Chegada do Open Banking abre mar de oportunidades: as instituições financeiras vão saber aproveitar?

Nos últimos anos, com o surgimento das fintechs, diversos bancos investiram no lançamento de bancos digitais, como parte de sua estratégia para a transformação tecnológica.

Se você parar para pensar, há pouco mais de 20 anos era preciso se deslocar a um banco ou caixa eletrônico para fazer uma simples transferência bancária.

A digitalização mudou a relação entre banco e cliente. É inegável essa disrupção. Mas eu gostaria de trazer uma reflexão um pouco além: o Open Banking é o verdadeiro potencializador de oportunidades.

O Open Banking força os bancos a considerarem a criação de um ecossistema de negócios como parte de sua estratégia futura, pois impulsiona fortes incentivos de mercado e estímulos regulatórios, fazendo com que os bancos foquem em economias de escopo.

Essa evolução vai desde o uso básico, habilitados por meio de interfaces de programação de aplicativos (APIs) até casos de ficção científica que exigirão alinhamento estratégico intenso entre bancos, fintechs e não bancários parceiros – como aqueles que provêm a tecnologia.

A inovação do Open Banking, que nada mais é que o compartilhamento de dados para informações de contas e iniciativas de pagamento, abre espaço para o Open Finance, que permite o compartilhamento de dados entre os setores financeiros como seguros, pensões, câmbio e investimentos, e a Open Economy, que vai além deste compartilhamento ampliando para novos players como e-commerce, game, meios de pagamento, saúde, entre outros.

Muitas instituições financeiras e não financeiras já estão aplicando algumas modalidades do Open Banking.

O Santander e o HSBC, por exemplo, lançaram aplicativos com agregação de contas e gerenciamento de finanças pessoais que fornecem aos clientes uma visão holística de suas transações financeiras de forma integrada com suas instituições.  O Santander lançou, este ano, o empréstimo para o microempreendedor individual em parceria com o Prospera.

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Os serviços do Open Banking do banco foram citados por Gil do Vigor, ex-BBB 21, em propaganda na televisão, o que fez com que o termo Open Banking tivesse um aumento de 1.000% nas buscas no Brasil, segundo dados da ferramenta Google Trend.

E não para por aí. O Open Finance também já tem sido muito bem aproveitado por instituições no Reino Unido e na Europa, que criaram marketplaces e superlojas para os consumidores em parceria com fintechs que integram investimentos, pensões e seguros.

O Starling Bank, no Reino Unido, por exemplo, possui uma gama extremamente ampla de ferramentas de negócios integradas para clientes PMEs, como comunicação, seguros, entre outros.

No âmbito da Open Economy, com o aumento do trabalho remoto, novas tecnologias foram adotadas no ambiente corporativo.

A Deel, startup de recursos humanos que acaba de virar unicórnio e de chegar ao Brasil, é uma que ajuda empresas com a folha de pagamento internacional, impostos, compliance entre outros.

São mais de 1.800 clientes corporativos no mundo. No Brasil, o Nubank é um que utiliza seus serviços.

E estes são apenas alguns dos poucos exemplos de toda a mudança que já está acontecendo por aqui e em todo o globo.

Segundo a Allied Market Research, só o Open Banking valerá US$ 43,15 bilhões em 2026.

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Acredite quando digo: com a chegada do Open Banking, Open Finance e Open Economy, estamos criando um mundo totalmente novo de possibilidades, que faz com que todos nós possamos ir muito além.

É empolgante ver tudo isso acontecendo e cada vez mais rápido. Com isso em mente, não se engane: os pioneiros colherão mais frutos no futuro. A hora de agir é agora.

Tech financeira Wise é avaliada em US$ 11 bilhões em estreia na Bolsa de Londres

Wise (Foto: Divulgação)

A empresa de tecnologia financeira Wise foi avaliada em 7,95 bilhões de libras (US$ 11 bilhões) em sua estreia no mercado nesta quarta-feira, tornando-se a maior empresa de tecnologia listada em Londres considerando valor de mercado.

A primeira listagem direta na Bolsa de Valores de Londres pode abrir caminho para que outras empresas de tecnologia sigam, principalmente porque esse valuation de estreia ficou bem acima das expectativas de mercado de entre US$ 6 bilhões a US$ 7 bilhões no começo do ano.

“É um começo bem-vindo para a Wise, com um valor de mercado de cerca de 3 bilhões de libras acima da avaliação privada do ano passado e a primeira meia hora de negociação foi bastante estável e suprimiu algumas preocupações sobre a volatilidade”, disse Susannah Streeter, analista da Hargreaves Lansdowne.

O preço de abertura de 8 libras ficou em linha com um processo de leilão das horas anteriores, a faixa de preço indicada entre 7,5 e 8,2 libras.  Por volta de 09:20 (horário de Brasília, a ação era negociada a 8,25 libras.

A empresa de pagamentos internacionais, um dos mais conhecidos unicórnios no segmento de fintechs no Reino Unido, anunciou no mês passado uma listagem direta na LSE, o que permite a listagem sem uma oferta pública de ações. Essas listagens têm crescido em popularidade entre as empresas de tecnologia nos Estados Unidos, como Coinbase, Roblox e Spotify.

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Após aporte do Softbank no Mercado Bitcoin, XP eleva preço-alvo de G2D e Bradesco BBI inicia cobertura da ação

(Divulgação)

SÃO PAULO – Com os investidores monitorando o surgimento de novas promessas, como fintechs e startups, em especial no setor de tecnologia, a G2D Investments (G2DI33), que atua com investimentos em empresas inovadoras e de alto crescimento, tem ganhado mais atenção no mercado financeiro, em especial após o aporte bilionário do SoftBank em uma das empresas da carteira, o Mercado Bitcoin.

A G2D, controlada pela GP Investimentos e sua subsidiária GP Advisors, fez seu IPO na B3 no fim de maio.

Na última quarta-feira (1) o SoftBank Latin America Fund, fundo criado pelo conglomerado de telecomunicações japonês para investir em startups da América Latina, anunciou um aporte de cerca de R$ 1 bilhão (US$ 200 milhões) no Grupo 2TM, holding dona da plataforma de ativos digitais Mercado Bitcoin.

A arrecadação deve ser destinada principalmente para acelerar o crescimento da empresa, podendo ser utilizada para ampliar o número de funcionários, estruturar e expandir a atuação no exterior, entre outros.

A empresa está entre as maiores posições do portfólio da G2D Investments, que conta ainda com nomes de brasileiras como Quero Educação, Cerco, sim;paul e a empresa de solução de pagamentos Blue.

Fundado em 2013, o Mercado Bitcoin tem crescido acompanhando o interesse por moedas digitais. A fintech tem 2,8 milhões de clientes, ou 70% do número de investidores individuais na B3, a Bolsa de Valores brasileira.

Com a notícia, a XP Investimentos divulgou relatório nesta sexta-feira (2) elevando o preço-alvo para os papéis da G2D, de R$ 7 para R$ 9 por ação.

A avaliação é de que o aporte do Softbank deve fazer com que o Valor Líquido de Ativos (NAV, na sigla em inglês) cresça R$ 245,3 milhões, representando um ganho de mais de 18 vezes no NAV, para R$ 915 milhões.

“Ainda acreditamos que a empresa deve negociar com 0% de deságio em relação ao valor líquido de ativos devido ao alto potencial de crescimento da carteira, compensado por elevados riscos relacionados à controladoria, taxas, liquidez e volume médio de negociações diárias (ADTV)”, escrevem os analistas.

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Segundo a XP, o Mercado Bitcoin está inserido em um segmento disruptivo, que pode ter valor a ser desbloqueado no curto prazo.

O aporte também contribuiu para o início de cobertura da ação pelo Bradesco BBI, com recomendação outperform (performance acima da média do mercado) e preço-alvo para 2022 de R$ 10 por papel – o que implica potencial de alta de 39% ante o fechamento de quinta-feira (1).

Em relatório divulgado nesta sexta, o Bradesco BBI escreve que a G2D é uma forma de se ter exposição ao atrativo setor de tecnologia, combinando o melhor do investimento em venture capital (altos retornos) com a liquidez da Bolsa. “Vemos o fundo bem posicionado para capturar oportunidades no mercado de tecnologia pela frente, e seu valuation atual oferece uma boa porta de entrada”, escrevem os analistas.

Na visão do time de análise, G2D está sendo negociada com grande desconto em relação ao seu valor líquido de ativos, considerando o ajuste a ser feito no investimento em Mercado Bitcoin, que representava no primeiro trimestre 2% da carteira da G2D Investments.

Além disso, os analistas não desconsideram a possibilidade de a companhia negociar com um NAV premium em meio às restrições ao investimento direto nos ativos do fundo; capacidade da gestão em gerar bons retornos; e prêmios na casa dos 16% em relação a fundos similares, que investem em empresas de venture capital no setor de tecnologia.

“O time forte e comprometido, com um histórico sólido em investimentos, é um dos principais pilares da nossa tese de investimento em G2D. Nos últimos três anos, o retorno anual do fundo ficou na casa dos 24%, indicando a capacidade da administração em capturar boas oportunidades no setores”, escrevem os analistas do Bradesco BBI.

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ROE de grandes bancos cai pela metade em 15 anos e pode piorar. Ações deixaram de ser atraentes?

SÃO PAULO – Mesmo diante da reversão nas provisões para inadimplência e dos lucros bilionários no primeiro trimestre, o desempenho das ações dos grandes bancos segue sofrível em 2021. Analistas avaliam que as razões por trás da queda dos papéis são estruturais e não passageiras, com os mais pessimistas dizendo que os altos retornos dos “bancões” ficaram para trás e uma nova era se inicia no setor financeiro: a era da competição.

À exceção das ações do Bradesco (BBDC4) – que subiram 1,35% em 2021, mas abaixo dos 2,4% do Ibovespa (IBOV) – os papéis dos outros três grandes bancos listados na Bolsa acumulam queda de janeiro até agora: Banco do Brasil (BBAS3) tem baixa de 18,05% no ano, Itaú (ITUB4) registra queda de 7,01% e Santander (SANB11) acumula perda de 9,84%.

O oligopólio dos cinco maiores bancos do país – os quatro citados e a Caixa, que não é listada – está sofrendo abalos com a disrupção no mercado financeiro provocada pelo crescimento das fintechs.

Os dados de market share (participação de mercado) no segmento de crédito mostram que, em 2017, os cinco bancões dominavam 83,4% do mercado no país (excluindo instituições não bancárias). A participação caiu para 82,2% em 2018 e 80,7% em 2019. No ano passado, a queda se acentuou e o share dos cinco maiores bancos ficou em 75%, a menor participação da série histórica do Banco Central, iniciada em 2015.

Para João Luiz Braga, sócio-fundador da gestora Encore, a razão por trás do aumento da competição é a regulação do setor.

“O setor financeiro sempre foi muito regulado, tanto que vários bancos estrangeiros que estavam aqui, como Citi, Bank Boston e HSBC, ou foram comprados ou saíram e a regulação pode ter sido o motivo. Mas hoje o BC está promovendo uma arbitragem regulatória e regulando menos as startups que os bancões. Assim, mesmo um player pequeno consegue, bem ou mal, competir com um gigante e virar um ‘Maverick’ que transforma o mercado”, disse em live da FEA-USP, mediada pelo InfoMoney.

Braga acrescenta que essa competição só tende a se intensificar com a implementação do Open Banking, conjunto de regras que, na prática, prevê que as instituições financeiras devem compartilhar sua vasta base de dados, se assim desejar o correntista. Agora dono dos seus dados, o cliente poderá apresentar seu histórico a outras instituições para escolher a que melhor lhe atende.

Além da regulação mais favorável, a abundância de recursos também favorece o surgimento e fortalecimento das startups, conforme destacou Florian Bartunek, sócio-fundador da Constellation, que também participou da live mediada pelo InfoMoney. “Tem muito dinheiro barato disponível. Antigamente, essas startups não sobreviviam muito tempo porque não tinham muito dinheiro. Hoje elas conseguem sempre ser financiadas e com isso crescer.”

Na esteira da mudança regulatória e dos recursos fartos, vem a mudança do cliente. “Antes se pagava taxa em tudo, mas agora é conta sem taxa, cartão sem taxa…Então mudou a cabeça do cliente. Ele não quer só não pagar taxa, ele ainda quer cashback, quer receber o dinheiro de volta, é cruel a situação [dos grandes bancos]”, diz Bartunek.

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O sócio da Constellation cita ainda outro fator que explica o avanço das fintechs: a queda da taxa básica de juros. Quando a Selic estava acima de dois dígitos, os bancos cobravam taxas de 2% ou 3% em fundos e o investidor não percebia. Com os juros na casa dos 3% ao ano, as altas taxas ficam mais aparentes e os bancos faturam menos. “Hoje o cliente consegue comparar tudo. E uma das grandes prioridades do BC hoje é a transparência para o cliente – e isso está promovendo a competição.

Elevar a competição é uma das prioridades da atual gestão do Banco Central, sob comando de Roberto Campos Neto. Para isso, o BC criou a chamada Agenda BC#, que é baseada em cinco pilares: competitividade, inclusão, transparência, educação e sustentabilidade. Foi no âmbito dessa agenda que foram criados o Pix e o Open Banking, que completará sua implementação em dezembro.

Mais competição, retornos menores

O título usado por um relatório recentemente divulgado pela XP resume bem o cenário atual: “Setor financeiro, um grande mercado em disrupção”. No texto, analistas afirmam que a competição está chegando e um dos principais motivos para isso são as menores barreiras de entrada para novos entrantes por causa da tecnologia.

Segundo a XP, antes dos aplicativos de celular, os bancos tinham diversas vantagens, como: menor custo de captação e mais retorno com o acesso a milhões de clientes de varejo, dispostos a pagar taxas altas; menor inadimplência devido a décadas de armazenamento de dados de clientes; receita diversificada por meio de milhares de agências e funcionários que distribuíam diversos produtos a milhões de clientes; e alavancagem operacional após várias fusões e aquisições. “Esses fatores contribuíram para entrantes estrangeiros não conseguirem ganhar escala e competir com bancos locais.”

No entanto, diz a XP, agora as instituições conseguem ganhar escala com menos gastos com o uso da tecnologia. “Via celular, o Nubank alcançou clientes em todas as 5.570 cidades brasileiras, ganhou acesso a captação mais barata e capacidade de distribuição de seus produtos para mais de 30 milhões de clientes […]. Da mesma forma, o Inter atingiu um custo de captação de 49% do CDI em 2020 com apenas 2 mil funcionários e sem agências (ante 100% do CDI do Banco do Brasil com 92 mil funcionários e 4,4 mil agências)”, diz.

Em live no Instagram do InfoMoney, Paulo Weickert, analista da Apex Capital, diz que “tudo leva a crer que a competição vai ficar cada vez maior e a fatia de mercado que os grandes bancos ainda têm vai ser cada vez mais disputada”. “Os bancões vão continuar a existir, vão ser empresas muito saudáveis e rentáveis, com nível de retorno ainda bom, mas abaixo do que é hoje“, afirma.

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O analista da Apex acredita que o Retorno sobre o Patrimônio Líquido (ROE) dos bancos, hoje em 18,5% no caso do Itaú e 18,7% no caso do Bradesco, deve cair para cerca de 12% nos próximos anos.Há opções melhores do que bancos para investir neste momento. Quem não investe hoje nos grandes bancos, vai encontrar em outras empresas e setores melhores oportunidades de investimentos”, opina.

O gráfico abaixo mostra que os altos retornos dos bancões estão ficando para trás. O ROE, indicador preferido dos analistas para medir a saúde financeira dos bancos, apresenta um declínio forte de 2006 até agora. Do pico de 26,98% em 2007, a mediana do ROE dos quatro maiores bancos de capital aberto caiu praticamente pela metade, para 13,73%, conforme mostra o levantamento abaixo da Economatica.

Evolução mediana do ROE dos 4 maiores bancos de capital aberto: Banco do Brasil, Bradesco, Itaú e Santander

(Leo Albertino/InfoMoney)

Menos rentáveis, mas ainda fortes

Os temores sobre a competição das startups apareceram em diversos comentários de analistas sobre os resultados de bancos no primeiro trimestre (veja qual banco se saiu melhor).

Ao comentar os balanços dos quatro maiores bancos de capital aberto, o Morgan Stanley citou riscos em comum às ações de todos eles: o desemprego e a recessão econômica e seus efeitos na inadimplência; o aumento das taxas cobradas de clientes; a alta exposição à volatilidade causada pelo déficit fiscal e pela inflação; e, por fim, a disrupção das fintechs.

Um dos pontos elogiados pela XP no balanço do Bradesco foram os cortes de custos, justamente por reduzir a distância do banco para as fintechs em termos de eficiência. “O Bradesco apresentou redução de custos de 5% na comparação anual […]. As despesas parecem estar caindo em todos os lugares, de pessoal a despesas administrativas específicas, e vemos isso como um movimento necessário com tanta concorrência vindo dos bancos digitais mais leves e empresas de varejo.”

Mas, mesmo com o cenário mais desafiador, é claro que ainda há espaço para os grandes bancos no mercado brasileiro.

Marcel Campos, analista de setor bancário da XP, que também participou da live no Instagram do InfoMoney, lembrou que as empresas ainda estão muito ligadas aos grandes bancos. principalmente por causa do crédito e pela necessidade de um atendimento mais focado, que cubra necessidades mais complexas, enquanto as fintechs focam mais em pessoas físicas.

“A rentabilidade pode cair no longo prazo, mas a influência dos grandes bancos vai continuar grande entre empresas. As fintechs padronizam o atendimento com o uso de algoritmos para ganhar escala, o que funciona mais fácil com pessoas físicas do que jurídicas. As empresas precisam de atendimento mais personalizado e de um volume maior de crédito, o que só encontram nos grandes bancos”, diz Campos.

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Braga, da Encore, afirma que as receitas dos bancões se dividem, de forma geral, em: um terço crédito, um terço prestação de serviços, como cartão de crédito, e um terço seguros. “A parte que tem bastante disrupção é a prestação de serviços, em seguros vejo acontecendo menos, já que ainda é vantajoso ter seguro dentro de banco, mas a parte de crédito, essa vamos ver como vai ficar com o Open Banking”, diz.

Ele diz que operar no mercado de crédito no Brasil é complexo, até mesmo para os players tradicionais. “O Itaú, um banco brilhante na execução, já errou – e bastante – no início dos anos 2010, tanto em pequenas empresas quanto em crédito para veículos. Então, o pessoal vai ‘camelar’ um pouco mais, mas com a arbitragem regulatória e o Open Banking eu não vejo cenário bom para bancões, não“, afirma o sócio da Encore.

Florian Bartunek diz ainda que outro desafio dos novos entrantes é o receio que os brasileiros ainda têm de migrar seus recursos de bancos tradicionais para instituições mais novas. “Os bancos são bons, grandes, têm fortaleza no crédito, então concordo com o Braga que não vai ser fácil [para as fintechs]. Mas que o jogo mudou, claramente mudou.”

É hora de sair de bancos?

Apesar dos desafios estruturais e da queda nos ROEs, analistas afirmam que não é o caso de descartar o investimento em bancos.

Conforme explica Marcel Campos, o fato de as operações dos bancos serem menos rentáveis hoje não significa que eles vão gerar menos retorno aos acionistas. “É preciso sempre ver fundamento e preço. Se a rentabilidade cair 10% de maneira perpétua, por exemplo, mas o preço cair de maneira mais drástica, a ação pode se tornar ainda melhor. Uma coisa é a operação do banco e outra o investimento na ação. Mesmo uma empresa ruim pode trazer bons retornos aos acionistas”, diz.

Campos também ressalta que apesar de os quatro grandes bancos estarem imersos no mesmo contexto, há nuances entre eles, já que suas operações se diferenciam e o comportamento das ações também. Dentre os bancões, a XP tem recomendação de compra para Banco do Brasil, com preço-alvo de R$ 43, e Bradesco, com preço-alvo de R$ 27.

No caso do BB, o analista diz que a ação está muito descontada, negociando a um múltiplo de 0,6 vez o preço sobre o patrimônio. “A queda do ROE pode até piorar mais à frente, mas hoje a ação negocia com 40% de desconto sobre o seu patrimônio líquido, está muito descontada”, afirma o analista da XP.

Já em relação ao Bradesco, Campos justifica a recomendação de compra citando que as receitas de varejo de pessoa física e de crédito do banco têm se mostrado resilientes, e que um terço do lucro líquido banco é proveniente do braço de seguros, segmento que, segundo o analista, vem crescendo e tem potencial de avançar ainda mais.

A recomendação da XP, porém, é neutra para Santander (preço-alvo de R$ 32) já que os analistas enxergam que o banco vem provisionando pouco e isso pode ser um risco à frente com aumento da inadimplência. E também é neutra para o Itaú (preço-alvo de R$ 29) que, segundo a XP, tem apresentado queda na receita de itens importantes, como renda de tarifas e margem com clientes, o que torna o banco menos atraente frente aos pares, sobretudo considerando o ambiente mais competitivo.

Braga, da Encore, diz que a gestora não investe em nenhum dos quatro bancos hoje, mas tampouco riscou os bancos da lista de “ações compráveis”. “Em determinado nível de preço pode ser um bom investimento, mas é preciso notar que existe uma dinâmica diferente para as ações de grandes bancos com o cenário mais desafiador daqui para a frente.”

Ele acrescenta que a gestora está inclusive discutindo neste momento se deve incluir algum banco na carteira. “Estamos incorporando o cenário mais desafiador para ver se faz sentido. Não deixamos de olhar para bancão, longe disso. É preciso olhar o preço, afinal esses bancos não vão acabar agora, de forma alguma”, diz o sócio da Encore.

Em relatório publicado em janeiro, ao reduzir as recomendações de Itaú e Santander de compra para neutra – que se juntaram à recomendação já neutra para o BB -, o Bradesco BBI disse que apesar da expectativa de melhora dos lucros, incertezas de longo prazo podem afastar os investidores dos papéis.

“Incertezas provavelmente crescentes devem fazer com que os investidores fiquem cada vez mais céticos sobre as próximas mensagens a serem transmitidas pela indústria, e levantam preocupações sobre a sustentabilidade dos resultados daqui para frente, uma vez que desafios de longo prazo permanecem no radar (por exemplo, novos concorrentes, evolução do Pix, open banking)”, disse o BBI.

Hoje, o BBI tem os seguintes preços-alvos para os bancos: R$ 44 para o Banco do Brasil, R$ 33 para o Itaú e R$ 44 para o Santander.

Mais otimista, o Credit Suisse só não tem recomendação de compra para o BB entre os quatro maiores bancos, por causa dos riscos de interferência política. No início do ano, o banco suíço afirmou que o ano deve ser de ganhos para os bancos com o aumento da Selic, com o crescimento de 7% a 8% no crédito e o forte controle de custos, fatores que devem conduzir os bancos a um “ciclo de crescimento de ganhos de vários anos”.

O Credit tem preço-alvo de R$ 30,91 para o Bradesco, R$ 39 para o Itaú e R$ 53 para o Santander. Para o Banco do Brasil, cuja recomendação é neutra, o preço-alvo é de R$ 38.

Outra instituição a reforçar um cenário geral mais otimista para os bancos brasileiros foi o Bank of America, que elevou o preço-alvo para as ações do setor após os resultados do primeiro trimestre e prevê alta dos lucros dos grandes bancos, em média, de 33% em 2021, de 12% em 2022 e de 13% em 2023.

“Após o lucro líquido dos bancos superar as estimativas no primeiro trimestre do ano, revisamos as estimativas de lucro para 2021 em 5% para cima e em 4% para 2022 e atualizamos nossos preços-alvos, que agora sugerem 23% de alta em relação aos preços atuais, em média. Nossas novas estimativas refletem previsões de margem financeira mais altas e  menores provisões para devedores duvidosos”, apontam.

O BofA destaca que o setor apresentou um desempenho abaixo do Ibovespa no acumulado do ano (de queda de 9% ante alta de 2% do benchmark do índice), colocando os múltiplos do setor de preço sobre o lucro (P/L) para abaixo da média histórica. Para os analistas, o ambiente de alta de taxa de juros e reabertura da economia sustentará lucros mais altos na segunda metade do ano, o que deve sustentar o desempenho das ações.

Eles também preveem que o retorno sobre o patrimônio liquido (ROE) do setor melhorará de 14,7% em 2020 para 17,4% em 2021, embora ainda abaixo dos 20,1% de 2019.

Os analistas do banco possuem recomendação de compra para Banco do Brasil, com preço-alvo sendo elevado de R$ 41 para R$ 43 (potencial de valorização de 36% frente o fechamento da véspera), para Bradesco, com preço-alvo mantido em R$ 31 (com upside de 24% para os ativos PN) e para o Itaú, com preço-alvo indo de R$ 32 para R$ 34 (upside de 17%). Já para o Santander Brasil, a recomendação é neutra, com preço-alvo sendo elevado de R$ 45 de R$ 46 (ou potencial de valorização de 16%), por conta de um valuation mais esticado e um balanço patrimonial mais fraco na comparação com os seus pares.

As recomendações de corretoras e bancos, compiladas pela Refinitiv, mostram que as ações do Bradesco são as preferidas dos analistas de longe. Santander é a ação menos indicada e aparece com mais recomendações neutras e de venda do que compra, refletindo o pessimismo com os papéis e os riscos do baixo provisionamento.

Banco do Brasil tem um número considerável de recomendações neutras e de venda, mas é também a ação com maior potencial de alta, já que suas cotações têm sofrido com os riscos de interferência política. E o Itaú aparece praticamente com o mesmo número de recomendações de compra e neutra do BB, mas com menor potencial de alta.

Ação Compra Neutra Venda Preço-alvo (upside*)
Banco do Brasil (BBAS3) 9 5 1 R$ 44,22 (+39,45%)
Bradesco (BBDC4) 15 1 R$ 29,20 (+16,80%)
Itaú Unibanco (ITUB4) 9 7 R$ 34,43 (+18,81%)
Santander (SANB11) 5 8 1 R$ 45.25 (+14,59%)

Fonte: Refinitiv / *Potencial de alta em relação à cotação de fechamento do dia 17/05/21.

E as fintechs?

O ambiente mais competitivo também se reflete no mercado de capitais. O investidor tem mais opções para diversificar sua carteira de ações do setor financeiro com a chegada das fintechs na Bolsa.

“As fintechs têm aprendido cada vez mais o comportamento dos seus clientes para, no longo prazo, expandir sua carteira de crédito, seus produtos de investimentos e o cashback. As que acertarem vão ganhar dinheiro no longo prazo”, diz Weickert, que afirma que a posição da Apex no setor financeiro hoje está concentrada em ações de fintechs.

Em relatório divulgado sobre fintechs no último dia 10, o Bank of America traduz em números o ritmo de expansão dessas empresas. No texto, o banco destaca que os apps de fintechs somaram 20 milhões de downloads só em abril e dobraram a base de usuários ativos em relação a abril de 2020.

“Downloads permaneceram fortes em abril, ajudados por esforços de marketing, maior oferta de produtos e políticas de permanência em casa e restrições. […] Os downloads de todos os bancos tradicionais desaceleraram, principalmente o Caixa Tem, que continuou perdendo engajamento, sugerindo que grande parte de sua base baixada de 70 milhões (construída em um único ano) dependia fortemente da ajuda emergencial do governo”, diz o BofA.

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Méliuz prestes a virar banco digital? Empresa expande atuação e ação salta 10%, mas analistas veem um risco no radar

SÃO PAULO – O anúncio feito pelo Méliuz (CASH3) nesta segunda-feira (3) representa mais um passo em sua estratégia de expansão, mostra o grande potencial de abrir novas frentes de negócios com forte geração de valor e destaca uma excelente oportunidade para a Méliuz se expandir no ecossistema financeiro mais rapidamente. Assim, cada vez mais, está se tornando um banco digital, o que também traz alguns pontos de atenção para a companhia.

Foi assim que os analistas avaliaram a aquisição do banco digital Acesso Bank por um valor de R$ 324,5 milhões.

O Acesso Bank foi fundado há oito anos por Sérgio Kulikovsky e deu início às operações apenas como um cartão pré-pago, que era comercializado em supermercados. Em 2018, a empresa criou seu banco digital e o Bankly, serviço de banking as a service, com a ajuda de Davi Holanda, atual CEO, que veio do PagSeguro.  O Acesso Bank conta com produtos como conta, pagamentos, cartõe e saque de dinheiro e tem uma equipe de 178 funcionários e R$ 54 milhões de faturamento em 2020; apenas em março, movimentou R$ 1,3 bilhão em volume total de pagamentos (TPV, na sigla em inglês). A operação ainda aguarda aprovação do Banco Central.

A transação consiste em uma troca de ações, em que os acionistas do banco vão passar a deter uma participação de 8% nas ações da Méliuz em troca do banco digital.

Na avaliação de Marcel Campos e Matheus Odaguil, analistas da XP, embora o mercado esperasse uma aquisição de banco digital, a notícia é positiva devido à estrutura do negócio e ao banco específico adquirido.

Conforme apontam os analistas, o Méliuz não está pagando pelos clientes, algo que sua própria plataforma deveria adquirir ao longo do tempo, nem pelo valor da marca, já que sua marca é forte.

Pelo contrário, a companhia adquiriu o que, na visão dos analistas, é o mais importante: i) uma experiência bancária digital completa para sua base de mais de 16 milhões de usuários; ii) uma infraestrutura tecnológica já em funcionamento que facilite a manutenção e o desenvolvimento por parte de sua equipe de tecnologia; iii) licenças regulatórias e requisitos cumpridos, o que deve poupar tempo para a Méliuz avançar em sua estratégia de ecossistema financeiro.

Como alguns participantes do mercado avaliam os bancos na base de US$ 1 mil por cliente, uma métrica que parece ser o caso para bancos digitais como Inter e Nubank, o Méliuz se beneficiou de um mercado onde pode ser comparado, como dificilmente é comparado a outras empresas locais listadas.

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Além disso, a companhia pode ter uma reavaliação na Bolsa, pois a plataforma poderia engajar clientes em seu banco digital, tornando sua ação fortemente desvalorizada na métrica descrita anteriormente.

“Como proxy, se usarmos o número de solicitações de cartão de crédito Méliuz ao Pan como proxy para possíveis contas criadas no banco digital Méliuz, o banco sozinho poderia valer mais de R$ 15 bilhões”, apontam. Ou seja um valor 275% maior ante os R$ 4 bilhões de valor de mercado atualmente. “Porém, lembre-se de que os clientes devem ser ativos e engajados. Finalmente, o baixo custo de aquisição de clientes pelo Méliuz poderia beneficiar o banco adquirido de maneira significativa”, avaliam.

A base de clientes mais ampla e engajada pode levar o Méliuz a se tornar mais atraente para parceiros, mais eficiente em analisar dados e, por consequência, aumentar o engajamento com os usuários.

“Como o negócio bancário é por natureza um segmento onde os usuários têm maior frequência de uso, para pagar contas, receber salários e outros, acreditamos que o ecossistema da Méliuz poderia se beneficiar de uma experiência ainda mais envolvente ao incorporar uma operação bancária em sua plataforma. Dito isso, a aquisição da Acesso poderia ajudar a Méliuz a se tornar uma empresa grande o suficiente para que os parceiros ignorem e para que os clientes não percebam seus benefícios”, projetam.

Para a Guide Investimentos, a companhia segue com um processo aquecido de aquisições, o que resulta na continuidade de um crescimento robusto. O analista Luis Sales também avalia que a transação é bastante estratégica para a Meliuz pela possibilidade de entregar aos seus 16 milhões de usuários uma conta digital completa que vai servir de plataforma para entrada em outros serviços financeiros (de empréstimos e investimentos até seguros).

Além de facilitar o lançamento de novos produtos financeiros como investimentos e seguros em parcerias com outras instituições financeiras, o Bradesco BBI também aponta que a transação também pode aumentar a venda de produtos e serviços já existentes, como Cartão Méliuz, Marketplace e Méliuz Nota Fiscal. “Há um grande potencial de expansão em novas frentes de negócios (financeiras) com forte geração de valor”, apontam Fred Mendes, Cristian Faria e Gustavo Tiseo, analistas do banco.

Riscos a serem monitorados

Por outro lado, também há riscos na operação, avalia a XP. Isso porque, como o Méliuz está se tornando um banco digital por meio da transação, há o risco de os parceiros bancários da empresa começarem a ver o Méliuz como um concorrente.

Assim, caso isso aconteça, a empresa pode perder a oportunidade de prestar serviços a um setor com um enorme mercado endereçável e com competição cada vez maior para se tornar um concorrente em um negócio com Retorno sobre o Patrimônio Líquido (ROE, na sigla em inglês) em declínio e difícil de monetizar.

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Mesmo com alguns pontos de atenção no radar, a avaliação da aquisição foi vista como bastante positiva pelos analistas e investidores em geral, o que levou as ações CASH3 a fecharem em alta de 10,37%, a R$ 36,49.

O BBI reitera a Méliuz como a principal escolha em três setores em que os analistas da companhia cobrem (tecnologia, saúde e educação), com um preço-alvo de R$ 42,00 para a ação ao final de 2021, o que configura um potencial de valorização de 26,39% para os ativos em relação ao fechamento de sexta, reforçando assim a recomendação outperform (desempenho acima da média do mercado). Os analistas avaliam que a empresa vem apresentando consecutivamente resultados melhores do que o esperado e continua no caminho certo em sua estratégia de expansão, o que leva a ver uma perspectiva de revisão para cima das expectativas para o preço-alvo.

A XP também reitera recomendação de compra e preço alvo de R$ 41 (ou uma alta de 23,38% frente o fechamento de sexta), pois avalia que a Méliuz é o melhor veículo para capturar a concorrência agressiva no mercado de e-commerce e financeiro, ao mesmo tempo em que ganha exposição a uma série de opcionalidades não precificadas que poderia ser um divisor de águas em termos de valuation. As quatro casas de análise que cobrem o papel, segundo o consenso Refinitiv, possuem recomendação de compra para os ativos, com preço-alvo médio de R$ 38 (alta de 14,35% em relação ao último fechamento).

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Qual será a próxima bolha financeira?

*por Isac Costa

Diante do excesso de liquidez nos mercados, temos testemunhado uma sequência interessante de episódios de fortes valorizações de ações e de instrumentos alternativos (Bitcoin e outros criptoativos) e o surgimento das Special Purpose Acquisition Companies (SPACs), companhias “cheque em branco” que captam para depois investir. 

Ainda, inúmeras empresas inovadoras têm recebido aportes substanciais, tendo o seu valor de mercado como o principal referencial de potencial “exponencial” de crescimento – fintechs, edtechs, proptechs, healthtechs. Hoje, algumas delas são unicórnios e valem mais do que companhias tradicionais.

Somando a esse quadro as medidas de flexibilização para obtenção de crédito, tais como as que podem ser previstas na iminente medida provisória em estudo pelo Poder Executivo – como a criação de uma Central de Gestão de Garantias, a atualização do valor de imóvel para a obtenção de um novo financiamento e o uso de recursos de fundos de previdência complementar para a prestação de garantias –, vale mencionar, ainda, os esforços do Banco Central para desenvolver o mercado de duplicatas escriturais e os recebíveis de arranjos de pagamento.

A recuperação econômica pós-pandemia certamente dependerá de acesso facilitado a crédito por pessoas físicas e empresas e do fortalecimento do mercado de capitais. A regulação opera em ciclos, ora mais rigorosa, às vezes mais flexível, procurando auxiliar o desenvolvimento econômico (ou, ao menos, não o atrapalhar). 

Infelizmente, a insuficiente educação financeira, o foco em retornos de curto prazo, o excesso de otimismo e o efeito contraste (peso de eventos recentes na nossa percepção) nos fazem correr riscos que não correspondem a elevados retornos esperados.

O mercado financeiro não é um lugar propício para pessimistas. Só há retorno com riscos e os navios foram feitos para enfrentar os mares e não para permanecerem seguros no porto. Navegar é preciso, viver não é preciso. E mar calmo não faz bom marinheiro. 

Quem fala sobre bolhas e catástrofes não é bem recebido, notadamente em momentos de euforia, com o aumento do número de pessoas físicas operando na Bolsa e recordes de ofertas públicas. Parece que a pessoa está de fora e, ressentida, quer agourar quem está na festa. Ainda, um relógio quebrado sempre tem a hora certa duas vezes no dia, então cedo ou tarde virá uma correção mais forte e o arauto do apocalipse poderá clamar para si o dom profético e dizer a frase que nunca ajudou absolutamente ninguém: “Eu avisei”.

Se o unicórnio representa a pureza, é preciso lembrar que foi o pecado que resultou na maldição da mula sem cabeça. E um grande pecado no mercado financeiro é a perda do controle das emoções. Pensar sobre bolhas nos ajuda a observar o comportamento dos investidores e o nosso próprio comportamento em face do mercado. Precisamos fugir do viés de confirmação, quando buscando apenas dados que corroborem nossas expectativas, ignorando sinais de alerta. É preciso ceticismo metódico e seletividade para questionar pontos cegos em pitches de vendas, projeções excessivamente otimistas e, sobretudo, se o impacto ou a probabilidade da materialização de certos riscos não estão sendo subestimados.

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Investir não é – ou não deveria ser – sinônimo de comprar um bilhete de loteria. O modo como lidamos com o nosso dinheiro diz muito sobre nós, afetando nossos sentimentos, revelando quem somos, qual o nosso nível de autoestima, nossas inseguranças e como nos comportamos em grupo. 

O surgimento das bolhas não é silencioso. Pelo contrário, os sinais de alerta sempre são bastante eloquentes, porém, só se revelam assim, misteriosamente, em análise retrospectiva. Não vemos a tentação como tal e somos convidados por aqueles que não necessariamente se importam com os nossos interesses, que tomamos como amigos bem-intencionados ou, talvez, gurus. Há vários livros sobre manias, pânicos e crises cujas leituras nos fazem questionar por que razão o desastre não foi evitado. 

Não quero ser profeta, geralmente os bons viviam na miséria ou em constante desencanto com o mundo, e os falsos, embora gozassem de regalias e prestígio, cedo ou tarde eram desmascarados. 

Seja qual for a próxima bolha, é bom lembrar que o mercado e a sua vida financeira, assim como seu trabalho, são o jogo infinito, noção destacada por Simon Sinek, em livro com este mesmo nome, fazendo contraposição ao jogo finito, que tem objetivo definido e tempo predeterminado. Em um jogo infinito, a meta é permanecer no jogo o máximo de tempo possível, não ser expulso, as regras mudam e os oponentes são desconhecidos.

Uma perda relevante pode destruir anos de trabalho, poupança e boas decisões de investimento. “A bolha pontocom ficou para trás, junto com 2008. Dessa vez é diferente”. O problema não está nas SPACs, nas fintechs, nos unicórnios, nos criptoativos, na bolsa ou em produtos de crédito que poderão ser criados no futuro. As bolhas surgem por nossa própria culpa. O longo verão pode nos fazer esquecer do inverno, que, inevitavelmente, chegará. Estamos preparados?

*Isac Costa é consultor em regulação financeira e professor de Direito Empresarial do Ibmec SP

Neon Pagamentos compra Magliano, a corretora mais antiga do país

SÃO PAULO — A Neon Pagamentos anunciou nesta quinta- feira (16) a aquisição da Magliano Invest, a mais antiga corretora de valores do país. A fintech não abriu o valor do negócio.

Segundo a Neon, a aquisição da corretora vai permitir que seus clientes façam investimentos através das contas digitais, oferecendo todos os serviços de um banco tradicional.

A estrutura e os funcionários da Magliano serão incorporados à Neon, mas a operação não inclui a carteira de clientes da corretora.

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“Unimos, agora, a longa experiência da Magliano, que vem sendo construída ao longo de mais de 90 anos de vida, com a inovação da Neon. Traremos, assim, uma solução completa para nossos clientes”, disse Jean Sigrist, presidente da Neon, em nota.

“Com a Neon encontramos uma possibilidade de dar continuidade ao trabalho que sempre desenvolvemos no mercado financeiro. A fintech tem toda a tecnologia para oferecer uma verdadeira experiência digital para os clientes e agora também será mais um importante player no mercado de investimentos brasileiro. Quem ganha com isso são os clientes”, afirmou Raymundo Magliano Neto, presidente da Magliano Invest.

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XP compra fatia majoritária da fintech Antecipa

XP inc.

SÃO PAULO – A XP Inc. anunciou nesta terça-feira (30) a aquisição de participação majoritária na fintech Antecipa, que foi criada como uma plataforma digital de antecipação de recebíveis. O objetivo central da fintech é oferecer uma maneira mais eficiente para que as empresas rentabilizem suas posições de caixa e também fornecer uma alternativa mais econômica para o financiamento de fornecedores.

A aquisição é uma oportunidade para a XP Inc. ampliar a grade de produtos e reforçar a presença nos segmentos middle e corporate no Brasil, destaca o comunicado.

Os fundadores da Antecipa, Camilo Telles e Michel Borges, vão manter independência na gestão do negócio. Através da sua plataforma digital, a fintech integra fornecedores e compradores, proporcionando a possibilidade de financiamento entre as empresas sem necessariamente ter um banco como intermediário. Dessa forma, o spread bancário, que antes era destinado para esse intermediário, pode ser absorvido tanto pelo comprador quanto pelo fornecedor, minimizando o custo da operação como um todo.

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A Antecipa determina a taxa de desconto de forma dinâmica para cada transação. Desta forma, por meio de algoritmos próprios, a plataforma tem como foco a maximização do retorno do fluxo de caixa dessas empresas ao buscar um preço justo para cada transação , além de um processo mais ágil e inteligente para o desembolso dos recursos aos fornecedores.

Bruno Constantino, CFO da XP Inc., destaca no comunicado que, apesar de a Antecipa atuar em um mercado que já conta com a participação de grandes players, há ainda uma série de ineficiências que podem ser eliminadas. “Entrar neste segmento tão relevante em um momento como o atual, no qual as empresas estão precisando minimizar custos e apoiar os seus fornecedores, é uma grande oportunidade para a XP, inclusive colaborando para uma retomada mais rápida da nossa economia.”

Já Camilo Telles, sócio da Antecipa, ressalta que o financiamento para a cadeia de fornecedores sempre foi oferecido pelos bancos, mas numa oferta combinada com alguma outra modalidade de financiamento, o que nem sempre é atrativo para as empresas. “A escolha da XP vem da visão de ter o cliente como foco central, alinhado ao que eles sempre adotaram em todas as frentes em que atuam”, avalia.

A Antecipa foi fundada em 2015 e recebeu seu primeiro investimento em setembro de 2019, liderado pela Redpoint eventures.

O fechamento da operação está sujeito ao cumprimento de determinadas condições precedentes, incluindo a autorização prévia do Banco Central do Brasil, nos termos da regulamentação aplicável.

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XP e VERT lançam DuAgro, fintech para facilitar acesso do produtor rural a crédito

Du Agro (Divulgação: XP e VERT)

SÃO PAULO – A XP Inc. e a securitizadora VERT lançaram nesta quarta-feira (24) a DuAgro, fintech voltada para facilitar o acesso do produtor rural brasileiro a linhas de crédito desenhadas especificamente para o campo, promovendo o financiamento para a compra de insumos agrícolas.

“Em um contexto de insuficiência do crédito rural subsidiado, a empresa facilitará a disponibilização de recursos aos agricultores por meio da indústria e dos distribuidores de insumos”, destacam as companhias em comunicado.

O foco de atuação são os pequenos e médios produtores. Juntos, eles respondem por cerca de 70% do valor da produção total da agropecuária brasileira, mas enfrentam dificuldade de acesso ao crédito, concentrado em poucos bancos e indústrias.

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A XP e a VERT ressaltam a importância do setor – correspondente a cerca de 25% do PIB do Brasil. O país também cumpre papel na segurança alimentar global e, por isso, sua produção precisa ser sustentável econômica e ambientalmente, destacam: “a DuAgro nasce com o propósito de fomentar esse novo agronegócio, comprometido com a responsabilidade socioambiental e, portanto, apto a acessar taxas melhores no mercado de investidores de green bonds e ESG”.

A aprovação de crédito na DuAgro é totalmente digital e, quando o produtor acessa a plataforma, o seu limite já está pré-aprovado no valor da compra, sendo necessário a confirmação dos dados cadastrais, upload dos documentos pessoais e assinatura eletrônica da CPR financeira (Cédula de Produto Rural – Financeira). Não há exigência de garantias, levando a uma maior agilidade do processo.

Fernanda Mello, CEO da DuAgro, ressalta que o agronegócio funciona por ciclos biológicos. “Portanto, os recursos precisam ser desembolsados no momento certo da compra de insumos. O calendário é por safra e não espera.”

A CEO ainda ressalta que, se a extensão territorial do Brasil leva a diferentes tipos de climas e solos, o que beneficia a agropecuária, ela também leva ao desafio da capilaridade. Assim, aponta, acessar pequenos e médios produtores é difícil porque eles estão espalhados. “A formalização de documentos físicos em cartórios inviabiliza muitas operações. Para resolver essas e outras questões, criamos uma ferramenta totalmente digital, que atende rapidamente o produtor em qualquer região do país.”

Bruno Constantino, da XP Inc., aponta que o agronegócio é o grande motor da economia brasileira e a entrada nesse setor é estratégica para a XP: “A criação da DuAgro reforça nosso ecossistema, dando acesso a crédito ao produtor rural, de forma ágil, inovadora e digital, ao mesmo tempo em que ajuda no desenvolvimento do mercado financeiro Brasileiro, com a criação de novos produtos”.

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Consequências do coronavírus atingem fintechs brasileiras – e algumas vão ficar pelo caminho

(shutterstock)

SÃO PAULO – No início de 2020, boa parte das casas de análise desaconselharam investimentos em bancos tradicionais, citando maiores dificuldades e margens pressionadas à medida que o Banco Central melhorava o ambiente competitivo para as fintechs no país. Com o coronavírus, porém, o jogo mudou de figura – e os disruptores entram em seu primeiro teste de fogo.

Em relatório, o analista Jorge Kuri, do Morgan Stanley, avaliou os impactos de consequências da crise em empresas financeiras da era digital – principalmente as que ainda não tiveram tempo de estabelecer uma reputação no mercado.

“Vemos um período agudo entre três e seis meses de problemas se amontoando, seguidos de algo entre 12 e 18 meses de lenta recuperação”, diz o parecer.

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Para o Morgan, empresas “amplamente estabelecidas”, como PagSeguro, Stone, XP e Original não são o grande alvo de preocupação. Dessas, as mais dependentes de crédito em seu core business, como Nubank, Creditas e Banco Inter serão “testadas”, mas devem se sair relativamente bem, na visão do time de analistas.

“Nossa preocupação é especificamente com as outras 95% das companhias, as centenas de pequenas e médias fintechs“, cuja sobrevivência está de fato em risco pela profundidade da recessão e desafios consequentes. Dentre as consequências da quarentena para a economia que abalam o ecossistema, as mais graves, na visão deles, são três (a seguir):

O menor apetite a risco pelos fundos de venture capital e investidores em geral, o que, quando não inviabiliza financiamentos, aumenta os juros significativamente.

Esse fator afeta todas as categorias de fintechs, e não só as de crédito, já que startups em geral necessitam de financiamento externo em seus primeiros anos de existência.

Em 2019, o investimento em fintechs no país totalizou US$ 936 milhões, 35% do total registrado em venture capital para startups em geral, de acordo com a Data Miner.

Uma alta abrupta da inadimplência, principalmente entre os consumidores “subprime” – que são justamente o público-alvo dessas empresas.

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O Boletim Focus mais recente aponta para recessão de 3,34% para o PIB brasileiro este ano, mas o Morgan “não se surpreenderia” com uma queda da ordem de 5%. Isso significa que os clientes que tomam crédito nessas fintechs, em geral pessoas com maior dificuldade em encontrar subsídios em grandes bancos por terem perfil de crédito de menor qualidade, verão queda abrupta na receita.

A média de crescimento da inadimplência em cartões de crédito para 15 países nas crises dos últimos 10 anos foi de 47% entre seis e nove meses após o início da recessão.

O relatório exemplifica a gravidade deste ponto com Banco Inter, onde 71% dos novos empréstimos nos últimos 12 meses são oriundos de cartões de crédito – estes emitidos, em sua maioria, para clientes sem relação anterior com a instituição.

Queda nos volumes e no crescimento de receitas com menos investimentos e aumento da preferência pela segurança de instituições financeiras já estabelecidas

Dado o cenário descrito nos itens anteriores, “as fintechs serão forçadas a focar em preservação de capital e crescer vagarosamente – exatamente o oposto do que vêm fazendo desde o início”, lembrou o Morgan – ou seja, fatalmente menos capital será investido na atração de clientes.

Outro agravante e que momentos de crise como este podem gerar desinteresse por parte dos clientes, principalmente porque muitos deles usam as empresas novatas como segunda conta, mantendo o relacionamento com bancos tradicionais. Com isso, o Morgan avalia o risco de um flight-to-safety (alusão ao termo flight-to-quality usado principalmente no mercado imobiliário), ou seja, uma busca pela segurança dos players maiores.

Quem sai ganhando?

O Brasil tem a maior indústria de fintechs da América Latina, aponta pesquisa da Fintech Lab. Em 2019, operavam 529 empresas financeiras baseadas em tecnologia no país, sendo a vertical de pagamentos a mais relevante, com 151 representantes. Crédito, a frente que deve ser mais afetada, aparecia em segundo lugar, com 95 representantes. De todas, 61% das fintechs brasileiras operam há três anos ou menos e cerca de 48% têm até 10 funcionários.

A queda dessas centenas de pequenas e jovens empresas pode levar grandes instituições a recuperar parte do terreno perdido e sair fortalecidas da crise. “Ainda que poucas [fintechs] tenham fatia de mercado relevante, a imensa quantidade de novos pequenos empreendimentos estava evidentemente impactando volumes e preços”, aponta Kuri.

Por sua vez, essas fintechs já estabelecidas podem observar uma janela interessante para fusões e aquisições, “mas a preservação de capital pode limitar a consolidação entre disruptoras”.

Do ponto de vista de investimentos, o relatório aponta ações de grandes bancos e fintechs estabelecidas (como Stone e PagSeguro) como bons jogadores para uma carteira que queira aproveitar esse movimento. Desaconselha, entretanto, o investimento em Banco Inter (BIDI4), cujo modelo de negócio é “aparentemente difícil de monetizar”.

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