Bento Albuquerque volta a negar risco de apagão ou racionamento

(Rovena Rosa/Agência Brasil)

O ministro de Minas e Energia, Bento Albuquerque, reafirmou que não há risco de o Brasil voltar a enfrentar racionamento ou apagão devido à grave crise hídrica. Em entrevista ao programa ‘Agenda Econômica’, da TV Senado, Albuquerque disse que o governo monitora o sistema elétrico 24 horas por dia e que está adotando medidas desde o final do ano passado.

“Não corremos risco de apagão, não corremos risco de racionamento. Como eu já tive oportunidade de falar algumas vezes, nós monitoramos o nosso sistema interligado nacional 24 horas por dia”, disse. O vídeo da entrevista foi disponibilizado na noite desta quarta-feira, 7.

No final do mês passado, o governo editou uma Medida Provisória para criar a Câmara de Regras Excepcionais para Gestão Hidroenergética, a CREG. O grupo, presidido por Albuquerque, poderá determinar mudanças nas vazões de reservatórios e hidrelétricas, por exemplo. Como revelou o Broadcast, uma versão inicial do documento previa a possibilidade até mesmo de um programa de “racionalização compulsória”.

O ministro explicou que a escassez nos reservatórios levou à necessidade de acionar mais usinas termelétricas, que geram uma energia mais cara. Por causa disso, a Agência Nacional de Energia Elétrica aprovou um reajuste de 52% na bandeira vermelha patamar 2 – taxa adicional cobrada nas contas de luz para fazer frente aos custos com a geração.

Albuquerque classificou o aumento como “consequência da crise hídrica” e afirmou que as térmicas dão mais segurança ao fornecimento de energia.

“Essas termelétricas estão sendo utilizadas mais intensamente agora, fruto dos níveis dos nossos reservatórios e isso vai na conta do consumidor. Essas bandeiras tarifárias significam que o custo da energia ficou mais caro e essa energia tem de ser paga, é isso que indica e é isso que o consumidor vai ter de arcar com o custo”, afirmou o ministro.

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Qual é o risco de racionamento de energia? XP vê chance de 3% nos próximos 12 meses – e destaca segmentos impactados

SÃO PAULO – A situação hidrológica brasileira é preocupante, mas não alarmante, aponta a XP em relatório, destacando ainda que o cenário adverso no Brasil já se estende por alguns anos. Em junho de 2021, os reservatórios do subsistema Sudeste/Centro-Oeste, que representam 70% da capacidade do Sistema Interligado Nacional (SIN), atingiram 30% da sua capacidade total, o menor nível em 20 anos.

O cenário, contudo, é diferente de 2001, desde o último racionamento de energia. Segundo apontam em relatório os analistas Victor Burke e Maíra Maldonado, o sistema elétrico brasileiro está mais robusto tornou-se muito mais preparado para lidar com cenários de estresse.

O sistema de transmissão cresceu 136% enquanto a demanda cresceu apenas 93%, reduzindo as restrições no sistema e permitindo mais flexibilidade ao seu operador (ONS). Outra diferença é a própria matriz energética, destacam. Em 2001, 83% da capacidade instalada era proveniente de fontes hídricas, hoje apenas 65% da matriz energética provém de hidrelétricas, graças à adição de fontes térmicas, eólicas e solares ao sistema.

Assim, de acordo com o modelo feito pelos analistas, há uma chance de 3% de racionamento nos próximos doze meses no país.

“Em nosso cenário-base não vemos necessidade de racionamento de energia nos próximos doze meses. Embora estimemos que os reservatórios atinjam níveis historicamente baixos (18% em novembro de 2021 para o SIN consolidado), há capacidade térmica suficiente para ser utilizada e evitar medidas mais dramáticas”, destacam os analistas.

Desafios para geradoras

Levando em conta essas expectativas, Burke e Maíra não veem nenhum impacto relevante para as distribuidoras dentro da área de cobertura da XP, mas o cenário hidrológico desafiador afeta algumas geradoras. 

Isso porque, com o declínio dos níveis dos reservatórios, o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) autoriza o despacho de usinas termelétricas para garantir a segurança energética do país. Como consequência, a geração das usinas hidrelétricas é reduzida com objetivo de desacelerar o esgotamento dos reservatórios durante o período seco, destacou a equipe de análise em relatório anterior. Por consequência, as geradoras podem precisar comprar energia no mercado de curto prazo , para honrar com seus contratos.

No entanto, a compra dessa energia ocorre em um momento em que a mesma tem preços elevados como resultado do acionamento das usinas termelétricas, que, por sua vez, são mais caras, destaca a equipe de análise.

Leia também: Quais ações de elétricas mais perdem e quais mais ganham em meio à crise hídrica?

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Tanto Cesp (CESP6) quanto AES Brasil (AESB3) tiveram uma redução na produção de energia elétrica de 21% e 22% no primeiro trimestre na base anual, respectivamente, devido às diretrizes de despacho praticadas pelo Operador Nacional do Sistema (ONS). “Isso ilustra que o impacto do déficit hídrico já é uma realidade para algumas geradoras, principalmente as localizadas em regiões mais afetadas pela escassez hidrológica”, apontam.

Já em relação às distribuidoras, as companhias são afetadas em um segundo estágio da escassez hídrica, a partir do momento em que há um racionamento de energia, que não é o cenário base da XP. Com o racionamento, os volumes de energia vendidos são reduzidos, o que impacta nas receitas das distribuidoras, a exemplo do que ocorreu em dezembro de 2014.

O segmento menos impactado deverá ser o de transmissão, por suas receitas serem totalmente reguladas, ou seja, tanto tarifas quanto volumes não serem vinculadas à demanda de energia.

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Na TV, ministro pede à população que poupe energia e água

(José Cruz/Agência Brasil)

O ministro de Minas e Energia, Bento Albuquerque, pediu na noite desta segunda-feira, 28, a colaboração da população para economizar energia e água devido à crise hídrica. Em pronunciamento oficial na cadeia de rádio e TV, ele afirmou que é natural que os brasileiros tenham preocupação com a possibilidade de um racionamento, como aconteceu em 2001. O ministro reiterou que o governo está atento e afirmou que o sistema elétrico brasileiro evoluiu nos últimos anos, o que traz “garantia do fornecimento de energia elétrica aos brasileiros.”

Durante o pronunciamento, o ministro citou medidas do governo para enfrentar a situação, incluindo um programa de redução de consumo voluntário para incentivar grandes empresas e indústrias a deslocarem o uso de energia para horários menos disputados. O mecanismo ainda está em elaboração e não há previsão de quando será lançado. Segundo o ministro,o consumo consciente vai reduzir a pressão no sistema elétrico e o custo da energia gerada.

“Essas medidas são essenciais, mas, para aumentar nossa segurança energética, é fundamental que, além dos setores do comércio, de serviços e da indústria, a sociedade brasileira, todo cidadão-consumidor, participe desse esforço, evitando desperdícios no consumo de energia elétrica. Com isso, conseguiremos minimizar os impactos no dia-a-dia da população”, afirmou.

Entre as ações citadas pelo ministro, está a Medida Provisória publicada na noite desta segunda-feira, em edição extra do Diário Oficial da União. Como antecipou o Estadão/Broadcast, o texto cria um grupo que poderá determinar mudanças nas vazões de reservatórios de hidrelétricas e dá poderes excepcionais ao Ministério de Minas e Energia para determinar medidas relacionadas à crise.

O texto publicado hoje sofreu diversas alterações em relação à primeira proposta, também relevada pela Estadão/Broadcast. Após repercussão negativa, o governo decidiu retirar o termo “racionalização compulsória” da MP. Também não há menção à programa de racionamento (corte compulsório no consumo de energia) ou a racionalização (incentivo à economia de energia). Segundo Albuquerque, a intenção da MP é “fortalecer a governança do processo decisório”.

“Além de monitorar o setor elétrico 24 horas por dia, montamos uma estrutura de governança para coordenar, com rapidez e segurança, as ações dos vários órgãos envolvidos no enfrentamento do atual cenário de escassez hidroenergética. Estamos trabalhando, também, em sintonia e permanente diálogo com entidades da sociedade civil organizada, com os Estados e com instituições dos três poderes, para identificar as linhas de ação que melhor atendam aos interesses do País”, disse.

Crises

Albuquerque é o quarto ministro a fazer um pronunciamento em rede nacional. Nos últimos dois anos, os hoje ex-ministros Eduardo Pazuello (Saúde), Abraham Weintraub (Educação) e Ricardo Salles (Meio Ambiente) também ocuparam a cadeia nacional de rádio e TV para falarem sobre a compra de vacinas contra a covid, a realização do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) e o episódio de derramamento de óleo no litoral no Nordeste.

Há 20 anos, quando o governo adotou o racionamento de energia, coube ao ex-presidente Fernando Henrique Cardoso anunciar o início do programa à população. Ele também fez um apelo para que a população reduzisse o consumo em cadeia nacional de rádio e TV.

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“E, para que tudo dê certo, além do trabalho incessante do governo, é preciso que você instrua seus filhos, sua família, incentive seus amigos e tenha uma atitude responsável. Será bom para o Brasil e para você que se crie a mentalidade da conservação, do uso racional da energia e do combate ao desperdício em geral”, disse, na época.

Em outro pronunciamento realizado meses depois, ao anunciar o fim do programa, FHC agradeceu o empenho da população. “Não ficamos dependendo apenas da chegada das chuvas. A ajuda do nosso povo foi fundamental. Ele aderiu ao racionamento de forma decidida. Sem essa ajuda, poderia ter sido muito pior.”

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Ministro Bento Albuquerque volta a negar risco de racionamento de energia em audiência na Câmara

Bento Albuquerque, ministro de Minas e Energia (Foto: Cleia Viana/Câmara dos Deputados)

O ministro de Minas e Energia, Bento Albuquerque, voltou a negar o risco de o País enfrentar um racionamento de energia devido à grave crise hídrica.

Em audiência pública na Comissão de Minas e Energia da Câmara nesta quarta-feira, 23, o ministro disse que o governo não trabalha com essa hipótese, pois os órgãos setoriais monitoram o setor elétrico 24 horas por dia.

A declaração do ministro ocorre após o presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira (Progressistas-AL), voltar atrás e afirmar que a medida provisória que o governo prepara para lidar com a iminência de uma crise energética não irá trazer “qualquer comando relativo ao racionamento”. Pelo Twitter, Lira afirmou que será feito o incentivo ao uso eficiente de energia pelos consumidores de maneira voluntária. Antes dessa correção, Lira havia falado de um “período educativo” de racionamento de energia para evitar crise maior.

A MP citada pelo deputado foi antecipada pelo Broadcast (sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado) no dia 12. A reportagem teve acesso a documentos internos que revelam a intenção do governo de criar um comitê que terá poder de adotar medidas como um “programa de racionalização compulsória” de consumo de energia e a contratação emergencial de termoelétricas – mesmas medidas adotadas em 2001, quando a população e as empresas foram obrigadas a diminuir a carga em 20% para evitar apagão.

Durante sua apresentação, o ministro expôs dados de 2001, quando famílias e indústrias tiveram que reduzir o consumo de energia, e em 2014, quando houve uma crise severa, mas sem racionamento.

Segundo ele, a dependência de usinas hidrelétricas na matriz elétrica diminuiu ao longo desses anos, e o Brasil expandiu a rede de transmissão de energia, o que permite transportar a energia com mais facilidade pelo País e aumenta a segurança.

Entretanto, Albuquerque ressaltou que, se o período úmido desde ano for semelhante ao de 2020 e nenhuma medida for tomada, o Brasil pode chegar a uma condição bastante desfavorável no fim deste ano, com nível dos reservatórios abaixo de 20% de capacidade. “Por isso adotamos medidas para que não percamos controle do sistema, não tenhamos risco de interrupção no fornecimento de energia nos horários de pico de demanda”, afirmou.

Dentre as medidas adotadas, Bento ressaltou a construção de um plano para redução de consumo voluntária de grandes indústrias em alguns momentos do dia, principalmente nos de pico, as restrições no uso de água dos reservatórios, e ações para adiantar obras de empreendimentos de geração e transmissão de energia. “Essas usinas serão importantes para manutenção dos reservatórios e para que cheguemos no final do ano em melhores situações”, disse.

O ministro também citou campanhas de conscientização para uso de água e energia e ações para garantir o suprimento de combustível, para o funcionamento de termelétricas.

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Além disso, ele afirmou que, a partir de janeiro de 2022, deve ser implementado um novo modelo computacional utilizado na operação do sistema. Segundo ele, a medida serve para aumentar o acionamento de usinas térmicas, preservar mais água nos reservatórios e melhorar o sinal de preço para os consumidores.

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Governo não prevê racionamento de energia, diz ministro, que pede economia

(Rovena Rosa/Agência Brasil)

RIO DE JANEIRO (Reuters) – O governo brasileiro não trabalha com hipótese de racionamento de energia em meio à crise hídrica, mas por conta de um maior despacho de eletricidade termelétrica o consumidor pagará mais, disse nesta quinta-feira o ministro de Minas e Energia, Bento Albuquerque.

“Não trabalhamos com a hipótese de racionamento”, declarou ele.

“No momento, em face da escassez hídrica, gerações de energia como térmica e outras vão aumentar o custo ao consumidor…”, acrescentou, citando que o governo tem que despachar eletricidade mais cara para compensar o baixo nível das hidrelétricas.

Ele disse ainda, em entrevista à Globonews, que a capitalização da Eletrobras, cujo projeto está pautado para ser votado nesta quinta-feira no Senado, é importante para que consumidores tenham menores custos.

Embora tenha negado um racionamento de energia, o ministro chamou a atenção para a necessidade de se economizar eletricidade.

“Se sai de um ambiente, desliga a luz. Se pode não ligar o ar condicionado, não ligue o ar condicionado, procure usar a energia em casos extremamente necessários”, destacou.

“Temos todos que ter essa consciência para que não só economizemos no sentido do uso de energia, mas também na conta que vamos pagar no fim do mês.”

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Governo segura MP sobre racionamento até votação da privatização da Eletrobras, diz líder do governo na Câmara

O deputado Ricardo Barros (PP-PR), líder do governo na Câmara, durante sessão em plenário (Foto: Valter Campanato/Agência Brasil)

BRASÍLIA (Reuters) – O governo decidiu esperar a votação da Medida Provisória da privatização da Eletrobras (ELET3;ELET6), marcada no Senado para esta quarta-feira, antes de editar a MP que pode autorizar o racionamento de energia e outras medidas para controle da crise energética, disse o líder do governo na Câmara, Ricardo Barros (PP-PR).

Em entrevista à Reuters nesta quarta-feira, Barros afirmou que, por se tratar de tema correlato, a edição da MP agora poderia influenciar na votação da privatização.

De acordo com fonte ouvida pela Reuters, o governo ainda negocia também os termos da MP do racionamento.

Um dos temas sendo discutidos é a possibilidade de retirar do texto a autorização expressa para que o comitê que tratará da crise energética, também a ser criado pela MP, possa decretar o racionamento compulsório de energia.

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Governo federal prepara Medida Provisória que abre caminho para racionamento de energia

O governo tem nas mãos uma medida provisória que cria condições para adoção de um racionamento de energia. O Estadão/Broadcast teve acesso a documentos internos que revelam a intenção de criar um comitê de crise que terá o poder de adotar medidas como a redução obrigatória do consumo e a contratação emergencial de termoelétricas – mesmas medidas adotadas em 2001, quando a população e as empresas foram obrigadas a diminuir a carga em 20% para evitar o apagão.

Publicamente, sempre que questionado, o ministro de Minas e Energia, Bento Albuquerque, tem negado o risco de um racionamento.

A MP propõe a formação de um grupo que poderá mudar a vazão de hidrelétricas de forma imediata, sem aval de outros órgãos e de Estados e municípios. Os custos das medidas serão pagos pelo consumidor, por meio de taxas na conta de luz. O texto está sendo analisado em meio à pior crise hidrológica que o Brasil viveu nos últimos 91 anos, sem perspectiva de chuvas nos próximos meses.

“Diante do contexto crítico e excepcional que o País vivencia, para garantir a efetividade das deliberações desse colegiado, com a tempestividade necessária, torna-se premente que essas se tornem excepcional e temporariamente determinativas, podendo prever, inclusive, o estabelecimento de programa prioritário de termoeletricidade e de programa de racionalização compulsória do consumo de energia elétrica”, diz a minuta a qual o Estadão/Broadcast teve acesso.

O racionamento de energia vigorou entre 1.º de julho de 2001 e 19 de fevereiro de 2002. Quem não cumpria a meta pagava um adicional na conta de luz que variava de 50% a 200% e podia até mesmo ter a energia cortada como forma de punição. A minuta da MP em análise agora pelo governo não faz referência a incentivos para quem economizar além da meta a ser determinada, como ocorreu no passado, nem define qual seria o alvo.

Com o racionamento, as indústrias também tiveram de reduzir a produção, e o Produto Interno Bruto (PIB), que havia crescido 4,4% em 2000, desacelerou para 1,4% em 2001. Auditoria do Tribunal de Contas da União (TCU) apontou que o apagão de 2001 causou perdas de R$ 45,2 bilhões, pagas em sua maioria pelo consumidor, que teve de arcar com reajustes elevados nos anos seguintes.

O desgaste político e econômico é apontado como uma das causas do fracasso do governo do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso em fazer um sucessor. Nas eleições de 2002, José Serra foi derrotado por Luiz Inácio Lula da Silva.

Pela minuta da MP, as usinas do Programa Prioritário de Termeletricidade, mesmo nome de um programa criado em 2000, deverão ser contratadas em leilões como energia ou reserva de capacidade.

Para adotar essas e outras medidas, o governo vai criar a Câmara de Regras Operacionais Excepcionais para Usinas Hidrelétricas (CARE), grupo que poderá determinar mudanças imediatas na vazão desses empreendimentos.

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A exemplo do que foi feito em situações de escassez hídrica que ocorreram no passado, prejuízos a geradores que tiverem de produzir menos energia para cumprir as determinações impostas pelo governo serão pagos pelo consumidor. Os custos para evitar o apagão serão pagos por meio de uma taxa – Encargos de Serviço do Sistema (ESS) – embutida na conta de luz de todos os consumidores.

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Especialistas falam em risco de apagão energético; veja impactos da crise de energia na Bolsa e na economia

SÃO PAULO – Após o governo emitir um alerta sobre risco hídrico, especialistas não descartam o risco de apagão elétrico no país. E os efeitos da crise de energia para a economia e a Bolsa vão desde a pressão sobre a inflação e a redução da atividade de empresas com uso intensivo de energia, até um PIB mais fraco diante do aumento dos preços e paradas elétricas – além dos riscos políticos.

“É difícil de afirmar se vai ter apagão ou falta de energia [no segundo semestre], mas que o risco está muito alto, não tenha dúvida quanto a isso”, afirma Adriano Pires, fundador e diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE) e um dos maiores especialistas em energia do país.

O especialista afirma que o país deve enfrentar dois problemas centrais no segundo semestre: um possível déficit de potência, que poderia gerar um corte de carga, com risco de cidades enfrentarem cortes de energia pela falta de potência para atender horários de pico de consumo; e um déficit energético, que seria um problema semelhante à crise que provocou o apagão energético de 2001.

“Os bancos estão falando em retomada de 5% da economia neste ano, mas eu acho que eles ainda não perceberam esse risco hídrico e, consequentemente, o risco de faltar energia no segundo semestre. A gente continua com o risco de pandemia, de inflação e agora agregamos aí o risco hídrico. A retomada do crescimento está ficando complicada”, disse Pires, em live do programa Radar InfoMoney (assista no player acima).

O diretor do CBIE afirma que o país já viveu três grandes crises de energia nos últimos anos: a primeira foi em 2001, com racionamento no governo do presidente Fernando Henrique Cardoso, em função de baixo nível de chuvas e da escassez de usinas térmicas. Em 2014, quando o país enfrentou um grave problema de baixo nível de reservatórios hídricos no governo da ex-presidente Dilma Rousseff, mas que foi contornado porque as térmicas foram ligadas a tempo, apesar do efeito de fortes altas nos preços.

E a terceira grande crise citada por Pires seria o momento atual. “Agora em 2021 volta o problema: temos pouca chuva, reservatórios com 30% do nível e se falando em 20% em agosto e menos de 10% em outubro”, afirma. “O governo já deveria desde fevereiro ter ligado todas as usinas que não são hidrelétricas, a bandeira vermelha nível 2 já deveria estar vigorando desde fevereiro e o PLD, o preço da energia vendida no mercado elétrico, já deveria estar no teto porque com preços em alta teríamos um sinal para o consumidor reduzir o consumo e estímulos para despachar o máximo possível de térmicas, preservando o nível de água”, completa.

Efeitos no mercado

Bancos e corretoras já começaram a divulgar análises sobre os efeitos da atual crise energética. O Credit Suisse afirma que as recentes notícias são negativas e destaca que o país deve ter mais despacho térmico, por mais tempo. “A situação começa a se comparar com 2014, com reservatórios do Sudeste mais próximos do nível de 30%, mas com mais capacidade e transmissão”, observa o banco suíço.

A XP destaca que dados do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) mostram que a média de energia armazenada nos reservatórios de hidrelétricas do país chegou ao final de abril com o armazenamento mais baixo para o mês desde 2015. “Os níveis se aproximaram daqueles registrados em 2014, ano de racionamento de consumo de água, e 2001, ano do “apagão’. […] Se esse novo regime persistir, pode ser um limitador ao crescimento potencial do Brasil, dada sua (ainda) grande dependência de energia hídrica”, diz o relatório da XP.

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Na última quinta-feira (27), o ONS já havia manifestado preocupação com o baixo nível dos reservatórios do sistema hidrelétrico que atualmente estão em 32% na região Sudeste. Com isso, o ONS preconizou a redução do despacho obrigatório de reservatórios hidrelétricos para fins ambientais e de irrigação. O objetivo é chegar ao início do novo período chuvoso, em dezembro, com ao menos a capacidade mínima do reservatório (maior do que 10%) para evitar o racionamento de energia.

O Bradesco BBI afirma que o alerta incisivo do ONS sobre os níveis críticos do sistema hídrico em cinco estados (Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso do Sul, São Paulo e Paraná) vem como uma reação a: (i) níveis baixos dos reservatórios hidrelétricos do Brasil, atualmente em 32% da capacidade total na região Sudeste (que responde por 70% da capacidade total do reservatório do Brasil), o que reflete a pior estação chuvosa desde 1931; (ii) possibilidade de que as chuvas de junho a novembro voltem a decepcionar bastante – como referência, em maio, a região Sul (7% da capacidade do reservatório) teve chuvas de apenas 23% da média histórica, drenando recursos (maior despacho hidrelétrico) do Sudeste; e (iii) o fato de a demanda de eletricidade no Brasil ter se recuperado significativamente, atingindo 67 gigawatts (GW), em linha com os níveis pré-COVID em 2019, ante 60 GW em 2020.

Para piorar a situação, o Bradesco BBI também observa que: (i) a tão necessária usina térmica a gás GNA, com capacidade de 1,3 GW de geração em ciclo combinado (cerca de 2,0% do fornecimento) começará a operar em novembro, com um atraso de três meses; e (ii) a manutenção do campo de gás de Mexilhão pela Petrobras (PETR3;PETR4) removerá 3,0 GW (cerca de 4,4% da oferta) da matriz de abastecimento por um mês em agosto.

Os analistas do banco ainda apontam que o Brasil passou por um racionamento oficial em 2001, o que, entre outras coisas, fez com que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso não tivesse seu sucessor eleito na disputa presidencial de 2002.

Pires também afirmou, durante a live do Radar, que o apagão foi um fator crucial para a eleição do ex-presidente Lula em 2002, ressaltando que a falta de energia sempre traz risco político.

“A energia afeta todo mundo, hoje ninguém vive sem tomada. Como você carrega o celular, liga televisão, o ar-condicionado, como as indústrias ligam os equipamentos? Então a energia é um produto que tem um efeito sócio-político gigante em qualquer país do mundo. Então, se houver algum problema de falta de energia vai ser muito complicado para o governo, que já está na pandemia. Sendo dramático, se houver terceira onda da Covid isso pode ajudar a não ter apagão, porque reduz o consumo, mas não é o que a gente quer”, completa.

Apesar do risco de apagão, país tem mais capacidade hoje

O BBI afirma ainda que o país também experimenta chuvas abaixo da média desde 2014, quando, pela primeira vez, tivemos que “aprender o que significava um GSF” (medida de risco hídrico) abaixo de 1, que indica uma produção inferior à sua garantia física, o que obriga as geradoras hidrelétricas a comprarem energia de térmicas, mais caras, no mercado à vista.

Porém, eles ponderam que, em 2015 o risco de racionamento era muito alto, mas no final das contas o racionamento não aconteceu. Portanto, mais uma vez, não se pode supor ainda que ocorrerá um corte oficial no fornecimento. “Enquanto os reservatórios estão baixos, as chuvas estão abaixo da média e a demanda por eletricidade aumentou, tal medida por parte dos reguladores deve ser o último recurso, dado o custo político, ainda mais levando em conta a aproximação das eleições presidenciais no final de 2022”, diz o banco.

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João Leal, economista da Rio Bravo Investimentos, afirma que o racionamento de energia neste ano é um risco grande para o PIB, que deve ser monitorado, mas por ora não acredita que haverá efetivamente um racionamento. “Apesar dos alertas do ONS, acredito que outras razões vão ser tomadas e adotadas para priorizar e garantir o reservatório mínimo pelo menos antes de ser adotado um racionamento”.

O cenário-base do Bradesco BBI, por enquanto, é de que não deve haver nenhum racionamento oficial em 2021, mas sim um GSF ainda menor do que o esperado para 2021 e 2022 e preços à vista (PLD) mais altos, impactando negativamente as centrais hidrelétricas.

Em relação ao GSF, até o início de maio a câmara de compensação do setor CCEE modelava um índice de 0,77 para 2021, mas os analistas do BBI acreditam que ele deveria ser mais baixo, próximo de 0,70 a 0,72. Isso significa que, mantendo-se todas as outras condições, as geradoras terão que comprar entre 5% e  7% adicionais de sua capacidade firme no mercado à vista a preços provavelmente muito altos.

Os preços spot da eletricidade, atualmente em R$ 244/Megawatt-hora (MWh), provavelmente subirão para perto do teto de R$ 580  MWh na maior parte do segundo semestre. Isso porque, para preservar os reservatórios hidrelétricos, o ONS começa a despachar os 19,0 GW completos de geração térmica disponível (atualmente, o despacho térmico está em cerca 14 GW). As geradoras já estão prevendo esse impacto.

“Sabemos, por exemplo, que nesta semana as distribuidoras venderam cerca de 1 GW de capacidade comprada excedente no mercado não regulado, com algumas geradoras pagando entre R$ 450 e R$ 460/ MWh (até três semanas atrás, os preços estavam próximos a R$ 350/ MWh )”, destacam. Além disso, olhando para além deste ano, para 2022, as hidrelétricas também estão começando a fazer compras para mitigar o risco hídrico, pagando cerca de R $ 280 / MWh.

Apesar de ressaltar a dinâmica difícil ao longo do ano, a XP também não vê risco de escassez e racionamento de água (como ocorreu em 2014) ou energia (como em 2001) por ora. “A elevação do custo tende, mesmo que em magnitude pequena – trabalho acadêmico estima elasticidade preço da demanda perto de -0,20 –, a controlar a demanda, reduzindo a pressão sobre os reservatórios. Além disso, o país tem um sistema mais robusto que em 2001, ano do ‘apagão’”, dizem as analistas Tatiana Nogueira e Maira Maldonado, que assinam o relatório.

Se o racionamento chegar a ser acionado, porém, Leal, da Rio Bravo, afirma que a indústria vai ser o principal setor impactado, o que pode provocar um impacto relevante no PIB. “Não somente porque ele é o principal consumidor de energia elétrica, mas também porque os principais estados atingidos por esse racionamento são aqueles que concentram a maior parte da indústria no país. Fazendo um paralelo com 2001, um estudo do Banco Central daquela época que estimou um impacto de 1 a 2 pontos percentuais negativos no PIB. Mas aqui cabe destacar que a gente é bem menos dependente das hidrelétricas do que a gente era lá no início do século”, diz.

Ações impactadas

Para os analistas do BBI, as empresas mais afetadas negativamente neste cenário devem ser: i) Cesp (CESP6), que é totalmente exposta à hidro, ii) AES Brasil (AESB3), mas que tem cerca de 40% do lucro antes juros, impostos, depreciações e amortizações (Ebitda) proveniente da geração eólica, iii) Engie (EGIE3), com 30% da capacidade de geração térmica / eólica , além de ter um negócio de transporte de gás mais transmissão greenfield e iv) concessionárias integradas como Cemig (CMIG4), Copel (CPLE6) e Light (LIGT3). Os vencedores relativos devem ser os geradores Omega (OMGE3), de energia eólica e Eneva (ENEV3), de energia térmica. As ações CESP6 e AESB3 registram baixa, de cerca de 2%, na sessão desta sexta-feira.

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No caso da Eletrobras (ELET3;ELET6), cerca de 50% de sua capacidade total firme é vendida a distribuidoras no sistema de cotas, a tarifas muito baixas, mas que repassa integralmente o risco do GSF aos consumidores finais (sem incluir a receita da compensação financeira “RBSE” de transmissão).

Quanto às distribuidoras, neste cenário, a preocupação é que o despacho térmico maior do que o esperado gerará custos de compra de energia mais elevados. Embora esses custos sejam totalmente repassados ​​aos consumidores finais, as distribuidoras podem enfrentar pressão de capital de giro, tendo que esperar até o próximo ajuste tarifário (em média, com entre seis e doze meses de distância) para repassar / recuperar quaisquer custos mais elevados (tendo que arcar com eles a partir do momento em que o ONS começar o despacho de térmicas).

Notavelmente, em casos anteriores, para mitigar tais problemas de capital de giro, o regulador permitiu revisões tarifárias extraordinárias, destacam os analistas. O outro risco para as distribuidoras é que os consumidores finais veriam tarifas de eletricidade ainda mais altas quando o Brasil ainda não está recuperado totalmente da crise da Covid, o que pode levar ao aumento da inadimplência e perdas de eletricidade em algumas concessões.

O diretor do CBIE ressalta que qualquer problema de falta de energia, seja corte de carga ou racionamento, compromete todo o crescimento da economia, vide o que aconteceu nos anos de 2001 e 2002. “Mas os primeiros afetados em nível de mercado são os setores eletro-intensivos, como mineração, siderurgia e indústrias de forma geral”.

Como solucionar o apagão?

O BBI também destaca quatro possíveis medidas (ou considerações) para evitar o racionamento. Em primeiro lugar, como o ONS sugeriu, uma medida seria suspender a exigência de vazão mínima de água e reduzir o uso de reservatórios de eletricidade por qualquer motivo que não seja a geração de energia. Isso talvez pudesse adicionar entre 200 e 300 pontos-base de capacidade aos reservatórios ao longo do ano.

Em segundo lugar, o governo poderia implementar uma campanha voluntária de economia no consumo de eletricidade. Em casos anteriores, as indústrias foram solicitadas a cooperar, reduzindo o consumo de eletricidade tanto quanto possível, ou concentrando as operações / demanda durante os períodos noturnos nos quais, por exemplo, a geração de energia eólica é maior. Quanto aos consumidores finais, uma campanha de TV / mídia social pode ser uma alternativa, mas deve ter um custo político. Os analistas apontam que, neste cenário, as distribuidoras perderiam fluxo de caixa devido à queda no volume de vendas.

Em terceiro lugar, uma possibilidade seria aumentar as importações de eletricidade da Argentina e do Uruguai. Contudo, isso é incerto por conta dos volumes demandados e também depende de negociações políticas.

Em quarto e último lugar, os analistas apontam mais um desejo do que uma medida possível: esperar por mais chuvas.

“Até agora o patinho feio tem sido a região Sul, com chuvas a 23% da média histórica em maio, mas que historicamente é conhecida por sua alta volatilidade de precipitação (…) Assumindo que as chuvas no Sudeste e no Sul cheguem a 70% da média histórica até novembro, os reservatórios do Sudeste cairiam para níveis ainda aceitáveis ​​de 10% / 14%. No entanto, se as chuvas no Sul chegassem a, digamos, 40% da média histórica (mantendo 70% no Sudeste), os reservatórios do Sudeste cairiam abaixo dos 10% mínimos necessários para manter o controle operacional do sistema”, destacam.

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