Você sabe o que é bull e bear market?

Bear and bull sculptures outside the Frankfurt stock exchange

Tenho certeza de que você já ouviu os termos “bull market” e “bear market”, ainda mais agora com o reforço de peso do “Vaaaaai tourinho” no nosso time da XP.

Notoriamente famosas no universo dos investimentos, essas expressões que em português significam “mercado touro” e “mercado urso”, respectivamente, estão relacionadas aos movimentos de alta e baixa do mercado de ações na Bolsa de Valores.

Como muitos outros termos e expressões utilizadas no cotidiano dos investidores, não existe uma única origem aceita sobre elas. Porém, uma das explicações mais conhecidas é a que diz respeito à forma como esses animais, touro e urso, atacam suas presas.

Bull market

Bull market, ou mercado touro, é o mercado de alta. Por conta do ataque do touro, que vem de baixo para cima, numa ascendente com a chifrada.

Ou seja, essa expressão é utilizada para dizer que o mercado está em um momento bom e otimista. Em outras palavras, a expectativa é que os preços das ações subam e, com isso, os investidores contem com a possibilidade de lucros maiores em suas operações de compra.

Talvez, você também escute a expressão “bullish” (“como um touro”, em tradução livre), que quer dizer a mesma coisa: mercado em ascensão.

Como funciona o bull market?

Um bom exemplo para você entender como funciona o Bull Market é lembrar da lei da oferta e demanda. Com o mercado otimista, mais pessoas querem comprar ações e, com isso, o preço delas sobe.

O brilhantismo no mundo dos investimentos gira em torno do timing perfeito de quem identificou o touro antes de ele aparecer, comprou os ativos mais baratos e, com isso, pôde lucrar com a venda deles no momento de alta.

Bear market

O bear market, ou mercado urso, é o mercado de baixa, ou seja, quando os preços das ações caem e os investidores estão pessimistas em relação ao mercado.

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No momento do ataque, o urso dá sua patada de cima para baixo, fazendo um movimento descendente. Diferente do touro, que reage com o movimento contrário, atacando sua presa com os chifres e jogando-a “para cima”.

Existe também o adjetivo “bearish” ( “como um urso”, em português), que pode descrever um momento ruim da economia: inflação alta, desemprego crescente ou algum segmento do mercado em baixa, por exemplo.

Ou seja, pode ser um evento geral do mercado ou algo pontual em uma análise microeconômica de um determinado setor.

Como funciona o bear market?

No caso do mear market, estamos falando de um mercado pessimista.

Ou seja, mais investidores querendo vender suas ações, receosos com a possibilidade de sofrerem com possíveis prejuízos — o que faz com que a oferta de ativos seja maior do que a demanda e, consequentemente, fazendo com que o preço deles caiam.

Quem optar por comprar nesse momento de baixa pode ter que esperar muito tempo para ver o lucro na aplicação, já que a queda dos preços pode ser longa.

O mais recomendado é que o investidor procure comprar uma ação quando os preços estiverem no fundo do poço, mas já apresentem algumas sinalizações de melhora.

Ou seja, quando começar a dar indícios de que a tendência de baixa está perdendo força e que a demanda esteja aumentando.

Como se preparar para entrar no mercado de renda variável?

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Devemos fazer uma leitura minuciosa do comportamento do preço no tempo. Com isso, conseguimos ver alguns padrões de candles, alterações de volume e outros estudos que nos darão sinais do que deve estar por vir.

Parece complexo, mas com dedicação e estudo qualquer pessoa pode aprender sobre análise técnica.

Ausência de dados públicos sobre urânio faz com que investidores não enxerguem barganhas no mercado

Hoje fomos agraciados com mais um memo de Howard Marks. Warren Buffett diz que, ao receber um memo de Marks, para o que está fazendo para poder lê-lo. Eu não chego a parar, mas sempre leio com atenção e recomendo que todos também o façam.

Nesse memo, Marks fala sobre as formas de investir em crescimento ou valor (growth and value). Não vou discorrer sobre a íntegra do memo, que preferiria que todos lessem, contudo vou destacar uma passagem que me chamou a atenção. E me chamou a atenção não pela novidade, mas por trazer uma conclusão a qual eu havia chegado na busca por oportunidades assimétricas de investimento.

Marks diz que no passado, barganhas poderiam ser facilmente encontradas por um analista disposto a procurar. O que era difícil era encontrar dados, que não estavam disponíveis com a mesma facilidade de hoje. Por exemplo, ele menciona que os relatórios anuais tinham que ser solicitados às empresas ou estavam disponíveis em bibliotecas públicas. Mas para quem sabia olhar, as oportunidades estavam à vista.

Eu queria traçar aqui um paralelo com a nossa tese de investimento em urânio, que acredito ser sem igual no mundo de hoje. Apesar de os preços terem subido bastante no ano passado e no início desse ano, acredito que ainda estejamos na infância da infância desse mercado.

Algumas ações subiram algo entre 70% a 400% ano passado. O gráfico abaixo da Paladin mostra o comportamento do preço da ação no último bull market, em azul, em contraste com o ponto em que estamos agora, em branco, e nos permite ilustrar o potencial “explosivo” de alta desse mercado.

Como podemos notar, a empresa já mais que dobrou de preço, mas nada que se compare aos mais de 50.000% de alta que ela alcançou no período retratado abaixo. Do começo ao final do bull market, a ação subiu quase 90.000%. Obviamente a empresa hoje é diferente do que era então, está endividada e isso não é, de forma alguma, uma recomendação de investimento.

Fonte: Bloomberg, L2 Capital

Ao se depararem com o Urânio, muitas pessoas não sabem sequer por onde começar para acompanhar esse mercado. Elas não têm acesso ao preço do metal, que é disseminado por casas especializadas, não sabem da existência de relatórios importantíssimos para o setor, que são produzidos em inglês, e ainda por cima têm que lidar com vários promoters, que só atrapalham a vida do investidor.

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O meu ponto aqui é que estamos trabalhando com um mercado opaco, com poucos analistas acompanhando (e a maioria começou há pouco tempo e não têm vasto conhecimento) e cujas informações são mal disseminadas, causando um grande hiato entre quem realmente acompanha esse mercado e quem não está de fora. Exatamente o que Marks falou no seu memo, ou seja, as grandes barganhas estão aí, escondidas na nossa frente.

Continuo acreditando que o mercado de urânio apresenta a melhor relação risco e retorno que já vi na vida e entendo que todos deveriam que o estudá-lo mais. Oportunidades assim não aparecem todo dia.

Disclaimer: Esse texto reflete a opinião do autor e não constitui uma sugestão, recomendação, indicação e/ou aconselhamento de investimento. Nenhuma decisão de investimento deve ser tomada com base nas informações ora apresentadas, cabendo unicamente ao investidor a responsabilidade sobre qualquer decisão que venha a tomar.

O autor detém e negocia ativos ligados ao tema abordado em sua carteira proprietária e/ou na de clientes sob sua gestão remunerada.

Por que as bolsas dos EUA e do Brasil sobem apesar da pandemia ainda longe do fim – e o que esperar

(Foto: Getty Images)

SÃO PAULO – Recorde de casos em um país, mortes constantemente acima de mil por dia em outro, mostrando que a pandemia ainda está longe do fim, conforme ressaltou a própria Organização Mundial da Saúde (OMS) -, mas as bolsas em alta. Os dois países com o maior número de casos e mortes por coronavírus, Estados Unidos e Brasil, também veem as suas bolsas registrarem altas expressivas, inclusive no período em que a crise se tornou mais aguda.

Em 23 de março, quando atingiram suas mínimas em 2020, os índices americanos Dow Jones e S&P 500 acumulavam perdas de mais de 30% no ano, enquanto a Nasdaq caía 23%. Os investidores estavam assustados com o aumento disparado de casos de Covid-19 na Itália e o alto potencial de disseminação da doença pelo mundo, a partir da Europa.

Desde então, contudo, as Bolsas americanas passaram por uma forte retomada, subindo mais de 30% cada uma. O desempenho mais expressivo tem sido da Nasdaq, que não só devolveu toda a perda de março como também atingiu sua máxima histórica nesta semana, acima dos 10 mil pontos, acumulando ganho de mais de 10% em 2020. Já o S&P 500 está bem perto de zerar seu desempenho no ano, enquanto o Dow Jones reduziu a perda para menos de 10% em 2020.

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Já no Brasil, desde a mínima atingida também no fatídico 23 de março, registrou ganhos de 57% em moeda local, voltando ao patamar dos 100 mil pontos no fechamento de sexta-feira (10).

No caso do Brasil, alguns pontos ajudam a explicar a alta recente das ações. O recorde de estímulos para atenuar os efeitos do coronavírus que, em um primeiro momento, favoreceu os mercados desenvolvidos, também impactou os emergentes, que sentiram posteriormente o impacto das políticas dos governos e bancos centrais. Isso não só através da forte liquidez mundial, mas também com as políticas locais para amenizar a queda do PIB.

Um exemplo disso é que, de acordo com estudos da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), a injeção de recursos por meio do auxílio emergencial e da ampliação do Bolsa Família — R$ 122,17 bilhões até 3 de julho — ameniza em dois pontos percentuais a queda do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro prevista para este ano. Isso porque a transferência de recursos para famílias com renda mais baixa leva a um aumento praticamente imediato na demanda.

Alguns dados mostram esses sinais de recuperação da demanda, que deve ter atingido o fundo do poço em maio, sendo também influenciada por reabertura da economia em alguns locais, o que gerou maior ânimo aos investidores e até perspectivas de revisões para cima do PIB por diversas casas de análise.

Conforme aponta a equipe de análise econômica do Bradesco, merece destaque o forte avanço dos indicadores de confiança em maio e junho, ainda que a elevação seja majoritariamente puxada pelos componentes de expectativas. Indicadores de maior frequência, como gastos com cartões de débito e de crédito, tráfego de veículos e circulação de pessoas também sugerem recuperação, refletindo as reaberturas de diversas localidades do país e novas formas de negócios, como intensificação do e-commerce, entregas e drive thru.

“Ademais, as surpresas positivas com a produção industrial e as vendas do varejo em maio não só reforçam que abril foi o pior mês para nossa economia, como também são mais um vetor que aponta para menor queda do PIB no segundo trimestre, em comparação com a anteriormente esperada”, avalia a equipe de análise econômica. As vendas do varejo subiram 13,9% em maio na comparação com abril (bem acima do esperado), enquanto a produção industrial teve alta de 7% (em linha com o esperado).

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O ritmo de retomada é bastante similar ao visto no restante do mundo, ainda que a nossa economia seja relativamente fechada – o que também impulsiona o mercado por aqui. Além disso, a retomada da economia global, principalmente da China, e o desempenho positivo do setor agropecuário têm beneficiado as exportações.

Além desses últimos dados da economia terem reforçado o cenário de que “o pior já passou”, apesar do número bastante expressivo de casos, o ambiente de juros baixos leva os investidores a diversificarem as suas aplicações.

Segundo dados da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima), que representa o setor, a captação líquida foi de R$ 50,1 bilhões no mês passado. Além do estímulo dos juros historicamente baixos, com a taxa referencial Selic a 2,25% ao ano, houve uma mudança no comportamento dos investidores, ressalta a Levante Ideias de Investimento. Nesta crise, o investidor brasileiro manteve as aplicações em fundos mais arriscados, como os fundos de ações e os multimercados.

Os fundos de ações não apresentaram resgates líquidos em nenhum dos meses do primeiro semestre, embora as captações tenham desacelerado entre os meses de abril e de junho. Desde janeiro, esses fundos captaram R$ 49,5 bilhões líquidos. Os fundos multimercados captaram R$ 30,9 bilhões, ficando em segundo lugar.

Vale destacar que, desde o início do ano, houve entrada recorde de pessoas físicas na B3, o que ajudou a atenuar o efeito da saída de investidores estrangeiros. Além dos juros baixos, em relatório recente, o Itaú BBA destacou que i) uma nova geração de investidores que é muito mais propensa a experimentar alternativas de investimento (como ações) e ii) plataformas de distribuição que facilitaram o acesso a produtos de investimentos ajudam a explicar esse movimento. A B3 atingiu em junho 2,648 milhões de investidores ativos pessoas físicas.

Jorge Junqueira, sócio da Gauss Capital, reforça que, tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos, há muitas pessoas físicas participando do mercado, diretamente ou indiretamente, através de fundos. “Os preços baixos das ações são atraentes para elas. Há também que ser considerado o custo de oportunidade: os juros no Brasil estão muito baixos. Em uma conta rápida, toda vez que a gente vê uma queda de 0,1% dos juros longos, a Bolsa deveria se apreciar 1%”, avalia.

“Claramente, os investidores estão adotando uma lente otimista para interpretar os dados econômicos. Decerto, o baixo custo de oportunidade, representado pela Selic próxima de 2% ao ano, contribuiu de forma determinante para essa postura. O fluxo de investidores individuais foi fortemente positivo nos meses de março/abril e continuou robusto em maio/junho. No mês, houve uma entrada de R$ 3,6 bilhões. O comportamento deste segmento pode ser considerado atípico na atual crise”, avalia Frederico Sampaio, diretor de investimentos da Franklin Templeton no Brasil, em carta mensal aos investidores.

Para Junqueira, contudo, as ações de injeção de dinheiro na economia pelo Banco Central foram positivas, mas não bastaria se não houvesse perspectivas de juros menores. “Houve uma mudança estrutural no nosso juro. O nosso portfólio tem um quarto de sua composição alocada em ativos que se protegem de uma eventual inflação, mas não vemos isso acontecendo. E, enquanto não há inflação, os juros podem continuar baixos”, afirma.

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Além disso, o Banco Central tem ido além de injetar dinheiro, tem tomado medidas que estão desburocratizando setores, reduzindo spreads do setor financeiro, isso tudo torna o ambiente melhor para as empresas e para as pessoas, reforça.

Incertezas no radar

Para os Estados Unidos, Junqueira destaca alguns pontos que têm sido emblemáticos nessa trajetória de recuperação. Um é o avanço do mercado online, das empresas de tecnologia, que disparou. “Mas não foram só ações, esse mercado tem crescido suas receitas também em um ritmo muito mais acelerado do que o comum, por isso não entendo que estejamos criando uma bolha”.

Por outro lado, há preocupação com as empresas entrando em recuperação judicial. “Por lá, a Hertz vinha em alta na bolsa e até ia fazer uma emissão de ações para pagar sua dívida. Quando entrou em recuperação judicial, suas ações valiam cerca de US$ 1, mas nos dias seguintes subiram para cerca de US$ 5, sendo que a oferta pública foi barrada pelo órgão regulador”, ressalta Junqueira.

Assim, o maior ânimo dos mercados no Brasil e nos EUA também pode revelar uma certa fragilidade na trajetória de recuperação.

Para Otavio Costa, gestor da Crescat Capital, a disparada das Bolsas americanas se deu principalmente apoiada na enxurrada de dinheiro que o Federal Reserve (banco central dos EUA) despejou na economia, através de programas para combater os efeitos negativos da crise. São trilhões de dólares que, na visão dele, ofuscam o fato de as empresas e o próprio governo americano estarem quebrados.

“A impressão monetária [injeção de dinheiro] acaba não arrumando o problema econômico, não há crescimento orgânico. O déficit do governo deve continuar”, disse. “Investidores iniciantes estão tomando riscos desnecessários, comprando empresas que estão indo à falência, que estão sendo negociadas a 160 vezes seu lucro anual”, completou.

O setor de tecnologia foi um dos que mais subiu recentemente — as ações da Zoom, por exemplo, uma empresa que disponibiliza uma plataforma online para videoconferências, saíram da casa de US$ 67 no fim de dezembro para os atuais US$ 266. Em maio, a empresa chegou a valer mais do que as sete maiores companhias aéreas do mundo juntas.

O estrategista-chefe da Avenue Securities, William Castro Alves, concorda que os preços de muitos papéis nas Bolsas americanas, especialmente no setor de tecnologia, estão esticados e descolados dos fundamentos. No entanto, ele ainda enxerga oportunidades nos demais setores.

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“Apesar de a gente ver o Nasdaq batendo recordes e diversas empresas de tecnologia com preços bastante esticados, há companhias que não surfaram tanto essa onda e que podem, sim, ter uma oportunidade de entrada. Alguns nomes que não participaram desse ‘oba oba’, estão Disney e Coca-Cola”, afirmou.

“Hoje em dia, o investidor consegue ter exposição a setores promissores através de ETF, sem ter a necessidade de fazer o stock picking”, destacou. “Há alguns riscos para a sustentação desse movimento de alta do mercado. Há o risco de China, aumento do embate com os EUA. Há o risco de valuation, claro, concordo que há papéis com preços muito esticados. E há o risco das eleições presidenciais nos EUA em 2020, os protestos e a piora econômica. Meu contraponto é que a economia americana é muito dinâmica e se recupera rápido”, concluiu.

O que esperar?

Assim, apesar do maior ânimo dos investidores, a fragilidade da recuperação econômica – ainda mais levando em conta o risco de futuros lockdowns gerando, novamente, paralisia da atividade -, é um risco considerável tanto para o mercado brasileiro quanto para o americano, sendo em grande parte o motivo para a volatilidade do mercado.

Com isso, há quem veja com cautela o ambiente de maior otimismo dos investidores.

“Continuamos acreditando que o movimento recente foi muito forte, dadas as incertezas ainda presentes no cenário econômico. Neste sentido, não participamos do movimento do mercado de ‘tomada de risco’ e continuamos privilegiando empresas com perspectivas de consistência de resultados e com valuation normalizados atraentes, ainda que não tenham boas perspectivas no curto prazo”, afirma Sampaio, da Franklin Templeton.

Na mesma linha, a gestora Verde Asset destacou em carta enviada a cotistas que, apesar da forte valorização do mercado, o grau de incertezas aumentou “de maneira importante”, chamando a atenção para a segunda onda de contaminações pelo coronavírus nos Estados Unidos, em especial em estados como Texas e Flórida.

Segundo a gestora, enquanto grupos de pessoas ao redor do mundo decidirem não usar máscaras e frequentar lugares fechados, uma queda sustentada dos números de novos casos de Covid-19 deve ser mais difícil.

No Brasil, dado o contexto da pandemia ainda sem sinais evidentes de desaceleração, a Verde avalia que o risco político está reduzido, dada a “guinada na direção do modelo histórico de presidencialismo de coalizão”, mas as sequelas fiscais dos gastos da pandemia deverão permanecer por muitos anos.

Reforçando a maior cautela, estrategistas de mercado, segundo pesquisa feita pela Bloomberg, esperam em média que o Ibovespa encerre o ano a 100 mil pontos.

“Em uma escala de 0 a 10 — com 10 sendo mais otimistas –, estamos 6 em Brasil”, disse Daniel Gewehr, estrategista do Santander. Ele cita como preocupação a diferença entre o crescimento esperado para os lucros das empresas e para a economia. Enquanto o consenso projeta uma taxa de crescimento anual composta de -1% para o PIB brasileiro em um período de dois anos, a projeção para os lucros corporativos é de +4,9%.

Além disso, a retomada da agenda de reformas, que foi deixada em segundo plano em meio à crise, também é vista como crucial para uma melhora sustentável no longo prazo. “O debate voltou à mesa, mas ainda não temos a convicção de que uma série de reformas ocorrerá em 2020”, disse David Beker, estrategista de ações para América Latina do Bank of America.

Contudo, eles acreditam que há oportunidades no mercado de ações nacional. Vale (VALE3), Petrobras (PETR4), BTG Pactual (BPAC11) e Lojas Renner (LREN3) estão entre as preferências do Morgan Stanley, enquanto o JPMorgan recomendou que os investidores foquem em nomes que foram muito descontados recentemente. Os nomes “baratos” incluem Banco do Brasil (BBAS3) — que negocia abaixo de seu valor patrimonial — e GPA (PCAR3) — que acumula queda de quase 20% no ano.

Já análise feita pela Oxford Economics aponta que ações cíclicas e mercados no Canadá, Brasil e Europa podem liderar a próxima etapa do rali do mercado de renda variável, à medida que os ganhos nos EUA começarem a desacelerar. Afinal, apesar do rali desde a mínima atingida ao final de março, a bolsa brasileira segue sendo uma das piores do mundo em dólares.

“Os papéis cíclicos, da “velha economia” provavelmente liderarão a próxima etapa do mercado em alta”, destacou o estrategista Daniel Grosvenor em nota publicada na última semana. “Esses setores parecem baratos e devem cada vez mais se beneficiar de uma aceleração no ciclo de crédito da China”. Grosvenor atualizou o setor de commodities para overweight (exposição acima da média do mercado) e reduziu o setor de healthcare para neutro. Os mercados de Brasil e Canadá foram elevados para overweight.

Já Mark Mobius, considerado o guru dos mercados emergentes, avalia que a recuperação do mercado acionário brasileiro ainda tem fôlego e o índice Ibovespa deve retornar à máxima histórica até o fim do ano. “Estou positivo com o Brasil”, disse Mobius, em entrevista à Bloomberg. Entre as ações de companhias brasileiras, Mobius tem focado em empresas de varejo, internet e tecnologia.

O otimismo é escorado pelo cenário de juro baixo e pelo fato de que um ‘shutdown’ da economia como visto em outros países não se materializou, segundo ele. Alguns estados, incluindo São Paulo, já começaram a retomar gradualmente os negócios.

Contudo, vale destacar: enquanto os setores de varejo e a indústria mostram uma recuperação mais forte, o setor de serviços registrou em maio uma queda de 0,9% na base mensal, na quarta baixa seguida, jogando um balde de água fria em quem previa uma recuperação generalizada e forte da economia brasileira.

Além disso, uma recuperação modesta vista em maio mostrou perda de força em junho, conforme afirmou recentemente o diretor do Banco Central Fabio Kanczuk, descartando a possibilidade de uma recuperação em forma de “V“.

“Como descobriram os donos de empresas que estão tentando retomar as operações, o medo de ser contaminado pelo vírus mantém muitos clientes em casa, mesmo com a reabertura das lojas”, destacou recentemente reportagem da Bloomberg em que traçou um panorama sobre o “fator medo” também afetando a retomada.

“A velocidade que os mercados se recuperaram e a diferença com a economia real nunca foi tão acentuada”, aponta Leonardo Linhares, sócio da SPX.

Dessa forma, a grande esperança de uma recuperação mais forte dos mercados e da economia globais fica para vacinas e/ou medicamentos que sejam capazes de combater e tratar o novo coronavírus. Aliás, a notícia de que o medicamento remdesivir, da Gilead Sciences, reduziu o risco de mortalidade de pacientes com Covid-19 em 62% em comparação com o tratamento padrão foi o grande catalisador para que o  Ibovespa voltasse aos 100 mil pontos e para que as bolsas americanas tivessem um dia de fortes ganhos na última sexta-feira. Além disso, há mais de cem vacinas em estudo, sendo que 21 delas já são testadas em humanos.

Contudo, ainda pode demorar para que alguns desses tratamentos sejam viabilizados para a população em geral. Até lá, ainda que as bolsas continuem em trajetória de ganhos, as incertezas sofre a pandemia também devem seguir impactando os mercados, principalmente em meio aos temores por uma segunda onda.

Por que não devemos ter um novo bull market tão cedo

dólar e o bull market (Shutterstock)

Os bull markets (em tradução livre, o “mercado do touro”, aquele que vai para cima com força) são os períodos nos quais a valorização dos índices acionários é pelo menos 20% superior a um determinado patamar inicial.

O limite de 20% é uma convenção do mercado financeiro para que o mercado entre num bull ou bear market. Mas, na prática, a maioria destes 34 ciclos de alta ou baixa apresentaram variações muito superiores.

Do período pré-crise de 1929 até o recente crash na pandemia do coronavírus, tivemos 17 ciclos de valorização nas bolsas americanas, aquelas que transacionam os maiores valores diários no mundo.

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O mais longo desses ciclos foi justamente o mais recente, iniciado em março de 2009. Até fevereiro deste ano, quando o mercado percebeu que haveria uma pandemia, passaram-se 133 meses e um ganho acumulado de 325%. Também em 2020, o S&P 500 atingiu seu recorde histórico de 3.393 pontos.

Para efeito de comparação, o bull market anterior a este durou 60 meses e teve 101% de valorização, antes de interrompido pelas crise no sistema financeiro entre 2007 e 2008

A média de duração dos 16 ciclos anteriores foi de 52 meses, com ganhos totais médios de 163%. O ciclo de expansão anterior à crise de 1929, por exemplo, teve 97 meses de duração e valorização do índice Dow Jones de 395%.

Mas também foram 17 os ciclos de baixa, os chamados bear markets (o “mercado do urso”, aquele que dorme ou hiberna na maior parte do inverno), vindos na sequência dos bull markets anteriores, com quedas acumuladas de ao menos 20%.

O bear market da crise de 2008, por exemplo, durou 18 meses. Já o bear market mais longo, o da crise de 1929, durou 34 meses.

Economistas e profissionais ligados ao mercado financeiro podem divergir sobre as razões que levam ao início ou ao fim de um ciclo de expansão na economia e nos mercados acionários.

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Isso porque a incerteza ligada aos eventos de cauda ou os cisnes negros (eventos raros com alto impacto, como apontado pelo matemático e escritor Nassim Taleb), ou mesmo aquela ligada à permanência dos fatores que explicam a duração de um ciclo econômico, tornam impossível prever precisamente quando um ciclo específico acaba e outro começa.

Por outro lado, poucos discordarão que esses ciclos existem. A valorização ou desvalorização contínua dos mercados acionários em algum momento precisa refletir um ciclo de expansão ou contração dos lucros das empresas.

Isso pode parecer elementar para alguém mais afeito ao mundo da macroeconomia e das finanças, mas pode nos ajudar a entender onde estava a economia global e os mercados acionários, do ponto de vista cíclico, quando a pandemia de covid-19 passou a derrubar as bolsas ao redor do mundo.

Também nos ajuda a discutir melhor se a recuperação virá em “V”, “W”, “U’, ou outra forma que significaria um retorno mais rápido ou mais demorado ao ciclo de crescimento da economia global e a um novo bull market.

Ciclos diferentes

Em 2007 e 2008, a economia global vinha de um forte ritmo de crescimento, com uma taxa média de 5% a.a. nos anos anteriores.

A taxa básica de juros do Fed (o Banco Central americano), equivalente à taxa Selic do Banco Central do Brasil, chegou a 5% a.a. em 2006. Se manteve em 4,5% a.a. ao final do ciclo de crescimento (ao final de 2008, essa taxa seria reduzida para um patamar flutuante entre 0 e 0,25% a.a.), com a economia americana vindo de taxas de crescimento próximas a 3,5% a.a. em 2005 e 2006.

A China, na reta final do ciclo de crescimento, crescia a 12% a.a. Mesmo a Europa crescia bem acima da sua média recente, com taxas próximas a 3,5% em 2005 e 2006.

Assim, ao final do ciclo de expansão global em 2007, tínhamos uma economia global que vinha de forte crescimento nos anos anteriores e com um nível também elevado de taxas de juros. Um cenário típico das etapas finais dos ciclos de crescimento econômico e bull markets nas bolsas.

A crise de 2007-2008 foi intensa, marcada pela falência do banco Lehman Brothers em setembro de 2008, mas com uma recuperação relativamente rápida e vigorosa da economia global e das bolsas de valores a partir de 2009.

Essa velocidade de recuperação foi possível em grande parte por uma ação maciça e coordenada de bancos centrais que, seguindo o Fed, rapidamente foram convergindo suas taxas de juros para próximo de zero.

Simultaneamente, diferentes programas de compra de ativos injetaram uma quantidade de liquidez até então jamais vista no sistema financeiro global.

De lá para cá o que assistimos foi um novo ciclo de bull market nas bolsas globais, com o S&P batendo recordes atrás de recordes, até atingir mais uma máxima histórica em fevereiro deste ano, no ciclo mais longo de valorização das bolsas americanas desde 1921.

Há os que afirmam que, como este ciclo foi interrompido bruscamente pela pandemia global, não há motivos para que o crescimento econômico e as bolsas não voltem a se recuperar rapidamente. Bastaria a mobilidade das pessoas voltar ao normal ou perto disto.

Este pensamento (independente das projeções sobre o quanto durará a pandemia) sugere que não havia sinais de esgotamento do ciclo de crescimento econômico e de valorização das bolsas antes da pandemia.
Mas os dados não sugerem isso.

Diferentemente do final do ciclo anterior, interrompido em 2007/2008, no início deste ano, e antes da covid-19, o mundo já crescia menos. As projeções de crescimento global eram próximas de 3% a.a.

A China, diferentemente do ciclo anterior, crescia próximo a 6% a.a. e não mais a 12% a.a. A Europa lutava para recuperar taxas próximas a 1,5%, e não mais 3,5%, como no fim do ciclo anterior.

Os Estados Unidos ainda eram a última grande economia a tentar sustentar a sua recente taxa média de crescimento, mas com vários sinais de desaceleração para menos de 2% a.a. na virada de 2019 para 2020.

Neste cenário, alguém diria que os bancos centrais já estavam perto de mais uma rodada de intervenções, mesmo antes da covid-19. É provável. Era esperado.

Mas as margens de intervenção eram muito menores do que aquelas que existiam em 2007/2008, num mundo onde a maioria dos países já operava com taxas de juros negativas, mesmo na parte mais longa das suas curvas de juros.

Acrescente-se a esse cenário os efeitos de uma década de juros muito baixos, que estimularam o apetite por emissões high yield (papéis de dívidas que, por apresentarem risco maior em condições normais de mercado, pagam retornos maiores) e outros ativos de risco elevados.

Antes do início da pandemia ficaram mais intensas as discussões sobre possíveis pacotes de estímulo fiscal, dada a menor capacidade relativa de redução de taxas de juros por parte dos bancos centrais, principalmente na Europa.

Em novembro de 2019, no seu primeiro discurso à frente do Banco Central Europeu (BCE), Christine Lagarde defendeu que governos deveriam recorrer a estímulos fiscais para recuperarem o crescimento econômico na região e que isto não seria mais possível apenas com estímulos monetários.

Um dia depois do discurso de Lagarde, a OCDE fez uma manifestação semelhante. Então, veio a covid-19.

Recuperação rápida?

A queda do PMI chinês (o Índice de Atividades dos Gerentes de Compras, em português) para 40,3 pontos em fevereiro foi a maior da série histórica, que começou em 2004.

A partir da divulgação do PMI chinês, começou um processo de desvalorizações acentuadas e generalizadas nas bolsas mundiais.

Governos e bancos centrais passaram agir ainda mais vigorosamente do que em 2008, frente às projeções de quedas bruscas no nível de atividade, renda e emprego no mundo todo.

Com as novas rodadas de estímulos monetários e fiscais, foi reforçada a visão daqueles que acreditam que o mundo pode retornar ao ciclo anterior de crescimento econômico e de valorização das bolsas, logo que cessem os efeitos mais intensos da pandemia.

Muitos enxergaram nas primeiras fortes quedas das bolsas em fevereiro e março uma excelente oportunidade de compras. Lembraram que a pandemia é um choque transitório na macroeconomia global, por mais severo que seja.

Os fatos e o raciocínio apresentados aqui procuram apontar noutra direção. A recuperação em “V” parece menos provável. As razões deste ceticismo são, pela ordem:

  1. a existência de fortes sinais de desaceleração do crescimento global antes mesmo da pandemia;
  2. o fato de a economia global vir do seu mais longo período de crescimento contínuo;
  3. ações e outros ativos financeiros batiam recordes de valorização, mesmo com desaceleração econômica e projeções de queda nos lucros futuros (o que fez não só o S&P 500 bater sucessivos recordes, mas também a relação de price/earnings médios) , amparados numa oferta de liquidez global jamais vista;
  4. vivíamos num mundo de taxas de juros próximas a zero ou negativas, com significativo encurtamento do espaço do uso de políticas monetárias contracíclicas
  5. as principais economias globais viram crescer significativamente suas relações dívida pública/PIB (diferentemente de ciclos anteriores de crescimento); e
  6. o longo período de taxas de juros muito baixas gerou um novo portfólio de ativos (e passivos) de elevado risco na economia global, com ajustes ainda desconhecidos num período de reversão do ciclo de crescimento

Notem que do ponto 1 ao 6 não há nada que diga respeito ao choque econômico oriundo da pandemia global e às restrições à mobilidade humana.

A pandemia gera um choque (de oferta e de demanda, simultaneamente) numa economia global já com várias características de final de ciclo econômico. E um final de ciclo com desafios provavelmente maiores do que aqueles acumulados no final do ciclo anterior.

Ao final de cada um dos 17 ciclos anteriores de expansão econômica e dos chamados bull markets, o mundo ficou mais rico e mais próspero.

Baseado nos últimos 100 anos, nada indica que isso não se repetirá no futuro e que não teremos lá na frente outro ciclo de crescimento e de valorização das bolsas.

A questão aqui é o timing da recuperação. Antes de um novo bull market, é provável que a economia global se depare com um novo ciclo de retração econômica e de ajustes nos preços de ativos no mercado financeiro, incluindo as ações negociadas nas bolsas de valores.

O raciocínio acima não é baseado na pandemia global, por mais intensa que essa seja.

Mesmo que ela termine relativamente cedo, os ajustes de preços, com todas as incertezas do momento atual, podem ter uma duração mais longa e uma direção oposta daquela que as altas do S&P 500 em março e abril sugerem.

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