Ações do Carrefour fecham em baixa de 5,35% em meio a protestos após assassinato de homem negro em supermercado

SÃO PAULO – Após uma sexta-feira em que fecharam em leve alta, as ações do Carrefour Brasil (CRFB3) registraram expressiva queda nesta segunda-feira (23), em baixa que chegou a ser de cerca de 7,06%, destoando do dia de alta do Ibovespa. Os papéis CRFB3 fecharam em baixa de 5,35%, a R$ 19,30, enquanto o benchmark da bolsa fechou em forte alta de 1,27%, a 107.387 pontos. O volume negociado das ações CRFB3 foi de R$ 454 milhões, ante a média diária de R$ 125 milhões dos últimos 21 pregões.

O movimento ocorre após uma série de protestos durante o fim de semana após o soldador João Alberto Silveira Freitas, negro de 40 anos, ser espancado e morto por seguranças terceirizados em uma das lojas do supermercado Carrefour em Porto Alegre (RS) na última quinta-feira (19). Ele foi enterrado neste sábado.

Um grupo de manifestantes atacou e incendiou uma loja em São Paulo após a 17ª Marcha da Consciência Negra, que pediu justiça pela morte.

Segundo a Brigada Militar do Rio Grande do Sul, o espancamento teria ocorrido após João Alberto ter se desentendido com uma funcionária do Carrefour. Dois suspeitos pelo assassinato foram presos em flagrante, sendo um deles é policial militar. A primeira necropsia indicam que João Alberto morreu por asfixia.

O Carrefour Brasil informou no sábado que as vendas do dia 20 de novembro das lojas Carrefour Hipermercados serão doadas para entidades ligadas à luta pela consciência negra. Em nota à imprensa, a varejista afirmou que o Dia da Consciência Negra, celebrado na véspera em várias cidades do Brasil, deveria ser marcado pela conscientização da inclusão de negros e negras na sociedade, mas “foi o mais triste da história do Carrefour”.

Em um comunicado no horário nobre da TV, o presidente do Grupo Carrefour no Brasil, Noel Prioux, afirmou: “O que aconteceu na loja do Carrefour foi uma tragédia de dimensões incalculáveis, cuja extensão está além da minha compreensão como homem branco e privilegiado que sou. Então, antes de tudo, meus sentimentos à família de João Alberto e meu pedido de desculpas aos nossos clientes, à sociedade e aos nossos colaboradores”. Na sexta, ele havia afirmado no Twitter que haveria uma “revisão completa no treinamento” oferecido pela rede.

No mesmo anúncio, João Senise, vice-presidente de recursos humanos do Carrefour Brasil, afirmou: “O que aconteceu em nossas lojas não representa quem somos e nem os nossos valores. Cinquenta e sete por cento dos nossos colaboradores são negros e negras, e mais de um terço dos gestores se autodeclaram pretos ou pardos. Mas estamos conscientes que precisamos de mais ações concretas e efetivas para o fortalecimento da nossa cultura de diversidade”.

Na sexta-feira, o MPF (Ministério Público Federal) defendeu, por meio de nota, que o Carrefour adote medidas de compliance em toda a rede para combate ao racismo, e que a família de João Alberto Freitas seja indenizada. Veja mais clicando aqui. 

Desempenho das ações

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Na última sexta-feira, apesar dos protestos e da repercussão do caso, enquanto o Ibovespa caiu 0,59%, as ações do Carrefour fecharam em alta de 0,49% na B3, levando a questionamentos sobre se os investidores estão realmente preocupados com a maneira como as empresas agem, ou se apenas os resultados importam.

Para Fabio Alperowitch, gestor de portfólio da FAMA Investimentos, e um dos pioneiros em investimentos ESG, que considera práticas ambientais, sociais e de governança, o episódio reforça que as empresas ainda são reativas neste campo, só mudando práticas após eventos negativos de forte repercussão. “As empresas não estão fazendo porque é ético e moral, mas sim porque é ruim não fazer”, diz. Para ele, o mercado ainda cobra pouco. “Fica visível que a incorporação do discurso aconteceu, mas a prática (do ESG) está longe.”

Cabe ressaltar ainda que os seguranças que espancaram João Alberto Silveira Freitas eram funcionários de uma empresa terceirizada, o que leva a uma zona cinzenta sobre a responsabilidade que a Justiça atribuirá à varejista.

Contudo, mesmo que a Justiça não responsabilize o Carrefour (por envolver funcionários terceirizados), a visão é de que a rede precisa mostrar que seus prestadores de serviço não estão autorizados a agir em contrariedade a seus princípios. “Este é o segundo caso envolvendo segurança de lojas. A companhia, dado o porte, deveria fazer um trabalho melhor de treinamento”, disse Daniela Bretthauer, analista do setor na casa de análises Eleven Financial, à Agência Estado.

Não é a primeira vez que o Carrefour se envolve em episódios trágicos. Em agosto deste ano, um homem morreu enquanto trabalhava em uma loja do mercado em Recife (PE), tendo o seu corpo escondido por guarda-sóis para que o Carrefour não fechasse. Depois do ocorrido, em nota, a rede de supermercados se desculpou e afirmou ter “mudado as orientações aos colaboradores para situações raras como essa — incluindo a obrigatoriedade do fechamento da loja”.

Em 2018, um cachorro foi morto por um segurança da empresa de uma unidade de Osasco, no interior de São Paulo. Em março de 2019, a rede de supermercados teve que pagar R$ 1 milhão como indenização pelo caso, conforme estabelecido pelo Ministério Público de São Paulo (MP-SP).

Na sexta-feira, analista ouvida pelo InfoMoney destacou que os analistas e investidores iriam monitorar a maneira como o Carrefour iria atuar – e também a reação da sociedade. “Se houver uma reação mais organizada da sociedade, levando a um boicote da marca, o efeito nas operações e, consequentemente, nas ações, deve ser maior”, avaliou. Veja mais clicando aqui. 

Os fortes protestos entre a noite de sexta-feira e o fim de semana acabaram servindo como uma resposta, o que leva à reação mais forte das ações nesta sessão.

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Para Alperowitch, a baixa dos papéis ocorre, contudo, não por conta de maior conscientização dos investidores, mas porque os protestos do fim de semana, com algumas lojas destruídas e outras tendo que ser fechadas, afetam faturamento e o lucro.

Segundo o gestor, o tema ESG será considerado aos poucos pelos investidores, mas ainda não é o caso no Brasil: “A longo prazo, sou bem otimista por conta da Geração Z [grupo nascido entre 1996 e 2016]. Mas temos que parar de celebrar que vivemos em um mundo ESG, pois isso não existe de fato”, afirma.

(Com Agência Estado)

Carrefour enfrenta onda de protestos pelo Brasil; executivos se pronunciam, pedem desculpas e prometem medidas

Protestos – Carrefour (Guilherme Gonçalves/FotosPublicas)

Durante o fim de semana, o Brasil contou com uma série de protestos contra o racismo após o soldador João Alberto Silveira Freitas, negro de 40 anos, ser espancado e morto em uma das lojas do supermercado Carrefour (CRFB3) em Porto Alegre (RS) na última quinta-feira (19). Ele foi enterrado neste sábado.

Na avenida Paulista, em São Paulo, um grupo de artistas pintou durante a noite da última sexta-feira a frase ‘Vidas Pretas Importam’ em frente ao Masp. De acordo com um dos artistas, identificado como Pagu, a pintura teve apoio da secretaria municipal de Cultural, da CET (Companhia de Engenharia de Tráfego) e da polícia. Na sexta-feira, uma unidade da rede de supermercados na Rua Pamplona foi depredada e queimada. Também ocorreram protestos em Belo Horizonte.

No mesmo dia, uma unidade da rede de supermercados Carrefour na Barra da Tijuca, na Zona Oeste do Rio fechou após protesto dos manifestantes; os protestos se estenderam durante o fim de semana.

No domingo, ocorreu um protesto pacífico que teve início às 14h em frente ao supermercado Carrefour do Norte Shopping, também na Zona Norte do Rio, saiu pelos corredores do centro comercial e seguiu pela Rua Dom Hélder Câmara, uma das principais da região, por volta de 17h.

O caso fez com que Noel Prioux, presidente do Carrefour no Brasil, publicasse um vídeo com pedido desculpas, apontando que o caso foi “uma tragédia de dimensões incalculáveis”.

“O que aconteceu na loja do Carrefour foi uma tragédia de dimensões incalculáveis, cuja extensão está além da minha compreensão como homem branco e privilegiado que sou. Então, antes de tudo, meus sentimentos à família de João Alberto e meu pedido de desculpas aos nossos clientes, à sociedade e aos nossos colaboradores”, destacou.

O vídeo também contou com a participação de João Senise, vice-presidente de recursos humanos do Carrefour Brasil, afirmando que o ocorrido com João Alberto não tem a ver com os valores da empresa.

“Cinquenta e sete por cento dos nossos colaboradores são negros e negras, e mais de um terço dos gestores se autodeclaram pretos ou pardos. Mas estamos conscientes que precisamos de mais ações concretas e efetivas para o fortalecimento da nossa cultura de diversidade”, disse Senise.

Alexandre Bompard, presidente global do grupo, também se manifestou e disse que vai pedir a revisão de treinamento de funcionários e terceiros “no que diz respeito à segurança, respeito à diversidade e dos valores de respeito e repúdio à intolerância”.

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Ele comunicou que esta revisão será acompanhada de um plano de ação definido por empresas externas para garantir independência no trabalho.

No sábado, no Brasil, o Carrefour divulgou uma nota afirmando que o dia 20 de novembro foi “o mais triste da história” da empresa e anunciando que, todo o resultado das vendas do último dia 20 das lojas Carrefour Hipermercados, será doado para entidades ligadas à luta pela consciência negra.

Abílio Diniz, terceiro maior acionista do Carrefour Global e integrante do conselho de administração da empresa na França, também se manifestou sobre a morte de Freitas, apontando que está “profundamente triste e indignado” e que o que ocorreu “foi uma enorme brutalidade”.

Na sexta-feira, o MPF (Ministério Público Federal) defendeu, por meio de nota, que o Carrefour adote medidas de compliance em toda a rede para combate ao racismo, e que a família de João Alberto Freitas seja indenizada.

Declaração de Bolsonaro

Ainda que não tratando diretamente sobre o tema, em discurso divulgado durante o fim de semana na cúpula do G20, grupo que reúne as 20 maiores economias mundiais, o presidente Jair Bolsonaro disse que “há tentativas de importar” para o Brasil “tensões” raciais que são “alheias à nossa história”.

“Quero fazer uma rápida defesa do caráter nacional brasileiro em face das tentativas de importar para o nosso território tensões alheias à nossa história”, disse Bolsonaro.

Segundo o presidente, “o Brasil tem uma cultura diversa, única entre as nações. Somos um povo miscigenado. Brancos, negros e índios edificaram o corpo e o espírito de um povo rico e maravilhoso. Em uma única família brasileira podemos contemplar uma diversidade maior do que países inteiros”. Para ele, a miscigenação “foi a essência” do brasileiro que “conquistou a simpatia do mundo”. No entanto, “há quem queira destruí-la, e colocar em seu lugar o conflito, o ressentimento, o ódio e a divisão entre raças, sempre mascarados de ‘luta por igualdade’ ou ‘justiça social”.

Bolsonaro ressaltou que “tudo” isso tem sido realizado “em busca de poder” e admitiu que os brasileiros não são perfeitos e tem problemas, mas disse que “existem diversos interesses para que se criem tensões entre nós”. “Um povo unido é um povo soberano. Dividido é vulnerável. E um povo vulnerável pode ser mais facilmente controlado e subjugado. Nossa liberdade é inegociável”, disse o presidente, enfatizando que, “como homem e como presidente”, enxerga a “todos com as mesmas cores: verde e amarelo!”.

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“Não existe uma cor de pele melhor do que as outras. O que existem são homens bons e homens maus; e são as nossas escolhas e valores que determinarão qual dos dois nós seremos. Aqueles que instigam o povo à discórdia, fabricando e promovendo conflitos, atentam não somente contra a nação, mas contra nossa própria história”, acrescentou. O discurso de Bolsonaro não foi transmitido pelo site oficial do G20, mas foi divulgado pelo Palácio do Planalto.

ESG e desempenho da ação do Carrefour

Na última sexta-feira, apesar dos protestos e da repercussão do caso, enquanto o Ibovespa caiu 0,59%, as ações do Carrefour fecharam em alta de 0,49% na B3, levando a questionamentos sobre se os investidores estão realmente preocupados com a maneira como as empresas agem, ou se apenas os resultados importam.

“ESG, no Brasil? Conta outra”, afirmou Fábio Alperowitch, fundador da gestora Fama Investimentos, em sua conta no Twitter. Recentemente, houve um aumento de interesse por investimentos que seguem os critérios ESG (ambientais, sociais e de governança, na sigla em inglês).

“ESG está presente nos materiais de apresentação e para por aí”, completou o gestor (leia o artigo publicado na sexta-feira).

De acordo com uma analista ouvida pelo InfoMoney, analistas e investidores vão monitorar a maneira como o Carrefour atuará a partir de agora e como conduzirá o caso – e também a reação da sociedade.

“Se houver uma reação mais organizada da sociedade, levando a um boicote da marca, o efeito nas operações e, consequentemente, nas ações, deve ser maior”, avalia. Veja mais clicando aqui. 

Não é a primeira vez que o Carrefour se envolve em episódios trágicos. Em agosto deste ano, um homem morreu enquanto trabalhava em uma loja do mercado em Recife (PE), tendo o seu corpo escondido por guarda-sóis para que o Carrefour não fechasse.

Depois do ocorrido, em nota, a rede de supermercados se desculpou e afirmou ter “mudado as orientações aos colaboradores para situações raras como essa — incluindo a obrigatoriedade do fechamento da loja”.

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Em 2018, um cachorro foi morto por um segurança da empresa de uma unidade de Osasco, no interior de São Paulo. Em março de 2019, a rede de supermercados teve que pagar R$ 1 milhão como indenização pelo caso, conforme estabelecido pelo Ministério Público de São Paulo (MP-SP).

(Com Ansa Brasil)

O que explica (ou não explica) a alta das ações do Carrefour hoje

SÃO PAULO – Mais um trágico episódio envolvendo o Carrefour Brasil (CRFB3) ganhou destaque nesta sexta-feira (20). João Alberto Silveira Freitas, um homem negro de 40 anos, foi morto ao ser espancado por seguranças de uma loja da rede de supermercados em Porto Alegre na noite da noite da última quinta-feira (19).

Enquanto o Ibovespa caiu 0,59% hoje, as ações do Carrefour fecharam em alta de 0,49%, levando a questionamentos sobre se os investidores estão realmente preocupados com a maneira como as empresas agem, ou se apenas os resultados importam.

“ESG, no Brasil? Conta outra”, afirmou Fábio Alperowitch, fundador da gestora Fama Investimentos, em sua conta no Twitter. Recentemente, houve um aumento de interesse por investimentos que seguem os critérios ESG (ambientais, sociais e de governança, na sigla em inglês).

“ESG está presente nos materiais de apresentação e para por aí”, completou o gestor (leia o artigo publicado hoje).

De acordo com uma analista ouvida pelo InfoMoney, analistas e investidores vão monitorar a maneira como o Carrefour atuará a partir de agora e como conduzirá o caso – e também a reação da sociedade.

“Se houver uma reação mais organizada da sociedade, levando a um boicote da marca, o efeito nas operações e, consequentemente, nas ações, deve ser maior”, avalia.

Nesta sexta-feira, a empresa informou o fechamento temporário da unidade e o cancelamento do contrato com a Vector Segurança – os funcionários que assassinaram João Alberto eram da empresa terceirizada.

A companhia afirmou em nota que “se sensibiliza com os familiares da vítima e não tolera nenhum tipo de violência” e “iniciou os procedimentos para apuração interna”.

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Ilan Arbetman, analista da Ativa Investimentos e também responsável pela carteira ESG da corretora, destacou para a Bloomberg que os investidores esperam que o Carrefour faça de tudo não só para explicar, mas também para coibir esse tipo de acontecimento.

Em nota, a Oxfam Brasil, organização da sociedade civil, destacou, por sua vez, que a resposta da empresa indicando que vai demitir funcionários e suspender contratos “não é uma resposta que busca uma transformação antirracista da instituição Carrefour. O racismo é estrutural e sistêmico, não se trata do comportamento moralmente condenável de um indivíduo ou outro. Se as instituições não se transformarem, os casos continuarão ocorrendo.”

Não é a primeira vez que o Carrefour se envolve em episódios trágicos. Em agosto deste ano, um homem morreu enquanto trabalhava em uma loja do mercado em Recife (PE), tendo o seu corpo escondido por guarda-sóis para que o Carrefour não fechasse.

Depois do ocorrido, em nota, a rede de supermercados se desculpou e afirmou ter “mudado as orientações aos colaboradores para situações raras como essa — incluindo a obrigatoriedade do fechamento da loja”.

Em 2018, um cachorro foi morto por um segurança da empresa de uma unidade de Osasco, no interior de São Paulo. Em março de 2019, a rede de supermercados teve que pagar R$ 1 milhão como indenização pelo caso, conforme estabelecido pelo Ministério Público de São Paulo (MP-SP).

Leia a nota do Carrefour sobre o episódio na íntegra:

“O Carrefour informa que adotará as medidas cabíveis para responsabilizar os envolvidos neste ato criminoso. Também romperá o contrato com a empresa que responde pelos seguranças que cometeram a agressão. O funcionário que estava no comando da loja no momento do incidente será desligado. Em respeito à vítima, a loja será fechada. Entraremos em contato com a família do senhor João Alberto para dar o suporte necessário.

O Carrefour lamenta profundamente o caso. Ao tomar conhecimento deste inexplicável episódio, iniciamos uma rigorosa apuração interna e, imediatamente, tomamos as providências cabíveis para que os responsáveis sejam punidos legalmente.

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Para nós, nenhum tipo de violência e intolerância é admissível, e não aceitamos que situações como estas aconteçam. Estamos profundamente consternados com tudo que aconteceu e acompanharemos os desdobramentos do caso, oferecendo todo suporte para as autoridades locais”.

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‘É inaceitável termos só 16% de líderes negros’, diz Frederico Trajano

Frederico Trajano (Flávio Santana)

A decisão do Magazine Luiza em colocar apenas negros em seu próximo programa de trainees, conforme noticiado pelo Estadão/Broadcast teve, segundo o presidente da empresa, Frederico Trajano, um componente matemático.

De um lado há o desequilíbrio entre o número de funcionários e o de lideranças negras dentro da empresa. Por outro, ter à frente pessoas que refletem a realidade da população brasileira levará a tomadas de decisão que aumentarão as vendas e gerarão maior valor ao acionista.

“Somos responsáveis por quem selecionamos e promovemos”, diz. “Claramente, se temos 53% da equipe negra e parda e só 16% de negros e pardos em cargos de liderança, há um problema para resolver com uma ação concreta.”

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A decisão de criar um programa de trainees voltado para pessoas negras partiu da empresa ou teve a ver com demandas de investidores?

Definitivamente, não de investidores. Não espere isso tão cedo. Embora exista a pauta de ESG (meio ambiente, sustentabilidade e governança, da sigla em inglês), ainda não chegamos lá. Fizemos uma pesquisa interna.

Eu não sabia, mas 53% da nossa equipe é formada por negros e pardos. Na mesma pesquisa, vimos que apenas 16% dos nossos líderes eram negros e pardos. Isso acendeu um sinal amarelo ou vermelho. Nunca nos posicionamos em relação à pauta racial porque não havia um diagnóstico claro dessa questão.

A partir da pesquisa, vimos que tínhamos uma anomalia, um problema concreto. Somos muito pragmáticos. O caminho mais curto para se chegar à liderança é o programa de trainee.

Porém, nos programas anteriores – e eu sempre entrevisto os finalistas -, a gente sempre tinha só uma pessoa negra ou parda no final. Então, de certa maneira, não estávamos conseguindo atrair e selecionar essas pessoas.

Precisávamos fazer algo diferente. Não é oportunismo. Queremos resolver um problema que sabemos que temos. Estamos sendo honestos em relação à necessidade de mudar uma realidade que nós mesmos criamos. Somos responsáveis por quem selecionamos e promovemos.

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Desde que a notícia do trainee 2021 foi publicada houve forte reação na internet com comentários dizendo que a iniciativa é racista. Leitores ameaçam o Magalu com processos por discriminação racial, com suspensão de compras e eliminação do app. Essa reação estava na conta de vocês?

Sabíamos que essa nossa ação afirmativa iria desencadear discussões. A iniciativa é inédita e somos uma empresa grande, com uma marca de muita visibilidade.

Por intermédio da Lu, nossa influenciadora virtual, nos manifestamos nas redes, de forma contundente, sobre a legalidade do programa e a nossa intenção ao levá-lo adiante: atacar a baixa representatividade negra em nossa liderança.

É inaceitável que apenas 16% dela seja composta por negros. Ao longo dos anos (15 no total), a companhia formou cerca de 250 trainees. Só dez eram negros. Em todos os programas houve enorme dificuldade de atrair talentos negros.

O número de candidatos sempre foi baixíssimo. Por isso a decisão de criar um programa exclusivo. Essa dificuldade de acesso tem sido um problema para uma companhia que acredita que a diversidade aumenta a competitividade, e queremos resolvê-lo.

Qual o benefício para a empresa quando investe em diminuir desigualdades?

Para o Magazine Luiza a diversidade maior nos nossos quadros de liderança vai gerar resultados maiores. Mal ou bem, a nossa base de consumidores reflete a distribuição social e racial do Brasil, que é em mais de 50% formado por negros e pardos. Se não há nas lideranças pessoas com essas características, pode-se estar tomando decisões subótimas sobre sistemas que desenvolvemos, sobre o tipo de marketing. Além de gerar benefício macroeconômico para o Brasil, é nossa responsabilidade gerar valor ao acionista. Se tivéssemos mais representatividade de mulheres e negros – que é nossa questão mais sensível hoje – na liderança, teríamos ações mais efetivas. Isso geraria mais vendas e, em última instância, mais retorno aos acionistas.

O consumidor reage de maneira positiva em relação a essas questões?

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No caso do consumidor, a situação mudou rápido. A pandemia foi um catalisador para a digitalização e para a responsabilidade social. O consumidor sai da pandemia mais digitalizado e cobrando mais responsabilidade social das empresas.

Estamos colhendo frutos de ter tomado decisões que reverberaram muito e não foram só econômicas: como a de não demitir e fazer doações logo no início da pandemia. Essas decisões se converteram em mais vendas no pós pandemia.

Há mudança de mentalidade dos investidores para olhar para essas práticas de ESG?

ESG é pauta apenas de um fundo brasileiro mais ativista e alguns estrangeiros, mas poucos. Tenho centenas de grandes investidores e três ou quatro fazem perguntas específicas sobre esse tema. Ainda assim os estrangeiros têm uma base de preocupação muito mais ambiental do que social. No Brasil há uma questão ambiental muito importante.

Para o Magalu, que é uma varejista, a pauta social deve ser mais relevante. Ninguém nunca me perguntou o que estamos fazendo com esse objetivo. Ainda é muito incipiente. Tem se falado mais. Que bom! Mas não tenho visto decisões práticas de investimento sendo tomadas por indicadores de ESG. Nosso interesse em virar uma empresa B-Corp (certificado de empresas que têm como modelo de negócios o desenvolvimento social e ambiental) veio antes dessa modinha do ESG dos investidores.

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Magazine Luiza é um dos assuntos mais comentados no Twitter

A decisão da Magazine Luiza em colocar apenas negros no próximo programa de trainees, antecipada pelo Broadcast, está entre os assuntos mais comentados do momento no Twitter neste sábado (19).

A decisão da empresa abriu um disputa nas redes sociais entre os que elogiam a medida e aqueles que acusam a Magalu de “racismo reverso” com brancos, usando a hashtag #MagazineLuizaRacista.

Dentre os críticos, estão o vice-líder do governo na Câmara, deputado Carlos Jordy. O deputado afirmou que está entrando com representação no Ministério Público contra a empresa para que seja apurado crime de racismo. O Presidente da Fundação Cultural Palmares, Sérgio Camargo, faz coro às acusações de racismo.

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“Magazine Luiza terá que instituir Tribunal Racial no seu RH para evitar que pardos e brancos consigam fraudar o processo seletivo que é exclusivo para pretos. Portanto, terá que fazer a análise do fenótipo dos candidatos, prática identificada com o nazismo.”

Já a deputada federal Benedita da Silva (PT) compartilhou a matéria do Broadcast/Estadão em sua conta na rede social e destacou que a Magalu tem 53% de pretos e pardos em seu quadro de funcionários, mas apenas 16% deles em cargos de liderança.

Investidores ficam alheios a manifestações no Brasil e no mundo, mas analistas apontam para impactos de longo prazo

(Crédito: Fotos Públicas)

SÃO PAULO – Desde o último dia 25 de maio, primeiro os Estados Unidos e depois o mundo todo estão sendo agitados por uma onda de protestos contra o racismo por conta do assassinato de George Floyd, um homem negro desarmado, pela polícia de Minneapolis.

Já o Brasil viu neste fim de semana um conflito em plena Avenida Paulista, em São Paulo, entre torcidas organizadas que participaram de protestos a favor da democracia e apoiadores do presidente Jair Bolsonaro.

Apesar de ambas as manifestações, o Ibovespa já subiu cerca de 4% nesta semana em meio aos sinais de reabertura econômica pelo mundo, o que leva investidores a se questionarem sobre o quanto os protestos podem afetar o humor do mercado e até mesmo se há, de fato, qualquer influência.

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Segundo Bruno Marques, gestor da XP Asset, por enquanto o mercado brasileiro não foi afetado pelas notícias das manifestações, pois a turbulência política ainda não se traduziu em um efeito econômico relevante. “Se os protestos estivessem impedindo as atividades econômicas eles seriam bem sentidos na Bolsa, mas isso ainda não aconteceu”, afirma.

Rafael Panonko, analista-chefe da Toro Investimentos, avalia que o cenário hoje é bem diferente de 2018, quando a greve dos caminhoneiros derrubou a Bolsa, pois diferente daquele protesto, as manifestações atuais não tiveram ainda um impacto sensível no Produto Interno Bruto (PIB), principalmente os atos ocorridos no Brasil.

“O maior inimigo da economia atualmente continua sendo o coronavírus”, ressalta Marques.

Carlos Daltozo, analista da Eleven Financial Research, concorda que a preocupação número 1 dos investidores ainda é o combate à Covid-19, de modo que um ponto negativo dos protestos é justamente o rompimento de quarentenas, que pode trazer como consequência a proliferação da pandemia.

À Bloomberg, Max Gokhman, responsável por alocação de ativos da Pacific Life, admitiu temer que os “distúrbios não ajudem a curva do coronavírus a se inclinar na direção certa, justo quando parecia haver um momentum a favor da estabilização”.

Vale lembrar que os EUA já estão pondo em prática a flexibilização das regras da quarentena, com reabertura gradual de comércios e indústrias, algo que se reflete no reaquecimento econômico e tem consequências diretas no aumento do apetite por risco nas bolsas internacionais.

Eleições americanas

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Entretanto, isso não quer dizer que as manifestações não tenham qualquer efeito no longo prazo. Bruno Marques explica que o rumo das eleições presidenciais americanas de 2020 pode ser alterado pelos protestos. “Demandas por inclusão social e combate à desigualdade beneficiam o candidato democrata, Joe Biden, que está bem mais conectado com essas pautas do que o atual presidente, Donald Trump.”

O gestor entende que a quarentena evidenciou o abismo entre ricos e pobres ao mostrar quão mais difícil é para as pessoas de renda mais baixa se manterem empregadas e sobreviverem em meio às medidas de isolamento. Portanto, é natural que no longo prazo haja uma discussão mais séria na sociedade sobre desigualdade e inclusão.

“Se houver eleição de um democrata, que consiga ganhar o controle do Senado, os EUA passarão por transformações sociais e políticas relevantes”, destaca.

Por outro lado, Marques aponta que se a opinião pública migrar para um repúdio aos atos de violência, depredação e vandalismo praticados pelos manifestantes mais radicais, isso pode beneficiar Trump, que tem adotado um discurso enérgico contra os protestos.

Na última pesquisa de intenção de voto ABC News/Washington Post, divulgada no domingo, Trump liderava por 51% a 44% nos estados onde venceu em 2016, mas perdia por ampla margem, de 65% contra 32% nos estados em que a candidata Hillary Clinton foi vitoriosa nas últimas eleições.

Brasil

Especificamente no cenário doméstico, Rafael Panonko acredita que o principal fator político a ser monitorado pelos investidores é a relação entre os Três Poderes. “Hoje o governo está se articulando com o Congresso, e isso é benéfico para o País. É algo que tem muito mais peso para o mercado do que as manifestações”, defende.

O analista da Toro diz que é preciso acompanhar o desenrolar das tensões entre a gestão Bolsonaro e o Supremo Tribunal Federal (STF) por causa do inquérito das fake news. “O que tem limitado o fluxo comprador na B3 é essa desunião institucional, que pode gerar retrocessos e grandes prejuízos em termos econômicos caso o Legislativo seja arrastado para a disputa.”

As ruas, historicamente, segundo Panonko, são deixadas em segundo plano pelos grandes players do mercado financeiro.

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Daltozo lamenta que, enquanto a maioria dos países experimenta recuperações econômicas em V, o Brasil esteja paralisado por uma disputa entre Poderes.

O analista pondera, contudo, que a maior preocupação do mercado é com uma possível saída do ministro da Economia, Paulo Guedes, que poderia ser a próxima baixa na debandada ministerial dos últimos meses.

“Desde o início da pandemia sai notícia de que [Guedes] poderia sair do governo, mas o Bolsonaro tem sido assertivo em defendê-lo como o chefe da Economia. Se o Paulo Guedes sair, a dinâmica do mercado mudará completamente”, argumenta.

Por enquanto, os analistas concordam que a trégua política, as medidas de flexibilização da quarentena e o baixo impacto econômico das manifestações estejam segurando o otimismo do investidor. Porém, a corda que mantém o cenário favorável para os investimentos em Bolsa cada vez mais se desgasta, e é preciso estar atento a qualquer sinal de que ela irá se romper.

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