocupações das empresas é o calendário apertado das negociações comerciais. Johnson tem descartado qualquer extensão à fase de transição do Brexit – com término em 31 de dezembro de 2020. Isso significa que o Reino Unido terá menos de 11 meses para fechar um acordo com a UE. O bloco levou cinco anos para fechar acordos de abertura de mercado com o Japão e com o Canadá e 20 anos para conseguir um pacto com o Mercosul.

“Será uma corrida louca”, disse Anna Jerzewska, especialista em alfândega e consultora independente das Câmaras de Comércio Britânicas. “Não acho que as pessoas entendam o quanto precisamos fazer em um período tão curto de tempo.”

Jerzewska disse que o Reino Unido vai querer realizar uma avaliação de impacto completa do comércio entre o país e a UE antes do início das negociações para saber até onde pode ir. Esse exercício ainda está para acontecer, e o Reino Unido não tem capacidade para fazê-lo rapidamente, disse.

Também é preciso considerar o tempo para a redação jurídica do texto final – um processo potencialmente prolongado, no qual advogados dos países afetados se debruçam sobre o acordo final – e a ratificação pelos estados membros da UE, o que deverá consumir o período de transição de 11 meses.

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