Entre concentração e “dilema” no mercado de carros: o que explica as recentes estratégias das grandes locadoras

SÃO PAULO – A falta de carros novos por problemas de produção com a falta de componentes coincidindo com a expectativa pela fusão entre a Localiza (RENT3) e a Unidas (LCAM3) pode levar os investidores a questionarem: o que realmente está impactando o setor das locadoras de veículos e os preços praticados pelas companhias? Eventos e análises recentes podem ajudar a elucidar temas importantes para o setor.

Conforme destaca o Bradesco BBI em relatório, na última terça-feira (10), o banco e outros analistas participaram de reunião com Juan Ferrés, fundador da Ferrés Economia e responsável pelo parecer encomendado pela Movida (MOVI3) contra a fusão entre Localiza e Unidas apresentado ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade).

A Ferrés Economia alega que a fusão entre Localiza-Unidas pode gerar uma concentração de mercado de mais de 70% e que somente o anúncio da combinação de negócios já estaria impactando negativamente os consumidores. Isso por conta do aumento dos preços das diárias no segmento de aluguel de carros, levando em conta que as empresas não têm nenhum incentivo para competir uma com a outra.

De acordo com o relatório, a consultoria destaca que a Localiza não está cortando os preços do aluguel de carros, apesar dos ganhos acima da média com as vendas de carros usados, o que acontece historicamente no setor. Desta vez, tanto a Localiza quanto a Unidas decidiram aumentar seus preços diários de aluguel de veículos.

Além disso, para minimizar o risco de restrições que possam ser impostas pelo Cade, ambas as empresas estariam focando na divisão de Gestão de Frotas, em que a participação combinada de mercado é de cerca de 35%, ante 75% de aluguel de carros.

Para a consultoria, remédios antitruste não seriam suficientes para estimular a competição. A avaliação é de que vender ativos para a Movida impactaria a empresa resultante da combinação das duas no curto prazo, mas seria possível recuperar rapidamente a frota vendida com grandes descontos.

Além disso, vender ativos para o terceiro (atualmente quarto) player do setor não seria  suficiente para equilibrar o mercado. Já vender os ativos de locação de carros de uma das partes envolvidas não produziria os resultados desejados a longo prazo, dada a capacidade da empresa resultante de se recuperar rapidamente. Os limites para aquisições de ativos, por sua vez, acabariam prejudicando os consumidores.

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Na avaliação do BBI, por sua vez, os recentes aumentos de preços estão relacionados com a alta dos preços dos
automóveis novos e o aumento das taxas de juro no Brasil.

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“A Localiza é o marcador de preço no mercado de locação de veículos e sua decisão de aumentar os preços para preservar o retorno do capital investido permitiu que locadoras de veículos menores seguissem o exemplo”, afirmam Victor Mizusaki, Andre Ferreira e Pedro Fontana, analistas que assinam o relatório do BBI. O cenário-base do banco é de que o Cade aprove a fusão Localiza-Unidas com restrições.

Falta de carros novos: o que fazer?

Tratando sobre o mesmo tema, ainda que por um outro ângulo, o Bank of America reforça que, em um cenário de falta de carros novos, as locadoras também têm enfrentado um dilema.

“As locadoras de veículos devem aceitar preços de carros mais altos agora, aumentar drasticamente o capital investido e adicionar pressão ao ROIC [Retorno sobre o Capital Investido] de longo prazo? Ou devem desacelerar as compras, abrir mão do crescimento, carregar uma frota mais velha e aceitar margens de curto prazo mais baixas?”, questionam os analistas.

O BofA aponta que a Localiza e a Movida têm feito diferentes estratégias, em um movimento que deve ser acompanhado de perto pelos investidores do setor, já que é muito significativo em capital intensivo.

A Localiza tem mantido um baixo volume de compra de veículos em 10% da frota total, enquanto a Movida  acelerou para 19% da frota total, aceitando preços de carros mais altos.

“Em nossa opinião, a abordagem da Localiza pode reduzir as margens de curto prazo (com maiores custos de manutenção), enquanto a Movida pode pressionar o ROIC de longo prazo (por conta do maior capital investido)”, avaliam.

Ambas as empresas estão entregando atualmente um ROIC sólido (de 14% para Localiza e de 10% para Movida), mas esses números são impactados pelo transitório vento a favor das fortes vendas de carros usados. Se as margens de vendas de carros usados ​​anormalmente altas forem excluídas, estima-se um ROIC de 11% para a Localiza e de 7% para Movida. Eles também avaliam que o retorno sobre o capital investido da Localiza está crescendo marginalmente, enquanto está diminuindo para a Movida.

Os analistas acreditam que ainda é muito cedo para dizer ao certo qual será a estratégia vencedora. Ainda assim, veem duas questões pressionando os preços dos veículos para aluguel de veículos: i) fatores como câmbio e matérias-primas aumentando os preços de lista; e ii) fatores transitórios como gargalo de produção reduzindo o desconto nos preços de lista.

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“À medida que este último desaparece (e o momento para isso é um ponto de interrogação), acreditamos que as locadoras de veículos possam ser capazes de renovar a frota em melhores condições. Além disso, vemos ventos contrários adicionais para retornos, incluindo taxas mais altas e depreciação normalizada”, avaliam.

Assim, dado o perfil, os analistas veem como mais positiva a abordagem conservadora da Localiza de focar no retorno.

“Ao mesmo tempo em que mantemos nossa visão positiva sobre o setor, percebemos um cenário cada vez mais desafiador para a locação de veículos. Embora a abordagem da Localiza possa decepcionar as expectativas do mercado em volumes e margens de curto prazo, a história nos mostra que uma abordagem conservadora com foco em retornos de longo prazo é geralmente a melhor opção no setor. Por outro lado, o impulso sólido dos lucros da Movida pode ser seguido por uma compressão do ROIC”.

Cabe ressaltar que o resultado do segundo trimestre de Localiza decepcionou os investidores, enquanto os da Movida animaram o mercado (veja mais clicando aqui).

O BofA possui recomendação de compra para a Localiza, com preço-alvo de R$ 78 (potencial de valorização de 36% em relação ao fechamento de terça) e neutra para Movida, com preço-alvo de R$ 24 (ou potencial de alta de 15% em relação à terça)

O Bradesco BBI, por sua vez, mantém recomendação de compra para Movida (preço-alvo de R$ 32, com upside de 54%), Localiza (com preço-alvo de R$ 86, ou upside de 50%) e Unidas (com preço-alvo de R$ 39, ou upside de 54%).

Eles destacam dois motivos: i) apesar da escassez de semicondutores, leasings operacionais para pessoas físicas podem acelerar o crescimento do aluguel de carros da indústria brasileira; e ii) os preços-alvo para Localiza e Unidas já incorporam
potenciais restrições de fusões e aquisições a serem impostas pelo Cade.

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Superintendência do Cade vê concentração elevada em fusão Localiza-Unidas

Locamerica Unidas locadora de carros (divulgação)

A Superintendência-Geral do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) avaliou que a compra da Unidas (LCAM3) pela Localiza (RENT3) resulta em concentração elevada de mercado e necessita de análise mais aprofundada pelo conselho. De acordo com despacho publicado no Diário Oficial da União (DOU), a superintendência declarou o negócio “complexo”, o que significa que a operação irá para análise do tribunal do Cade, composto por seis conselheiros e o presidente.

Em setembro de 2020, logo após o anúncio do negócio, o Broadcast (sistema de notícias em tempo real Grupo Estado) antecipou que a operação poderia enfrentar problemas no Cade.

A Superintendência-Geral é a responsável pela análise inicial de todas as fusões e aquisições apresentadas ao Cade. Quando entende que o negócio não apresenta risco concorrencial, a própria superintendência pode aprovar a operação, sem submetê-la ao tribunal. Quando há suspeita de concentração de mercado elevada, como na fusão das locadoras de automóveis, a superintendência envia a operação para a análise do tribunal, que dará a palavra final.

Em nota técnica sobre o negócio, a superintendência afirma que a análise até o momento aponta que a operação “resulta em concentrações elevadas nos mercados de aluguel de veículos, tanto sob a ótica nacional como na maioria dos municípios e aeroportos em que ambas as empresas atuam, e de gestão de frotas no âmbito nacional”. A superintendência destacou que se trata da líder de mercado (Localiza) adquirindo a vice-líder (Unidas) e que a operação leva a uma concentração de mercado entre 60% e 70%.

De acordo com a nota, concorrentes consultados levantaram preocupações sobre questões como possível aumento do poder de barganha na aquisição de veículos novos pela Localiza e Unidas e baixa probabilidade de entrada de novos competidores no mercado de locação de veículos e gestão de frotas.

“Diante dos pontos de atenção mencionados, esta SG reputa ser necessário realizar novas diligências, de forma a aprofundar a análise do caso, bem como entender se tais preocupações causam efetivamente prejuízo à concorrência ou se algumas delas podem ser consideradas eficiências”, completou.

Fundada pelo ex-secretário de Desestatizações do Ministério da Economia, Salim Mattar, a Localiza anunciou a fusão com a Unidas em setembro do ano passado, o que criaria uma empresa com valor de mercado consolidado de R$ 48 bilhões.

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Fusão entre Localiza e Unidas encontra mais um oponente: motoristas de aplicativos

Locamerica Unidas locadora de carros (divulgação)

Uma das fusões mais importantes em análise pelas autoridades concorrenciais neste ano, a união das locadoras de veículos Localiza (RENT3) e Unidas (LCAM3) ganhou, além da oposição dos competidores, novos antagonistas: motoristas de aplicativos.

Representantes de condutores de serviços como Uber e 99 estão preocupados com o impacto para a categoria. De acordo com a Associação dos Motoristas de Aplicativos de São Paulo (Amasp), 25% dos motoristas dirigem carros alugados no Estado. O temor é de que a fusão diminua a concorrência e aumente o preço da locação para os motoristas, reduzindo a oferta de transporte ou encarecendo o valor da corrida para os usuários.

“Já vimos uma disparada nos preços dos carros alugados desde que a fusão foi anunciada. Com a falta de concorrência no mercado, eles colocam o valor que eles querem”, afirma o presidente da Amasp, Eduardo Lima de Souza.

Fundada por Salim Mattar, ex-secretário de Desestatizações do Ministério da Economia, a Localiza anunciou a fusão com a Unidas em setembro do ano passado, o que criaria uma empresa com valor de mercado consolidado de R$ 48 bilhões. O negócio, porém, só pode ser concretizado após a aprovação do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), onde está sob análise.

O vereador de São Paulo Marlon Luz, conhecido como “Marlon do Uber” – que foi motorista de aplicativo e se elegeu como representante da categoria -, diz que, desde novembro, houve aumento de 15% a 20% no preço do aluguel de carros.

Segundo Marlon, quanto menos concorrência tiver, mais alto vai ficar o preço. “A tendência com essa fusão é que esses motoristas que alugam carro desistam. Vão sair do negócio e, aí, terão menos carros de aplicativo servindo os passageiros, maior demora e preços das passagens aumentando”, afirmou o vereador.

Questionamentos

No processo no Cade, a locadora de veículos Movida (MOVI3), que tem 15% de participação de mercado, e empresas menores, como Ouro Verde Locação e Porto Seguro Carro Fácil, manifestaram-se contra a fusão. A Movida e a Ouro Verde questionam o market share (participação de mercado) informado pela Localiza ao notificar o negócio ao conselho, que seria, somado ao da Unidas, de 40% da frota nacional de carros para aluguel.

Saiba mais:  “Sim, mudamos de ideia sobre fusão entre Unidas e Localiza”, diz CFO da Movida

“Em apresentações anteriores feitas a investidores, a Localiza falava que tinha mais de 50% e, a Unidas, mais de 17%. Juntas, as duas empresas têm quase 70% do mercado”, afirma o consultor Juan Ferrés, contratado pela Movida para apresentar um parecer ao Cade em que analisa a operação.

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A reportagem procurou a Localiza e a Unidas e questionou as empresas sobre as preocupações dos motoristas de aplicativo e os argumentos apresentados pela Movida. A Localiza respondeu que a companhia, “seguindo suas reconhecidas práticas de governança corporativa e transparência”, apresentou ao Cade informações sobre o negócio e estudos sobre a dinâmica do setor.

“Eventuais esclarecimentos sobre a operação estão sendo discutidos com a autarquia”, completou. A Unidas disse que prefere não se manifestar sobre o tema neste momento.

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Localiza e Unidas se juntam para criar gigante do setor e ações saltam: quais sinergias e riscos da nova empresa?

SÃO PAULO – Uma grata surpresa, com um grande potencial de sinergia e crescimento para a nova companhia que está por vir. Foi desta forma que os analistas de mercado receberam o acordo para combinação de negócios entre a Localiza (RENT3) e a Unidas (LCAM3), com a proposta de incorporação das ações da segunda pela primeira companhia.

Essa notícia marca mais um passo para a consolidação do setor ao criar uma gigante de locação de veículos. Vale ressaltar que, no começo de 2018, a Locamerica e Unidas já haviam unido as suas operações.

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Agora, as dimensões da fusão são ainda maiores. A Localiza, na véspera, valia R$ 39 bilhões na B3, enquanto a Unidas tinha um valor de mercado de R$ 10,7 bilhões. A sessão desta quarta-feira também é marcada por uma disparada dos ativos, que chegaram a ser superior a 16% (R$ 60,29) para a Localiza e de 22,46% para a Unidas (R$ 22,95), com ambas tendo atingido máximas históricas intradiárias.

Conforme proposto pelo acordo, a Unidas será uma subsidiária integral da Localiza e os seus atuais acionistas receberão ações da compradora conforme a seguinte relação de troca: cada acionista da Unidas receberá 0,44682380 de ação nova emitida pela Localiza para cada 1 ação da Unidas. Os acionistas da Localiza terão 76,85% da nova companhia, enquanto os 23,15% restantes pertencerão aos acionistas da Unidas.

Como parte da transação, pretende-se que a “Companhia Combinada” amplie para a Localiza a parceria atualmente existente entre a Unidas e a subsidiária da Enterprise, Vanguard Car Rental USA, LLC, que é dona das marcas Alamo, Enterprise e National “mediante um novo modelo de Mutual Referral Agreement visando a cooperação entre as empresas através de indicação mútua de clientes”. A equipe de análise da Levante Ideias de Investimento ressalta que, com isso, a Localiza quer agora, através da subsidiária Unidas, fortalecer a sua atuação internacional utilizando essa parceria.

Considerando o preço de fechamento dos papéis da Localiza na sessão da última terça-feira, os acionistas da Unidas receberão R$ 23,12 por ação, um prêmio de 9,1% sobre a cotação de fechamento da véspera. A operação também prevê a distribuição de até R$ 425 milhões em dividendos a acionistas da Unidas, o que eleva o prêmio para 13%.

Usando números pró-forma referentes a 2019, caso a transação seja concluída, a nova companhia terá faturamento de R$ 15 bilhões, lucro antes de juros, impostos, depreciações e amortizações (Ebitda) de R$ 3,5 bilhões. Além disso, a frota combinada é de cerca de 470 mil veículos.

Enquanto a Localiza tem destaque operacional no segmento de aluguéis (RaC), a Unidas diferencia-se na parte de Gestão de Frotas, fazendo com que a empresa seja líder de mercado nesses dois segmentos.

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Assim, conforme destacam os analistas Victor Mizusaki e Gabriel Rezende, do Bradesco BBI, “a criação desta nova empresa resultará em ganhos de sinergia na compra de carros novos e menores despesas gerais e administrativas”. O que, na avaliação dos analistas, não se reflete no preço atual das ações.

A estimativa é de sinergias de R$ 5 bilhões com a fusão entre as duas companhias, o que corresponde a R$ 5 a mais para as ações RENT3. “A nova Localiza vai comprar cerca de 320 mil carros por ano, ou cerca de 60% dos veículos vendidos para o setor de aluguel de automóveis. Com este poder de barganha,
para cada 1 ponto percentual em maiores descontos com fabricantes, a Localiza pode gerar R$ 3,5 bilhões em valor presente líquido, ou R$ 3,60 por ação. Além disso, assumindo a possibilidade de redução das despesas com vendas, gerais e administrativas em 20% na Unidas, a Localiza pode agregar mais R$ 1,4 bilhão de valor, ou R$ 1,40 por ativo”, apontam os analistas.

Outras sinergias imediatas, além de desconto com montadoras na compra de carros, são a otimização de lojas, melhora na venda de carros seminovos e usados, redução nos custos de manutenção por carro e capacidade de acelerar o crescimento em novos segmentos como aluguéis de automóveis no longo prazo para pessoas físicas.

Além disso, conforme ressalta o Morgan Stanley, a empresa combinada também terá uma divisão do Ebitda uniforme entre segmento de aluguéis de carros e gestão de frotas – a Localiza atualmente tem dois terços do Ebitda vindo de aluguéis, enquanto a empresa combinada teria 50%.

Os analistas do banco americano também destacam o impacto para a concorrente listada em Bolsa que não está envolvida no negócio, a Movida (MOVI3). “Achamos que o anúncio é em geral negativo pois, se for para frente, levará a um aumento significativo de seu déficit de escala com o maior player do Brasil e poderia deixar menos espaço para a Movida crescer”, apontam.

Dito isso, os analistas ressaltam que a Movida poderia se beneficiar até certo ponto com o mercado mais consolidado (levando a maiores preços de aluguéis de carros), enquanto as montadoras poderiam efetivamente auxiliá-la no que diz respeito aos prazos de compra de veículos, de modo a diminuir o efeito do que seria sua crescente dependência da combinação da Localiza-Unidas.

De olho no Cade

A criação da gigante do setor, aliás, deve chamar a atenção do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) – e não é descartada a imposição de restrições relevantes neste acordo.

No segmento de aluguel de carros, a Localiza atualmente tem cerca de 51% de participação, enquanto a Unidas tem uma fatia de 17%, totalizando 68% do mercado. Do lado de gestão de frota, as respectivas participações de mercado das empresas são de 13% e 16%, resultando em 29% combinados.

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Participação das principais companhias no segmento de aluguel de carros (números de 2019): 

Participação das principais companhias no segmento de gestão de frotas (números de 2019): 

“Dada a alta concentração de mercado da empresa combinada, esta transação poderia ser considerada complexa pelo Cade, sendo exigidos alguns ‘remédios’ pela autoridade antitruste. Vemos a aprovação pelo Cade como uma das as etapas mais importantes da transação”, avalia o Morgan Stanley.

Na mesma linha, o BBI ressalta que o Cade é o principal risco e também avalia que alguns remédios poderiam ser recomendados para aprovar a fusão; contudo, o acordo de incorporação mitiga o risco de quebra do negócio. “Localiza e Unidas concordaram que, mesmo que haja qualquer restrição imposta pelo CADE, como a venda / fechamento de locadoras de veículos ou de marcas, a relação de troca de ações não mudará”, apontam os analistas.

Desta forma, os próximos eventos a serem acompanhados de perto pelos investidores são: i) a convocação de uma assembleia extraordinária de acionistas para votar a fusão, o que deve acontecer ainda no quarto trimestre e ii) no Cade, com a análise devendo ocorrer em 2021.

Enquanto esses eventos não ocorrem, o mercado avalia como positiva a combinação de negócios, em um cenário que já era apontado de recuperação para o setor após um período difícil por conta da pandemia.

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Em relatório em que comentou a proposta de fusão, o BBI seguiu com recomendação outperform (desempenho acima da média do mercado) para os papéis de ambas as companhias, mas ainda sem atualização de preço-alvo, que seguiam de R$ 53 para Localiza (potencial de valorização de 2% frente o fechamento da véspera) e de R$ 21 para Unidas (quase estável em relação ao último fechamento).

Conforme destacam os analistas, apesar da forte alta das ações de hoje, a Unidas ainda está operando com um desconto de cerca de 8% quando ajustado pelos dividendos especiais e levando em conta a relação de troca de ações.

De acordo com a compilação feita com analistas de mercado pela Refinitiv, de 14 casas de análise que cobrem Localiza, 10 recomendam compra para o ativo e 4 recomendam manutenção. Para Unidas, de 11 casas, 10 recomendam compra e apenas 1 recomenda manutenção. A união dessas companhias potencializa ainda mais o otimismo do mercado, que também segue monitorando os próximos eventos para que a combinação dos negócios seja concluída.

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Ações de locadoras de carros passam por correção, mas continuam atraentes, dizem analistas

SÃO PAULO — A pandemia de coronavírus atingiu negativamente todos os setores da Bolsa, sem exceção. Mas alguns deles foram mais prejudicados pelas medidas de isolamento social determinadas pelos governos estaduais.

O setor de aluguel de carros foi um deles. Embora parte das receitas das locadoras venha de contratos de aluguéis fixos de frotas, que são de longo prazo e em sua maioria foram mantidos, o segmento de aluguéis de curto prazo para pessoas físicas foi bastante impactado, assim como o de aluguel para motoristas de aplicativos de mobilidade.

As ações da Localiza (RENT3), maior empresa do setor na Bolsa, acumulam queda de 15% em 2020. Isso porque elas se recuperaram em abril e maio do tombo de 46,8% sofrido em março, quando o período de quarentena pela Covid-19 começou no Brasil.

Já a Movida (MOVI3), a mais nova do setor na B3, vê suas ações caírem 31% em 2020. Elas também se recuperaram em abril e maio, depois de terem despencado 55% em março. Desde o IPO, em 2017, os papéis sobem 79%.

A terceira representante do setor na Bolsa é a Unidas, da Locamerica (LCAM3). Os papéis da companhia amargam perda de 26,7% neste ano. Apenas em março, eles tiveram desvalorização de 50,9%, mas depois subiram 28,4% nos meses de abril e maio.

Mesmo com a retomada recente, a avaliação de analistas ouvidos pelo InfoMoney é de que essas ações continuam atraentes, já que as companhias estão capitalizadas para enfrentar os prejuízos gerados pela pandemia e a expectativa é que a demanda retorne, mesmo que lentamente, com a abertura gradual da economia ao longo do ano.

“Embora o aluguel para o varejo tenha sido prejudicado pela pandemia, as empresas também fazem gestão de frotas para outras companhias. É uma parte mais relevante e resiliente do negócio, que foi pouco atingida”, disse Carlos Daltozo, head de renda variável da Eleven.

Para ele, os números do primeiro trimestre de 2020 apresentados pelas empresas recentemente são “uma fotografia de um jornal velho”, já que abrangem apenas 15 dias de quarentena. “Os balanços do segundo trimestre vão ser muito piores”, afirmou.

Entre janeiro e março deste ano, a Localiza conseguiu expandir em dois dígitos sua receita líquida e o Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização), a despeito da Covid-19. O lucro líquido subiu 9,5% sobre o mesmo período de 2019. Do lado negativo, o desempenho mais fraco da venda de seminovos reduziu o retorno sobre o capital investido (ROIC).

A Unidas (Locamerica) também registrou avanço anual de dois dígitos na receita líquida, com crescimento de 8% do Ebitda, mas queda de 3,5% no lucro líquido do período. Assim como a Localiza, o ROIC também foi um ponto negativo dos números, afetado pelo aumento da depreciação (venda de seminovos por um valor mais baixo).

Enquanto isso, a Movida teve prejuízo nos três primeiros meses de 2020, de R$ 114,4 milhões. O lucro líquido ajustado foi de R$ 55 milhões. A empresa teve aumento de dois dígitos tanto na receita líquida quanto no Ebitda, com crescimento também expressivo de seminovos.

“A Movida foi a única a fazer um impairment (depreciação) dos seus estoques de veículos, isso trouxe um impacto no resultado trimestral. Ela já precificou seu estoque de veículos em um patamar de 5% a 10% menor do que era antes”, explicou Daltozo.

Na avaliação do head da Eleven, tanto a Movida quanto a Unidas vinham tentando “correr atrás” do forte desempenho da Localiza, líder no setor. “A Movida conseguiu atingir um novo patamar em sua unidade de seminovos e está mais descontada em relação às outras.”

Por esse motivo, Daltozo disse que, apesar de a Eleven ter recomendação de compra para as ações das três empresas, sua preferida no setor seria as da Movida. O risco, segundo ele, é um prolongamento muito maior do que o esperado para o tempo de fechamento da economia.

“É uma crise de saúde pública. É diferente das demais [crises que já passamos]. Temos visto muitas soluções na base de tentativa e erro. Alguns lugares estão liberando o isolamento parcialmente, mas a curva de infecções do novo coronavírus ainda está subindo”, disse.

“Os consumidores quando voltarem não vão consumir serviços na mesma intensidade que antes. Mas ainda é muito cedo para precificarmos o mundo no pós-pandemia. Vai haver mudança, mas ninguém sabe ao certo qual mudança será. O mercado exagerou em algumas companhias de capital aberto”, concluiu.

O percentual da frota utilizada das companhias, segundo Eduardo Guimarães, da Levante Investimentos, reduziu bastante com a pandemia de coronavírus — passou de cerca de 75% a 80% para perto de 50%. Ele concorda que o pior ficou para abril, o que deve ser refletido em balanços ruins no segundo trimestre.

“Mesmo assim, eu acredito que o pior já tenha passado. São empresas muito bem capitalizadas. A Movida fez oferta de ações recentemente. Elas não têm dívidas expressivas de curto prazo”, disse. “A retomada das ações dessas companhias e da Bolsa em geral desde abril mostra que há uma melhora na percepção de risco no mundo.”

A continuidade dessa alta recente, afirmou o especialista, vai depender da volta da economia. Ele citou como exemplo o fato de cerca de 20% a 25% das operações do setor estarem baseadas em aeroportos e shoppings, que estão com baixíssima ou zero circulação de pessoas atualmente.

Sem abrir qual é o seu papel preferido entre as locadoras de automóveis na B3, Guimarães afirmou, contudo, que a Movida é a que ele menos tem apreço. “Ela é a menor entre as três e, nesse setor, tamanho e escala fazem diferença. Gosto mais da Localiza e da Unidas.”

O analista da Levante citou a compra recente da Zetta pela Unidas, criando uma divisão de veículos especiais, como ambulâncias e viaturas policiais. Apesar de o mercado de aluguel de veículos ser dominado pelas três companhias listadas na B3, ainda há players menores espalhados pelo país e que podem ser alvo de aquisição na crise, segundo ele.

Rogerio Araujo, do UBS, está otimista com as perspectivas de longo prazo para as locadoras de automóveis. O banco elevou sua recomendação para a Unidas de neutra para compra, rebaixando a avaliação da Localiza de compra para neutra. Já sobre a Movida, a visão do UBS segue neutra.

“Os fatores de crescimento para o setor permanecem praticamente intactos, e alguns podem até se fortalecer devido aos efeitos da Covid-19”, disse o analista. Segundo Araujo, no segmento de aluguel de carros, a demanda pode aumentar com as pessoas trocando o transporte público para o maior uso de apps de mobilidade.

Já no segmento de aluguel de frotas, as empresas provavelmente aumentarão a terceirização de veículos, na análise do UBS, que ressaltou que apenas 9% da frota corporativa atual é terceirizada no Brasil, contra uma média de 29% em outros países.

“Além disso, acreditamos que a consolidação provavelmente vai acelerar na divisão de aluguel de frotas, já que pequenos players lutam no ambiente atual e as vantagens competitivas que os grandes players têm em relação aos custos de dívida e descontos no preço dos carros provavelmente terão um peso ainda maior no pós-pandemia”, concluiu.

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Sem serviço, 160 mil motoristas devolvem carros; locadoras já alugam por R$ 10

Responsáveis por terem puxado os ganhos das locadoras nos últimos anos, cerca de 160 mil motoristas de aplicativos devolveram os carros alugados por causa do baixo movimento após a crise do coronavírus. Sem ter espaço, empresas estão alugando áreas de estacionamento. Para frear devoluções, o preço da locação foi reduzido à metade. E para quem insiste na entrega do carro são oferecidas tarifas de R$ 10 por semana para mantê-lo, ainda que parado.

“É como se a empresa alugasse minha garagem e eu ainda tenho de pagar”, diz Daniel Marcílio, de 42 anos. Motorista do Uber desde outubro, ele aluga um modelo Fiat Argo da Localiza e pagava R$ 494 por semana, preço que caiu para R$ 247.

Ainda assim Marcílio quis devolver o carro, pois estava fazendo em média cinco corridas por semana. Antes da crise eram dez por dia. “Me ofereceram ficar com o carro por R$ 10 e decidi esperar mais um pouco. Mas, se a situação não melhorar, vou devolver na próxima semana.”

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Paulo Miguel Junior, presidente do conselho da Associação Brasileira das Locadoras de Automóveis (Abla), confirma que os pátios estão lotados e muitas empresas tiveram de alugar pavilhões e fazer acordos com estacionamentos e supermercados que estão com áreas ociosas para guardar parte das frotas. O setor abriga cerca de 10 mil empresas, com 75 mil funcionários.

“Temos frota de 997 mil veículos que normalmente estão em circulação, e ninguém estava estruturado para essa situação inusitada”, diz Miguel. Segundo ele, só para uso de aplicativos havia 200 mil carros alugados, e 80% foram devolvidos. A locação diária, para consumidores comuns, caiu 90%. Para frotas terceirizadas, a queda foi de 20%.

Segundo o executivo, cada empresa passou a adotar estratégias de acordo com seu fluxo de caixa, mas, mesmo com promoções como a de tarifas de R$ 15 a R$ 50 para locação diária, o movimento segue fraco.

A Localiza informa apenas que “conta com estrutura logística robusta para alocar sua frota” e que “em sua rotina de atividades já utiliza espaços de terceiros para abrigar temporariamente parte de seus carros em função da sazonalidade de demandas”. Em relação às tarifas, afirma que a média diária por carro caiu de R$ 69,22, no primeiro trimestre, para R$ 47 em abril.

Freio

A pandemia de coronavírus também vai frear o crescimento das locadoras. O setor saltou de faturamento de R$ 13,8 bilhões em 2016 para R$ 21,8 bilhões no ano passado. Neste ano, o resultado deve, no máximo, repetir o de 2019. A previsão inicial era crescer até 10%, diz o presidente da Abla.

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Maior locadora do País, com frota de 323,3 mil carros, a Localiza divulgou sexta-feira que obteve lucro de R$ 230,9 milhões no primeiro trimestre, 9,5% superior ao de igual período de 2019. Mas admite que abril já foi fortemente impactado pelos efeitos da pandemia. A frota média alugada no mês passado teve redução de 33% em relação à media do primeiro trimestre, caindo para 105,2 mil veículos. O número de carros seminovos vendidos baixou de 38,3 mil ao mês no primeiro trimestre para 2,46 mil em abril. No período, várias das 652 lojas do grupo ficaram fechadas.

“Em razão da queda nos volumes do aluguel e da venda de seminovos, a companhia vem adotando medidas de redução de custos, despesas e investimentos” informa a Localiza. Também efetuou suspensões de contratos de trabalho e redução de jornada e salários de funcionários, além de ajuste de quadro. O grupo informa, contudo, que mantém caixa de R$ 2 bilhões.

A Movida, que também divulgou balanço na semana passada, registrou seu primeiro prejuízo trimestral desde a abertura do capital, em fevereiro de 2017. O grupo teve perda de R$ 114,4 milhões, ante lucro de R$ 42 milhões em igual intervalo de 2019.

Segundo o diretor financeiro da Movida, Edmar Lopes, o prejuízo é resultado da previsão de depreciação do valor da frota de 119 mil veículos, em razão da crise e da demora na retomada do mercado. “Antes desse efeito, nosso resultado era de R$ 55 milhões de lucro”, ressalta. A empresa tem R$ 1,1 bilhão de caixa.

Segundo Lopes, o número de carros devolvidos não é tão significativo, pois a empresa, logo no início da pandemia, reduziu preços e criou novas tarifas de acordo com a quilometragem rodada. Também lançou tarifas reduzidas para a locação diária e vendas de seminovos pela internet, com entrega na casa do cliente. Ele acredita que, no pós-pandemia, haverá demanda maior de serviços por aplicativos e de locação individual, pois a tendência é de que, por algum período, muitas pessoas vão evitar o transporte público. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.