Os 10 maiores riscos para os mercados em 2021, segundo a Eurasia

(Bloomberg) — O aprofundamento das divisões nos EUA à medida que o presidente Donald Trump se recusa a aceitar o resultado da eleição está no topo da lista dos principais riscos aos mercados em 2021, e supera até mesmo a pandemia e seu impacto na economia, segundo a Eurasia.

O presidente eleito Joe Biden pode enfrentar desafios nunca antes vistos por um líder do Grupo dos Sete, com cerca de metade do país vendo sua liderança como ilegítima, disseram o presidente da Eurasia, Ian Bremmer, e o chairman, Cliff Kupchan, em nota.

Os países em desenvolvimento demoram para receber as doses da vacina, o que atrasa a recuperação e aumenta o risco de uma crise de dívida. Brasil, África do Sul e Turquia provavelmente serão os primeiros a ter dificuldades nos mercados emergentes, devido a suas grandes economias, fundamentos fracos e dependência de capital internacional.

Segue a lista com os principais riscos:

1. Divisão dos EUA

Recusa de Trump em aceitar o resultado da eleição ressalta uma profunda divisão nos EUA. Embora Biden possa ganhar algum capital político com os republicanos se uma distribuição tranquila das vacinas ajudar a controlar a pandemia, ele ainda enfrenta sérios desafios.

2. Vírus persistente

As vacinas devem ajudar o mundo a recuperar o senso de normalidade em 2021, mas a Eurasia espera que “os países tenham dificuldades para cumprir os cronogramas de vacinação, e a pandemia deixará um legado de dívida pública elevada, trabalhadores deslocados e confiança perdida”. A falta de infraestrutura em mercados emergentes retardará o progresso da vacinação, especialmente para vacinas que devem ser mantidas em refrigeração. Além disso, os países em desenvolvimento não receberão um grande número de doses até que seus pares mais ricos recebam sua parte, o que significará restrições de viagens mais duras e crescimento econômico lento.

3. Onda verde

Com os EUA prestes a se juntarem às metas de emissão de carbono líquido zero e outras iniciativas climáticas sob a liderança de Biden, “haverá custos para empresas e investidores de uma maior ambição climática e riscos de superestimar como os novos planos climáticos coordenados serão”, de acordo com a Eurasia. China, União Europeia, Reino Unido, Japão, Coreia do Sul e Canadá também estão empenhados em tornar suas economias mais verdes.

4. Tensão mais ampla EUA-China

Embora a relação entre as principais economias do mundo deve ser menos conflituosa em 2021, as tensões podem reacender devido a um transbordamento de estresse dos EUA para seus aliados, a competição para distribuir vacinas para outros países e uma rivalidade em tecnologias verdes.

5. Informações digitais

A competição entre os EUA e a China será o centro das atenções à medida que o fluxo de informações digitais através das fronteiras diminui, pesando sobre as empresas que dependem de dados. Pequim provavelmente continuará reduzindo sua dependência de tecnologia externa, enquanto os EUA trabalham para manter as informações pessoais de seus cidadãos seguras.

6. Riscos cibernéticos

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O potencial para ataques e dados roubados aumentou à medida que mais pessoas acessam a tecnologia em casa e tanto os governos quanto o setor privado praticamente não fazem progresso na redação de regras globais para o comportamento do Estado no ciberespaço. Também pode ser causa de uma desaceleração nas relações entre os EUA e a Rússia, já que Biden chega à presidência com uma tolerância menor.

7. Turquia no limite

Embora a Turquia tenha conseguido evitar uma crise no ano passado, o país continua vulnerável em 2021, de acordo com a Eurasia. O presidente Recep Tayyip Erdogan pode novamente enfrentar pressão no segundo trimestre e buscar estimular a expansão. Fazer isso pode gerar tensões sociais.

8. Ano difícil para o petróleo

Os protestos podem se intensificar e as reformas podem desacelerar, já que as nações produtoras de energia do Oriente Médio e do Norte da África enfrentam novos desafios. O Iraque, que obtém a maior parte de sua receita governamental do petróleo, terá dificuldades para cobrir os gastos básicos ou impedir a desvalorização de sua moeda. A Argélia realizará eleições, mas os baixos preços da energia dificultarão a reforma do governo.

9. O Legado de Merkel

A chanceler alemã, Angela Merkel, tem sido a líder mais importante da Europa, e sua saída no final deste ano aumentará o risco do continente, pois enfraquece a liderança do bloco, de acordo com a Eurasia.

10. América Latina em apuros

As nações latino-americanas podem encontrar versões mais acentuadas das questões políticas, sociais e econômicas que enfrentaram antes da pandemia. Esses riscos ocorrerão por meio de eleições legislativas na Argentina e no México, bem como de votos presidenciais no Equador, Peru e Chile. O incômodo social pode levar a mais candidatos populistas, especialmente no Equador, onde o abandono da moderação pode prejudicar o programa do FMI e a estabilidade econômica do país.

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O próximo presidente dos EUA deve ser conhecido em até dez dias após as eleições e Biden tem 75% de chances de vitória, afirma diretor da Eurasia

A uma semana do encerramento das eleições americanas, de 3 de novembro, 60 milhões de pessoas já votaram, a maior parte pelo correio, para evitar risco de contrair Covid-19. A pandemia, aliás, deve ser o definidor de uma das campanhas mais polarizadas da história dos Estados Unidos.

Pelas projeções da consultoria política Eurasia, até junho deste ano o republicano Donald Trump tinha 60% de chances de ser reeleito. Atualmente, é seu adversário, o democrata Joe Biden, que lidera a corrida eleitoral com 75% de probabilidade de vencer.

“Não se pode dizer que Trump está fora do páreo, mas ele perdeu credibilidade no tema que mais preocupa o eleitor hoje, que é o manejo da pandemia”, afirma Christopher Garman, diretor da Eurasia baseado em Washington.

Na entrevista ao InfoMoney, Garman traça cenários sobre o resultado das eleições e o ambiente pós-votação na maior economia do planeta. O risco de uma contestação do resultado eleitoral impactar o ambiente de negócios e o preço de ativos diminuiu.

Uma das principais preocupações em relação às eleições nos Estados Unidos é que ninguém sabe dizer quanto tempo os americanos levarão para contar os votos enviados pelo correio, modalidade de votação que deve bater recorde este ano por causa da pandemia. Já é possível saber quanto durará a apuração?

Ninguém sabe responder isso, mas nossa aposta é que tenhamos um presidente eleito e declarado vitorioso dentro de dez dias, após o fechamento das urnas. Dependendo dos estados que Biden levar, podemos saber antes da contagem final dos votos. Alguns estados esperam até o fechamento das urnas para começar a contar as cédulas enviadas pelo correio, mas muitos já começaram essa apuração. A Flórida, por exemplo, pode conseguir contabilizar os votos de quem votou antecipadamente e declarar quem ganhou no próprio dia 3 de novembro. É um estado muito importante e a competição está muito apertada por lá, em torno de 3% a favor do Biden. Se ele ganhar na Flórida, dificilmente perde a eleição. Já se o Trump ganhar na Flórida, e ele tem chance, vamos depender mais da apuração dos estados do meio oeste — Pensilvânia, Wisconsin, Michigan –, onde Biden tem uma vantagem maior, mas a contabilização dos votos demora um pouco mais.

Qual é a aposta da Eurasia para o resultado das eleições?

Consideramos que Biden tem 75% de probabilidade de ganhar. Há um mês e meio atrás esse número era 65%. O tema da pandemia ganhou força quando o Trump foi diagnosticado com Covid-19, porque dificultou a capacidade dele concentrar a campanha no eixo econômico, no qual ele levaria vantagem. Mesmo tendo se recuperado rápido, ele perdeu uma semana em que as pessoas ficaram só falando de Covid-19. Não dá para descartar uma vitória do Trump, que ainda pode perder no voto popular, mas ganhar apertado em estados que lhe deem maioria no Colégio Eleitoral. Ou seja, ele ainda pode ter uma arrancada na reta final, e, se os institutos de pesquisa erraram quatro anos atrás, ele ainda está no páreo. Mas é uma possibilidade mais remota.

É correto dizer que, sem a pandemia, o presidente seria reeleito?

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Nós trabalhávamos com a probabilidade de 60% de Trump ganhar até junho. Ainda seria uma eleição apertada, porque a rejeição dele é maior que a média de presidentes com as mesmas condições econômicas. Não era uma eleição garantida, mas ele era favorito. O Trump está perdendo apoio entre idosos, em relação há quatro anos; está perdendo apoio entre mulheres de mais alta educação nos subúrbios e a vantagem que ele tem entre os brancos sem educação superior também está caindo um pouco. Não é possível dizer todas as razões, mas o manejo da Covid-19 foi o que mais pegou sobre a candidatura dele. Este é o tema mais importante para o eleitorado americano.

Foi uma mudança dramática, de 60% de chance dele se reeleger para 75% de probabilidade de vitória do Biden.

Sim. Essa mudança não aconteceu logo no início da pandemia, porque não tínhamos convicção de que um presidente sairia perdendo com uma crise sanitária. Em vários países, o índice de aprovação do presidente aumentou com a Covid-19, mas para o Trump não aconteceu. Até aumentou no início, mas a gestão da pandemia começou a pesar e ele perdeu credibilidade no processo. Quando a gente tenta projetar quem vai ganhar uma eleição, temos de identificar o tema que mais preocupa o eleitorado e ver qual candidato tem credibilidade nesse tema. Em 2018, fizemos isso no Brasil e fomos uma das poucas casas que acreditaram que o Bolsonaro poderia ganhar. Isso aconteceu porque detectamos uma falta de confiança muito forte da população no sistema político e uma demanda muito forte pelo combate à corrupção. Ao mesmo tempo, identificamos que o Bolsonaro era o que mais se alinhava nesses temas. Nesse momento, o Trump está indo mal no principal tema da eleição.

No início do ano, a Eurasia classificou a possibilidade de contestação do resultado da eleição americana como o risco geopolítico número 1 do ano de 2020. Qual é a avaliação do senhor hoje, a uma semana do encerramento das eleições?

Acreditamos que a eleição será contestada de alguma forma, mas o risco de uma contestação impactar o ambiente de negócios e o preço de ativos caiu consideravelmente por causa do aumento das chances de Biden ter uma vitória mais expressiva. Quanto mais apertado o resultado, mais preocupante é a repercussão da contestação. O Trump vai contestar qualquer resultado, se perder. Já podemos colocar isso no preço. Mas, se o Biden ganhar com uma margem mais larga em estados suficientes do Colégio Eleitoral, que é o cenário mais provável, o partido Republicano dificilmente vai embarcar em um movimento de contestação do pleito.

O que poderia ser um cenário extremo de contestação da eleição?

O pior cenário seria não ter uma maioria formada no Colégio Eleitoral até janeiro. Ou seja, não saber quem ganhou até lá. É muito difícil chegar a esse ponto, mas, hipoteticamente, é possível. Se a apuração for muito apertada e houver descarte de muitos votos enviados pelo correio, por exemplo, a situação pode complicar. Isso acontece porque, muitas vezes, há divergência se a cédula deve ser descartada por um problema de preenchimento, por exemplo. Em alguns estados há um governador de um partido, enquanto a Assembleia é comandada por outro (e ambos têm de declarar a vitória do presidente para enviar a chapa de delegados ao Colégio Eleitoral). Um caso extremo seria o governador de um estado dizer que os democratas ganharam, enquanto a Assembleia Legislativa do mesmo estado dizer que os republicanos ganharam, sem chegarem a um consenso sobre os delegados que votarão no Colégio Eleitoral, que é quem elege o presidente, de fato, em janeiro.

O que significa a descoberta de um grupo de extrema direita, que pretendia sequestrar a governadora democrata do Michigan? Trata-se de um elemento isolado ou sinal de que a polarização política está se transformando em algo mais perigoso?

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Não acredito que estejamos caminhando para um cenário de instabilidade civil doméstica, de guerra civil, mas é, sim, sintoma de uma polarização crescente na sociedade americana. É sinal de que o centro político está sendo corroído, de crescimento dos extremos. É uma tendência que nos preocupa, quando olhamos o ambiente pós-eleitoral. Se o presidente não reconhecer o resultado, por exemplo, se usar o argumento de que houve fraude, podemos sair de uma eleição com uma parte importante do eleitorado acreditando que o processo não foi justo. Isso não é saudável para a democracia e para o ambiente de reconciliação pós-eleitoral.

A polarização pode aumentar após as eleições, então?

Algum grau de polarização maior a gente deve ter. Um ponto de atenção será a Suprema Corte, que vai migrar para a direita com a posse da juíza Amy Barret, indicada pelo presidente Trump e que deve ser confirmada pelo Senado. Se a Corte julgar inconstitucional o Affordable Care Act (em tradução livre “Lei do Programa de Saúde Acessível”, conhecido como Obama Care) os democratas podem revidar, aumentando o número de vagas na Corte Suprema. Isso seria uma quebra de regra do jogo informal de Washington. Esse tipo de coisa ajudaria a polarizar mais o ambiente.

O cenário político para a maior potência econômica do mundo parece muito complicado, então?

Na verdade, consideramos a trajetória dos Estados Unidos positiva, porque a chance de o Biden ganhar com uma vitória mais ampla está aumentando e o risco de uma eleição muito contestada, gerando um clima de incertezas, diminuiu. Se o Biden ganhar o Senado, terá os votos para aprovar um pacote de estímulo fiscal no início do ano, e os mercados vão reagir a isso. Devemos ter um pacote entre 2,5 e 3,5 trilhões de dólares de estímulo, mas o grau de polarização política da sociedade americana vem aumentando, o que não é salutar.

Quais devem ser os pontos de atenção, em caso de vitória do Biden?

Os mercados estarão focados em dois temas. Primeiro, se é possível aprovar um pacote de estímulo fiscal. Segundo, em que medida o Biden vai entregar (poder) para a esquerda do partido Democrata, em termos de aumentar impostos sobre empresas para financiar um programa ambiental de transição energética e para reforçar o programa de saúde. Acreditamos que o Biden seja um político centrista, mas ele vai representar um novo centro do partido, que foi para a esquerda nos últimos dez anos.

É por pressão das alas mais à esquerda de seu partido que o Biden não tem respondido se vai aumentar o número de cadeiras na Suprema Corte?

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Creio que ele não esteja respondendo como forma de fazer uma ameaça velada à Corte. É como se ele dissesse: “olha, se vocês julgarem inconstitucional o carro-chefe do programa de saúde do governo Obama, que tem eficácia por vários anos e que tem apoio popular, talvez eu considere aumentar o número de membros da Corte”. Seria uma decisão muito controversa da Suprema Corte derrubar um programa que conta com apoio da população. Ao não responder, Biden está dizendo “não brinquem com isso, senão, não seguro as minhas tropas que estão querendo aumentar o número de membros da Corte”. As consequências de realizar uma mudança na Corte seriam graves. Ele sabe que se fizer isso, o outro partido pode querer fazer o mesmo na próxima ocasião em que tiver maioria. Suspeito que ele não esteja respondendo apenas para deixar a dúvida no ar “vocês vão querer esticar a corda para derrubar um programa que tem apoio popular e colocar em risco a independência do Judiciário”? O Biden é um cara que respeita as regras do jogo. Já disse no passado que é contra essa iniciativa. Acho que ele vai contemplar a ala progressista democrata, mas duvido que a mudança do número de cadeiras da Corte seja uma concessão que ele fará.

Com o Trump ganhando, não há o risco de a sociedade se tornar mais dividida?

É uma questão importante, porque, se o Trump ganhar, provavelmente teremos um presidente que perdeu no voto popular e com uma margem mais expressiva do que 2016. Na eleição anterior, a Hillary Clinton teve 2% a mais de votos, mas perdeu no Colégio Eleitoral. Hoje, o Biden está com cerca de 9% de vantagem no voto popular, e a base republicana caiu em estados em que o Trump ganhou com boa diferença em 2016. No Texas, ele ganhou com 18% na eleição anterior, mas hoje está na frente com apenas 2%. Suponha que ele ganhe com uma vantagem pequena no Colégio Eleitoral e o Biden saia perdedor, mas com 6% de vantagem no voto popular. Nesse cenário, teríamos uma situação em que os democratas sairiam da eleição acreditando que as regras não são justas. Se isso acontecer, é claro que pode haver um movimento para contestar o modelo eleitoral, com o argumento de que as regras não são legítimas em uma democracia moderna como a americana. Historicamente, o voto popular caminhou com o colégio eleitoral, mas se houver uma discrepância entre os dois, o descontentamento do eleitorado pode aumentar.

Por que os Estados Unidos continuam com eleições indiretas e por que as eleições americanas foram desenhadas dessa forma?

É um resquício da cabeça dos fundadores da Constituição americana, os Founding Fathers que, no fundo, temiam o desejo da maioria. Eles eram proprietários de terra, que estavam preocupados com o populismo de governos que pudessem revisar as benesses econômicas que eles tinham. A Constituição é cheia de pesos e contrapesos para que o sistema possa coibir a capacidade de uma maioria se impor sem restrições. Por isso, foi criado um Judiciário independente, o Executivo e o Senado e a Câmara. No caso das eleições, eles criaram o Colégio Eleitoral, que é um passo intermediário entre o voto popular e a escolha do presidente. No fundo, foi um mecanismo para que o Colégio Eleitoral tivesse a chance de “consertar” a escolha do povo, elegendo alguém diferente do voto popular nos estados. A verdade é que o Colégio Eleitoral nunca desrespeitou a vontade do voto popular e acabou se transformando em uma formalidade.

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