Pazuello culpa governo do Amazonas por crise e diz que Ministério da Saúde foi “muito proativo”

O ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello em depoimento na CPI da Pandemia (Foto: Edilson Rodrigues/Agência Senado)

SÃO PAULO – No segundo dia de depoimento à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Pandemia, o ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello manteve a estratégia de blindar o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e seu governo, e responsabilizou o governo do Amazonas e a empresa White Martins pelo colapso no fornecimento de oxigênio em janeiro.

“A empresa White Martins, que é a grande fornecedora, já vinha consumindo sua reserva estratégica e não fez essa posição de forma clara. O contraponto disso é o acompanhamento da Secretaria de Saúde, que não o fez. Se tivesse acompanhando, teria descoberto que estava sendo consumida a reserva estratégica. A responsabilidade quanto a isso é clara: é da Secretaria de Saúde do Amazonas. Da nossa parte, fomos muito proativos”, afirmou.

O senador Eduardo Braga (MDB-AM) rebateu. O parlamentar lembrou que apresentou um pedido formal de intervenção no sistema de saúde do Amazonas, mas que foi negado pelo governo federal.

“Cometeram um crime de responsabilidade para com o povo. Nós sabíamos que iríamos precisar deste hospital de campanha no Amazonas para salvar vidas”, disse o parlamentar.

“Fiz carta ao Presidente da República pedindo a intervenção para salvar vidas, Senador Omar, diante do que nós estamos ouvindo aqui por parte do Ministro da Saúde, da falta de compromisso, da falta de competência, da falta de responsabilidade. Deixou faltar oxigênio. Fecharam o hospital de campanha! E, lamentavelmente, não fui atendido”, completou.

Pazuello disse que a decisão sobre a intervenção no estado não cabia a ele, mas que o assunto foi debatido em reunião de ministros com a participação do presidente Jair Bolsonaro e do governador Wilson Lima (PSC).

Segundo o ex-ministro, o governador era contrário à ação por considerar que a administração estadual tinha condições de enfrentar a segunda onda da pandemia de Covid-19 sem a necessidade de intervenção.

“Essa decisão não era minha. [O assunto] Foi levado à reunião de ministros com o presidente. O governador, presente, se explicou, apresentou suas observações, e foi decidido pela não intervenção. Foi dessa forma que aconteceu”, explicou o general.

A crise em Manaus (AM), cidade que foi duramente atingida por uma explosão de casos de Covid-19 no início do ano que gerou uma escassez de oxigênio em hospitais, é um dos principais temas da CPI da Pandemia.

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Durante a sessão, ao mesmo tempo em que negou ter sofrido pressão de Bolsonaro, o general afirmou que as decisões da pasta eram tomadas, em sua maioria, de forma compartilhada com os níveis de governo estadual e municipal.

“Eu não tomei decisões sozinho lá no Ministério da Saúde, quando eu estava lá. As decisões eram pactuadas, isso quer dizer, discutidas, de uma forma clara e objetiva e técnica com os executivos do Conass e do Conasems. Então, exclusivamente falando deste flanco que é a Saúde, ele é tratado dessa forma”, disse.

“E posso afiançar também ao senhor e a todos os senadores: sim, eu tive liberdade de tomar, no que tange à minha parte das decisões, a liberdade de tomar as decisões. Agora, as demais frentes para a pandemia, elas são realmente conduzidas por outras pessoas”, avaliou.

Senadores do chamado G7 ‒ grupo majoritário da comissão, formado por parlamentares independentes e de oposição ao governo Bolsonaro ‒ em diversas situações sinalizaram uma sensação de que Pazuello estaria assumindo responsabilidades que não seriam exclusivas dele.

“Alguns dos que vieram aqui disseram que a responsabilidade pelo vem acontecendo no Brasil é do presidente Bolsonaro. É o caso do Mandetta e é o caso do Teich. Outros, como o ex-ministro Ernesto Araújo e o ex-Secom Fabio Wajngarten, disseram que a responsabilidade é do senhor e do Ministério da Saúde. Já o senhor vem aqui e diz que tudo que aconteceu é de responsabilidade sua e que o presidente não interferiu na sua gestão. Não sei se o senhor está compreendendo o que está acontecendo. Estamos caminhando para ter um grande responsável: o ex-ministro Eduardo Pazuello”, afirmou a senadora Simone Tebet (MDB-MS).

“O senhor está aqui claramente protegendo uma pessoa por essas informações: o Presidente da República. Tem alguns que estão aqui lhe aconselhando, mas me permita eu aconselhar: estão lhe aconselhando mal, porque esses, na hora de responder ao inquérito, não estarão ao seu lado. Seria melhor o senhor colaborar mais diretamente com esta Comissão Parlamentar de Inquérito, porque ficou claro aqui de quem foi a responsabilidade sobre toda essa tragédia que estamos vivendo”, disse o senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP).

Questionado pela senadora Leila Barros (PSB-DF) sobre ser o único responsável pelo desastre sanitário brasileiro em meio à pandemia, Pazuello respondeu: “É claro que não! Eu não estou dizendo que eu sou o único responsável. Todos os gestores, em todos os níveis, são responsáveis, cada um no seu nível de responsabilidade”.

Pazuello foi a oitava testemunha ouvida pela comissão parlamentar de inquérito, criada para investigar ações e omissões do governo federal no enfrentamento da pandemia e desvio de verbas federais enviadas a estados e municípios.

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Antes dele, o colegiado já recebeu os ex-ministros da Saúde Luiz Henrique Mandetta e Nelson Teich; o atual titular da pasta, Marcelo Queiroga; o diretor-presidente da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), Antonio Barra Torres; o ex-secretário de Comunicação da Presidência da República Fabio Wajngarten; o gerente-geral da Pfizer na América Latina, Carlos Murillo; e o ex-ministro de Relações Exteriores Ernesto Araújo.

O depoimento de Pazuello começou ontem (19), mas precisou ser suspenso após o início da ordem do dia no plenário do Senado Federal. Durante o intervalo, o general teve um mal-estar e foi socorrido pelo senador Otto Alencar (PSD-BA), que é médico.

Veja os destaques do depoimento prestado ontem.

Segundo o parlamentar, a testemunha teve uma síndrome vasovagal, manifestou tontura e o rosto “muito pálido”, mas logo se recuperou após um simples procedimento de posição para reativar a circulação regular no corpo.

Ao deixar a casa legislativa, ontem, Pazuello negou ter passado mal. Hoje, recuou e disse apenas que não foi episódio que justificou o adiamento da oitiva. “isso foi a mídia que colocou. Eu falei: ‘Não, não tem nada a ver uma coisa com a outra, eu não passei mal nesse nível’”.

“Cobaia”

Pazuello foi questionado sobre a plataforma TrateCov, lançada pelo Ministério da Saúde em Manaus. O aplicativo ‒ que ele descrevia como “calculadora que facilita o diagnóstico” de Covid-19 ‒ recomendava o uso de medicamentos sem eficácia comprovada contra a doenças para pacientes que apresentassem sintomas que poderiam indicar contaminação.

Segundo o ex-ministro, o programa nunca chegou a ser lançado oficialmente. O software teria sido “roubado” e “hackeado” enquanto ainda estava em fase de desenvolvimento.

“Embarcamos para Manaus e apresentamos o momento de desenvolvimento dele. Foi feito um roubo dessa plataforma. Foi hackeado por um cidadão. Existe um boletim de ocorrência e uma investigação que chega nessa pessoa. Ele alterou dados e colocou na rede púbica. Quem colocou foi ele. No dia que descobri que foi hackeado, mandei tirar do ar”, disse.

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O presidente da CPI da Pandemia, senador Omar Aziz (PSD-AM), contestou Eduardo Pazuello. Ele disse que o TrateCov chegou a ser lançado oficialmente, com recomendação para uso de cloroquina em gestantes e crianças. Para Aziz, Manaus foi usada como “cobaia”.

“Tudo aquilo que poderiam ter feito com o povo do Amazonas para testar, para usar de cobaia, para fazer experiências foi feito lá. Inclusive, um suposto programa para supostamente identificar se estava com covid ou não. Por que primeiro Manaus?”, questionou.

“O senhor me desculpe, mas não é cobaia. É uma tentativa de melhorar o atendimento ao público”, rebateu o senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ), filho do presidente Jair Bolsonaro. “Não é cobaia”, completou.

“Esse programa que o Ministro Pazuello fala que foi hackeado, ele foi hackeado e colocado na TV Brasil, para vocês terem uma ideia. Na TV Brasil! O hacker é tão bom que ele conseguiu colocar o programa, uma matéria extensa na TV Brasil”, ironizou Aziz.

O senador Eduardo Braga também mencionou reportagem veiculada pela rede pública de televisão em que Pazuello foi entrevistado e campanha publicitária do novo aplicativo.

Governadores

O senador Marcos Rogério (DEM-RO) apresentou, durante a reunião, um vídeo com a compilação de falas dos governadores João Doria (São Paulo), Wellington Dias (Piauí), Flavio Dino (Maranhão), Renan Filho (Alagoas) e Helder Barbalho (Pará) admitindo o uso de cloroquina em ambiente hospitalar para pacientes já diagnosticados com Covid-19.

Segundo o parlamentar, o material seria uma evidência de que a CPI da Pandemia tem direcionado as investigações para atingir o presidente Jair Bolsonaro e preservar condutas adotadas por governadores.

As declarações provocaram reações. Senadores advertiram que as declarações dos cinco governadores sobre o uso da cloroquina foram gravadas no início de 2020, quando ainda não havia informações concretas sobre a eficácia do medicamento.

“Uma coisa que evolui com uma rapidez muito grande é a ciência. A ciência é uma coisa que evolui e protocolos são assinados em grandes revistas de especialistas mensalmente, anualmente… Em março de 2020, se eu tivesse contraído Covid, eu tomaria também cloroquina, porque era o que estava sendo prescrito”, rebateu o senador Omar Aziz.

Hospitais de campanha

Durante o depoimento, Pazuello foi questionado sobre o fechamento de hospitais de campanha abertos com a finalidade de atender pacientes diagnosticados com Covid-19 e disse que esta nunca foi a orientação do Ministério da Saúde.

“Em momento algum, nós fomos consultados quanto ao fechamento de hospitais de campanha, em momento algum”, disse em resposta ao senador Eduardo Girão (Podemos-CE).

A afirmação foi contestada pelo senador Alessandro Vieira (Cidadania-SE), que citou o hospital de campanha de Águas Lindas (GO), administrado pelo governo federal, e fechado em outubro de 2020.

Segundo o parlamentar, o governo de Goiás solicitou a prorrogação do funcionamento do hospital, mas o pedido foi negado pelo Ministério da Saúde. A senadora Leila Barros (PSB-DF) também disse que houve dois requerimentos, negados pela pasta, para que o hospital fosse mantido até pelo menos o final de 2020.

Pazuello também disse que o Ministério da Saúde destinou R$ 112 bilhões a fundos estaduais e municipais para o enfrentamento da pandemia em 2020. Em 2021, foram R$ 40 bilhões. Segundo ele, porém, governadores e prefeitos não utilizaram os recursos disponíveis.

“Em 31 de março deste ano, o saldo não aplicado era de R$ 24,4 bilhões. Isso demonstra que os caixas estavam abastecidos. A missão de prover recursos para estados e municípios de forma tempestiva e na quantidade suficiente foi cumprida”, afirmou.

Vacinas da Pfizer

Questionado pelo vice-presidente da CPI, senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP), o ex-ministro voltou a afirmar que o contrato com a empresa Pfizer para a compra de vacinas não foi assinado no ano passado por falta de autorização legal.

Segundo Pazuello, a farmacêutica norte-americana fez exigências consideradas “impeditivas” pela Advocacia Geral da União (AGU) e pela Controladoria Geral da União (CGU).

“A Pfizer não fazia nenhuma vírgula de flexibilidade”, disse.

Randolfe lembrou que uma minuta da Medida Provisória (MP) 1.026/2020, editada em janeiro deste ano, previa a autorização legal para a aquisição de vacinas.

O dispositivo contava com o aval da AGU e da CGU. No entanto, quando o presidente Jair Bolsonaro enviou a MP ao Congresso, o artigo foi retirado do texto.

“Qual é a diferença da minuta para a medida provisória editada? É que a minuta não tem a assinatura do presidente da República. A medida provisória editada tem. Os ministros queriam. Foi alterado por uma única pessoa” disse, em referência a Bolsonaro.

O impasse só foi resolvido em março, com a sanção da Lei 14.125, de 2021. A norma teve origem em um projeto (PL 534/2021) apresentado pelo presidente do Senado, Rodrigo Pacheco.

“Isso [o impasse envolvendo os ajustes de legislação necessários] atrasou três meses, três meses sem a vacina da Pfizer”, disse Randolfe.

O senador Otto Alencar questionou a competência de Pazuello para assumir a pasta. O parlamentar, que é médico, fez perguntas específicas ao general sobre doenças infectocontagiosas e formas de manifestação da Covid-19. Pazuello admitiu não saber responder.

“O senhor não sabe nem o que é a doença. Não sabe nada da doença. Não poderia ser ministro da saúde, pode ter certeza absoluta. Eu, no seu lugar, não aceitaria. A responsabilidade com a vida é para quem conhece a doença. O senhor tinha que estar com a consciência certa de que tinha o domínio do que era a doença. E o senhor confessa que não sabia absolutamente nada”, disse.

“Agora, não lhe recomendo mais tomar um curso, porque o senhor já saiu do Ministro da Saúde, mas pelo menos reveja, com a sua consciência, os malefícios da falta de protocolos organizados para tratamento da Covid, que já matou 439 vítimas. Pessoas morreram. Ministro, sabe o que é o pior? Dos 441, tem 302 mil que eram aposentados, com mais de 60 anos, que morreram. Era o provedor do filho, do neto; a mulher viúva, que chora nas praças, nas ruas do Brasil; os órfãos, que não vão ter mais o provedor para levar o alimento. Isso não sensibilizou o senhor nunca? O Presidente da República nunca se sensibilizou com isso?”, questionou.

(com Agência Senado e Reuters)

Pazuello preteriu vacina da Pfizer por avaliar que Brasil não precisaria do imunizante, dizem fontes

(Marcelo Camargo/Agência Brasil)

BRASÍLIA – A gestão do então ministro da Saúde Eduardo Pazuello preteriu as negociações com o laboratório norte-americano Pfizer para a compra de vacinas contra a Covid-19 por acreditar que o país não precisaria de mais imunizantes além dos acordos para produção nacional das vacinas Oxford-AstraZeneca e CoronaVac, disseram à Reuters duas fontes com conhecimento da questão.

A discussão sobre a demora na compra da vacina da Pfizer está no centro das investigações da CPI da Covid do Senado. Nesta quarta-feita, presta depoimento à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) o ex-secretário de Comunicação da Presidência da República Fábio Wajngarten, que acusou Pazuello de travar a compra do imunizante.

A avaliação feita dentro do ministério no ano passado era que o importante seria garantir vacinas nas quais o Brasil conseguisse transferência de tecnologia, caso da britânica Oxford-AstraZeneca com a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e da chinesa CoronaVac, da Sinovac, com o Instituto Butantan, conforme as duas fontes, que falaram sob condição de anonimato.

Segundo uma das fontes, entre agosto e setembro do ano passado, a avaliação interna no ministério era ainda de que o país nem precisaria de uma ampla gama de vacinas contra a Covid-19, não justificando assim um acerto com a Pfizer.

Outra fonte contou que Pazuello não considerava necessário sequer negociar diretamente com a cúpula da Pfizer sobre a aquisição do imunizante.

“Quando se fechou o acordo com a AstraZeneca, tinha uma previsão otimista de haver a produção nacional. A Pfizer entra no contexto de o país não precisar dela”, disse a fonte.

A Pfizer apresentou sua primeira proposta de venda de vacinas ao governo brasileiro em meados de agosto de 2020, conforme comunicado da empresa. Na tentativa de acordo que previa o repasse de 70 milhões de doses, o laboratório pretendia entregar as primeiras doses em dezembro passado, mas as tratativas não avançaram.

O primeiro contrato com o laboratório para a compra de 100 milhões de vacinas somente foi assinado em 18 de março, às vésperas da saída de Pazuello do comando do Ministério da Saúde. A vacina já contava com registro concedido pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) há quase um mês.

Naquele momento, por outro lado, o ministério já havia assinado contratos de compra das vacinas Covaxin, da indiana Bharat Biotech, e Sputnik V, da Rússia — ambas até hoje ainda sem aprovação para uso no país por parte da Anvisa.

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Segundo o ex-secretário de Comunicação Wajngarten, em declaração publicada pela revista Veja, ele foi procurado diretamente por representantes da Pfizer após executivos do laboratório não conseguirem se reunir com a cúpula da Saúde na gestão de Pazuello. Uma das fontes disse à Reuters que as informações de Wanjgarten sobre a Pfizer “não estão erradas”.

Embora estivesse claro que não se queria no final do ano passado fechar com a Pfizer, segundo essa fonte, a pasta buscou tentar preservar a relação do laboratório com o Brasil no caso de necessidade de aquisição.

Um memorando de entendimento para a compra de 70 milhões de doses da vacina foi assinado no início de dezembro como uma estratégia para amarrar a empresa, disse a outra fonte.

Somente com o recrudescimento da pandemia no país entre o fim do ano passado e início de 2021 e os atrasos no cronograma de produção da vacina Oxford/AstraZeneca pela Fiocruz o governo decidiu-se pela compra de mais imunizantes — mas, ainda assim, a Pfizer era alvo de ataques.

Críticas públicas feitas pelo presidente Jair Bolsonaro em relação às cláusulas contratuais do imunizante atrapalharam as negociações, disseram as fontes. Em 19 de dezembro, Bolsonaro chegou a dizer que a vacina da Pfizer poderia transformar a pessoa em jacaré.

“Lá no contrato da Pfizer está bem claro: nós (a Pfizer) não nos responsabilizamos por qualquer efeito secundário. Se você virar jacaré, é problema seu”, disse ele, em evento realizado na Bahia.

No dia 23 de janeiro, o Ministério da Saúde divulgou uma dura nota em que disse que as doses iniciais oferecidas pela Pfizer ao Brasil seriam “mais uma conquista de marketing, branding e growth para a produtora de vacina, como já vem acontecendo em outros países”. Afirmou que causaria frustração em todos os brasileiros por serem poucas doses.

O comunicado também informava que havia “cláusulas leoninas e abusivas” estabelecidas pelo laboratório que criavam uma barreira de negociação e compra, citando questões de isenção de se responsabilizar a empresa por efeitos adversos e pequena quantidade de doses ofertadas. Essa nota, aliás, foi avalizada pelo Palácio do Planalto, disse uma das fontes.

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As duas fontes, entretanto, minimizaram as alegadas dificuldades apontadas por integrantes do governo para fechar o contrato com a Pfizer.

“As cláusulas poderiam ser muito bem negociadas. Quem comprou Pfizer, comprou daquele jeito”, afirmou uma delas, destacando que houve um trabalho interno para evitar o fim das negociações com o laboratório em razão de manifestações públicas do governo.

“Era uma justificativa muito boa, mas uma justificativa (a questão das cláusulas)”, disse a outra fonte. “Pense na pandemia, o mundo inteiro trabalhando em conjunto, há uma cooperação mundial. Nesse contexto, há alguma coisa que não possa ser superável? Se os outros países fecharam acordo, o que não pode ser superado”, reforçou.

Diante das críticas de Bolsonaro, a Pfizer afirmou em repetidas notas que não podia comentar detalhes da negociação em curso, mas que as cláusulas apresentadas ao governo estavam em linha com os acordos fechados em outros países, inclusive na América Latina.

“Vale reforçar que a Pfizer encaminhou três propostas ao governo brasileiro, para uma possível aquisição de 70 milhões de doses de sua vacina, sendo que a primeira proposta foi encaminhada pela companhia em 15 de agosto de 2020 e considerava um quantitativo para entrega a partir de dezembro de 2020”, disse a empresa em nota de janeiro deste ano, quando o acordo ainda não havia sido fechado.

O Ministério da Saúde não respondeu de imediato o pedido de comentário, e não foi possível localizar Pazuello ou um representante do ex-ministro para pedir um comentário.

Com a demora nas negociações, as primeiras doses de vacinas da Pfizer só chegaram ao país no dia 29 de abril — mais de quatro meses depois da primeira previsão de oferta. O laboratório deve fechar esta semana um segundo contrato com o governo para fornecer ao Brasil outras 100 milhões de doses do imunizante.

Coronavac

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Outro capítulo nas tratativas de compra de vacinas diz respeito à vacina chinesa CoronaVac.

Mesmo prevendo transferência de tecnologia, a compra da CoronaVac entrou numa espécie de limbo em outubro após Bolsonaro ter vetado o anúncio feito por Pazuello de compra de 46 milhões de doses desse imunizante e dito publicamente que não iria comprar a vacina.

Segundo as duas fontes, no entanto, as tratativas com o Butantan jamais foram totalmente canceladas, apesar das críticas feitas por Bolsonaro ao imunizante por ser fabricado no instituto ligado ao Estado de São Paulo — governado por João Doria (PSDB), desafeto do presidente.

“Era uma disputa pessoal”, disse uma das fontes. “Nunca houve desistência do contrato.”

Planalto prepara estratégia de defesa na CPI, mas disputas internas criam ruído

O presidente Jair Bolsonaro (Foto: Marcos Corrêa/PR)

BRASÍLIA – O governo federal tenta se preparar para enfrentar uma CPI da Covid-19 pouco favorável e municiar o ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello –visto como alvo principal da comissão– com informações para sua defesa, mas disputas internas no Palácio do Planalto prometem causar solavancos na estratégia governista.

O primeiro problema veio de um e-mail encaminhado no final da semana pela Casa Civil para 13 ministérios apontando sobre quais temas cada um deles deveria fornecer informações para subsidiar a resposta governista. A tabela, com 23 afirmações com as quais o governo poderia ser confrontado na CPI, vazou e foi criticada dentro do próprio Planalto como um roteiro para a oposição ainda pior para o governo do que aquele que integrantes da CPI vinham falando.

A Reuters teve acesso à tabela, publicada em primeiro lugar pelo colunista Rubens Valente, do Uol. As primeiras questões são acusações recorrentes feitas ao governo, como ter sido negligente com a aquisição de vacinas, especialmente com a CoronaVac; ter minimizado a gravidade da epidemia e não ter incentivado a adoção de medidas restritivas; e ainda o fato de promover tratamento precoce sem evidências científicas.

A visão da Casa Civil, entretanto, vai além e inclui, por exemplo, uma acusação de “genocídio” de indígenas e que o governo teria criado e disseminado notícias falsas sobre a pandemia através do “gabinete do ódio” do Planalto.

A maneira como o pedido foi feito –por e-mail aos ministérios– e os temas levantados sem uma conversa prévia dentro do próprio Planalto levaram a reclamações e críticas dentro do governo. “Fizeram um roteiro pronto para a oposição”, disse uma fonte do Planalto, sob condição de anonimato. “Conseguiram ser mais realistas que o rei.”

Procurada, a Casa Civil afirmou em nota que a coordenação de ações interministerais é sua função e que não seria diferente em relação à resposta do governo à pandemia. A tabela, diz a nota, mostra que a pasta está fazendo seu trabalho.

“Obviamente, diante da CPI da Covid-19 no Senado Federal, nada mais natural que a Casa Civil reunir todos os dados e números de maneira a esclarecer qualquer questionamento feito no âmbito da comissão, além de se preparar para desmentir narrativas mentirosas que visem apenas atingir e desacreditar o Governo Federal”, afirmou.

A Casa Civil passou a abrigar o ex-secretário-executivo do Ministério da Saúde, coronel Élcio Franco, em um cargo de assessor especial do ministro Luiz Eduardo Ramos, para ajudar a preparar a defesa do governo. Na Saúde passava pelas mãos de Franco, um dos homens de confiança de Pazuello, decisões-chave para a pasta, como todas as negociações para aquisição de vacinas.

De acordo com uma fonte palaciana, o Planalto estruturou um comitê para coordenar a resposta do governo para a CPI, centralizando as respostas do ministério, sob o comando de Ramos — daí o pedido de informações enviado aos ministérios.

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No entanto, do outro lado do quarto andar do palácio, o ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Onyx Lorenzoni, não deve deixar de influenciar na construção de uma estratégia para a CPI. A interlocutores, Onyx tem afirmado que foi convocado pelo presidente Jair Bolsonaro para traçar os caminhos da defesa do governo.

O ex-ministro Pazuello deve ser encaixado justamente em um cargo na Secretaria-Geral para se dedicar a sua defesa — que, em última instância, serve como defesa do próprio presidente. Por enquanto, o general está como adido da Secretaria-Geral do Exército, um cargo de espera até que se abra uma vaga no primeiro escalão da Força, mas tem passado seus dias no Planalto e em viagens com o presidente.

Procurada, a Secretaria-Geral da Presidência não respondeu de imediato a um pedido de comentário sobre o papel da pasta na resposta do governo à CPI da Covid.