Segunda onda à vista: a pandemia está corretamente precificada no valor das ações?

Painel de ações (Crédito: Shutterstock)

Em tese, o preço de uma ação reflete a capacidade de geração de fluxo de caixa futuro da empresa ao longo do tempo. Ao negociarem uma ação, os investidores antecipam as perspectivas de lucros futuros da companhia, comprando ou vendendo papéis. Grosso modo, se acreditam que uma empresa tenha boa perspectiva de lucros, compram; caso contrário, vendem.

Durante a crise da Covid-19, assistíamos à bolsa brasileira despencar de 119.527 pontos no dia 23 de janeiro de 2020 para 63.569 pontos em 23 de março. Em boa parte, a queda foi explicada pela menor perspectiva de lucro das empresas diante das retrações de consumo e investimentos causadas pelas medidas de contenção contra o novo coronavírus.

No entanto, a partir do dia 23 de março, vimos o preço das ações subirem. Apesar da alta volatilidade, o Ibovespa saiu da casa dos 63 mil pontos e passou a girar em torno de 80 mil até hoje.

PUBLICIDADE

Diante dessa alta, muitos analistas vêm questionando se essa recuperação irá continuar ou apenas é um ilusório Bull Market (falso cenário de alta).

Em tempos de alta volatilidade, é difícil cravar qualquer previsão. No entanto, alguns fatores nos apontam que a tendência é mais de pessimismo do que de melhora dos mercados. Entre esses fatores, podemos elencar a piora fiscal brasileira, o risco político, as incertezas quanto à pandemia e ao tempo de confinamento e a falta de percepção do tamanho do estrago na economia real.

A questão fiscal brasileira já era motivo de preocupação dos mercados mesmo antes da Covid-19. O ambiente era de cautela em relação à situação fiscal, mesmo com a aprovação da reforma da Previdência e respeito ao teto dos gastos públicos. Imagine agora que, por conta das medidas econômicas emergenciais, o déficit fiscal primário poderá chegar a 8% do PIB e a relação entre dívida bruta/PIB em 90% no final de 2020.

Mas não são apenas as medidas emergenciais que irão piorar a questão fiscal no país. O risco político poderá jogar mais gasolina na fogueira, gerando problemas estruturais permanentes nas contas públicas brasileiras.

A fim de manter sua governabilidade, o presidente Jair Bolsonaro tem se aproximado mais do Centrão. O problema é que essa aproximação geralmente significa concessões que invariavelmente se caracterizam em piora fiscal. Prova disso é que, mesmo antes dessa aproximação, parlamentares propuseram, em meio de uma Pandemia, medidas que nada tinham a ver com o combate ao coronavírus, mas com a defesa dos seus interesses eleitorais, oferecendo a grupos específicos benesses estatais pagas pelo contribuinte brasileiro, como por exemplo, aumento de salário dos servidores públicos e do BPC.

Outro ponto de preocupação é o adiamento do isolamento social. Independentemente da eficácia da medida, quanto mais tempo o confinamento demorar, maior será o estrago na economia. A cada dia que as pessoas ficam em casa, aumenta-se a perda dos negócios, do emprego e da renda.

PUBLICIDADE

É difícil ainda mensurar com precisão o tamanho do estrago na economia, até porque as medidas de contenção continuam em curso e não sabemos ainda como evoluirá a Covid-19 nas próximas semanas no país.

Por ora, sabemos que o estrago será grande, tanto no Brasil quanto no resto do mundo. À medida que saírem dados macroeconômicos e de resultados das empresas, teremos uma real dimensão do problema.

Por todos esses fatores, acredito que ainda espaço para mais quedas na bolsa (uma segunda onda) e altas do dólar. Apesar de todos os fatos elencados serem públicos, tenho minhas dúvidas quanto à eficiência do mercado em incorporar essas informações no preço das ações. Não é à toa que importantes gestores estão sentados no caixa ou migrando seus investimentos para a bolsa americana. Por aqui, a situação não é nada animadora. Por enquanto, use máscara, lave bem as mãos e mantenha distância das compras de ativos por impulso.

Siga Alan Ghani (@AlanGhani) no Twitter, Facebook, Instagram e Linkedin

Alan Ghani é economista, PhD em Finanças e professor de pós-graduação.

Quer viver do mercado financeiro ou ter renda extra? Experimente de graça o curso do Wilson Neto, um dos melhores scalpers do Brasil

Ibovespa tem 4ª alta anual seguida ao subir 31%; dólar cai na sessão e vai a R$ 4, mas avança 3,5% em 2019

SÃO PAULO – A sessão desta segunda-feira (30) foi de queda para o Ibovespa, que fechou em baixa de 0,76%, a 115.645 pontos, em um dia sem notícias de grande impacto e de liquidez reduzida (R$ 15,39 bilhões), com os investidores buscando não montarem posição na véspera do ano novo.

Contudo, tanto no fechamento do mês de dezembro (+6,85%) quanto em 2019 (+31,58%), o índice registrou forte ganhos, em meio a um cenário mais favorável para investimento em bolsa com os juros na mínima, reformas estruturantes por aqui e perspectiva de melhora do crescimento da economia brasileira, além de juros baixos também no exterior. Assim, o benchmark da bolsa registrou o quarto ano seguido de alta e na maior valorização desde 2016, quando subiu 38,94%. Em 2017, a alta foi de 26,8% e, em 2018, os ganhos foram de 15%.

O dólar, por sua vez, teve queda de 1% nesta sessão e fechou na casa dos R$ 4, tendo forte baixa de 5,42% no mês, em meio ao ambiente internacional mais favorável ao risco e também com a pressão para a formação da Ptax, referência para os vencimentos dos contratos futuros negociados na B3 na próxima quinta-feira. Porém, no ano, a moeda americana teve valorização de 3,5%, também levando em conta o fato da Selic baixa por aqui ter diminuído a atratividade do capital especulativo estrangeiro para o Brasil.

PUBLICIDADE

Vale destacar que durante o mês de dezembro o real recuperou parte das perdas, também em meio aos indicadores econômicos mais positivos no Brasil, que podem atrair mais capital externo para o País.

Nesta sessão, aliás, ganhou destaque o Focus, com as expectativas de economistas para diversos indicadores da economia brasileira. A mediana das projeções do mercado para o PIB do Brasil teve elevação pela oitava semana seguida  e chegou a 2,30%. Para 2019, houve a quarta revisão seguida para cima, que levou a mediana de projeções para o PIB a 1,17%.

Também no radar econômico, outra notícia gerou relativo ânimo os investidores: as contas do setor público consolidado, que englobam o governo federal, estados, municípios e empresas estatais, registraram um déficit primário de R$ 15,312 bilhões em novembro, segundo informações divulgadas pelo Banco Central. A estimativa mediana de economistas consultados pela Bloomberg era de um déficit maior, de R$ 16,4 bilhões.

Com isso, nesta sessão, os principais contratos de juros futuros registraram queda, de 4 pontos-base para o de vencimento em janeiro de 2021, a 4,54%, e de 8 pontos, a 5,79%, para o contrato com vencimento em janeiro de 2023.

No noticiário internacional, apesar da queda dos ativos nesta sessão em meio a um movimento de realização de lucros após os recordes recentes também na bolsa de Nova York, também houve boas notícias. Estados Unidos e a China provavelmente assinarão a Fase 1 de um novo acordo comercial no início do ano novo, segundo destacou o assessor comercial da Casa Branca Peter Navarro.

Vale destacar que, em Wall Street, o Dow Jones e o Nasdaq registram ganhos acumulados de 23% e 35%, respectivamente. Na Europa, o DAX de Frankfurt registrou 26% e o CAC 40 de Paris 27%.

PUBLICIDADE

Destaque de ações

No mês e no ano, um dos maiores destaques ficou com as ações da Via Varejo (VVAR3). Em dezembro, os ativos subiram 27% e figuraram em primeiro lugar como as maiores altas do mês enquanto que, em 2019, os ativos subiram 155% e perderam apenas do BTG Pactual (BPAC11) e da Qualicorp (QUAL3) como maiores altas do ano.

Apenas seis ações fecharam em queda no ano: Braskem (BRKM5), CVC (CVCB3), Embraer (EMBR3), Smiles (SMLS3), Ultrapar (UGPA3) e Cielo (CIEL3), sendo que só as duas primeiras tiveram queda superior a 10%.

Já na sessão e também no mês, uma das maiores baixas ficou com a B3 (B3SA3), em meio aos temores de maior concorrência no mercado brasileiro. Na véspera do feriado de Natal, a  B3 concluiu acordo com a ATS no processo em que essa pedia acesso à sua central depositária para prestar serviços como plataforma de negociação de renda variável. Já na sexta-feira da semana passada, a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) abriu audiência pública com propostas para o mercado de negociação de valores mobiliários, levando em consideração um possível aumento da competição. A audiência ficará aberta até o dia 28 de fevereiro.

Nesta sessão, quem foi destaque de alta foi a unit do Santander Brasil (SANB11), que subiu cerca de 2% após anunciar pagamento de proventos totalizando R$ 7,8 bilhões.

Confira as altas e baixas do Ibovespa nesta sessão e, logo abaixo, os principais eventos do ano:

Maiores altas

Ativo Variação % Valor (R$)
SANB11 2.10309 49.52
MRFG3 2.04918 9.96
GOAU4 1.97802 9.28
ENBR3 1.70272 22.1
RADL3 1.56477 111.64

Maiores baixas

Ativo Variação % Valor (R$)
VVAR3 -2.86957 11.17
RAIL3 -2.86565 26.1
B3SA3 -2.8048 42.97
YDUQ3 -2.66393 47.5
ABEV3 -2.55741 18.67

Os principais eventos do ano

Posse de Bolsonaro

No dia seguinte à posse do presidente Jair Bolsonaro, o Ibovespa subiu 3,56%, na sua maior variação positiva do ano. Analistas citaram as perspectivas favoráveis para a economia brasileira como responsáveis pelo otimismo no mercado. O principal fiador dessas projeções é o ministro da Economia, Paulo Guedes, cujo perfil liberal destoa da maioria dos últimos ocupantes do cargo.

Tragédia de Brumadinho

As ações da Vale caíram 24% em uma só sessão e fizeram o Ibovespa cair 2,29% em 28 de janeiro após o rompimento da barragem da Mina Córrego do Feijão em Brumadinho (MG). A tragédia, que fez 270 vítimas, levou a uma disparada no preço do minério de ferro, pois parte da produção da Vale ficou paralisada e a companhia é uma das maiores do mundo no setor de mineração, ao lado de Rio Tinto e BHP. Contudo, no ano, os ativos da Vale fecharam com ganhos de cerca de 7%.

Reforma da Previdência

O maior evento do ano na agenda macro foi a aprovação da reforma da Previdência em 22 de outubro. O texto, que estabelece uma idade mínima para aposentadoria de 62 anos para mulheres e 65 anos para homens, deve gerar uma economia de R$ 800 bilhões em dez anos, segundo cálculos do governo. O evento é responsável por boa parte do rali que tomou conta das ações este ano.

Guerra comercial

Em 13 de dezembro, após incontáveis idas e vindas, o acordo comercial entre Estados Unidos e China finalmente saiu. O texto final previu o cancelamento do aumento de 10% para 15% nas tarifas sobre US$ 156 bilhões em produtos chineses que os EUA iriam impor em 15 de dezembro, além de reduzir pela metade outras taxas. Em troca, os chineses se comprometeram a comprar mais produtos agrícolas americanos. Se a reforma da Previdência foi o grande driver local, nada mexeu mais nas bolsas internacionais do que a guerra comercial este ano.

Brexit

Em 24 de maio, a ex-primeira-ministra britânica, Theresa May, renunciou por conta das várias derrotas que sofreu no Parlamento para tentar votar um acordo no Brexit. Seu sucessor, Boris Johnson, foi mais bem sucedido neste ponto. Johnson conseguiu o apoio e a maioria no Legislativo do Reino Unido para alcançar o acordo no último dia 20, e as expectativas ficam por conta do prazo final para se efetivar a saída do país do bloco europeu, no dia 31 de janeiro de 2020. Ao que tudo indica, não haverá Brexit “no deal”.

Selic nas mínimas

O ano começou com a taxa básica de juros em 6,5% ao ano, o que já era a mínima histórica da política monetária do País. Mas não ficou nisso e 2019 terminou com 4,5% de Selic. Com uma previsão no Relatório Focus de que o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) feche o ano em 3,98%, o juro real no Brasil já está próximo de 0,5% ao ano, o que significa que não dá mais para o investidor buscar a renda fixa se quiser tem rendimentos consistentes. O apetite por risco aumentou consideravelmente entre os investidores brasileiros em 2019, o que se reflete no número de CPFs cadastrados na B3, que atingiu 1,5 milhão pela primeira vez este ano.

Seja sócio das melhores empresas da Bolsa: abra uma conta na Clear com taxa ZERO para corretagem de ações!

Campos Neto diz esperar que juros longos caiam com aprovação de reformas

O presidente do Banco Central (BC), Roberto Campos Neto, afirmou em entrevista à GloboNews, que a queda nos juros longos foi maior que na parte curta da curva durante o ciclo atual e que isso abre espaço para um “ciclo virtuoso”.

“O que importa é que a curva toda de juros esteja baixa”, afirmou, ressaltando que o País “não roda na Selic”. “Se tenho juros longos muito altos, é preciso de subsídios. Quanto mais subsídio eu dou, mais fica a impressão no País que o fiscal vai piorar. É um ciclo vicioso. E o que a gente precisa é quebrar este ciclo vicioso.”

De acordo com Campos Neto, os juros baixos são uma confluência de vários fatores, entre os quais a questão fiscal.

PUBLICIDADE

Segundo ele, a reforma da Previdência abriu espaço para uma queda consistente nos juros. “Com o choque fiscal, a curva longa cai e as pessoas começam a realizar projetos”, afirmou.

Selic

O presidente do Banco Central afirmou, ainda, que os membros do Comitê de Política Monetária (Copom) entendem que é necessário analisar o “processo com cautela” para definir os próximos passos da política monetária.

No comunicado que acompanhou a decisão sobre baixar os juros a 4,5% e na ata da reunião do Copom, a palavra cautela já havia sido mencionada.

Campos Neto disse também que o crédito já está tendo impacto na economia e, que, por isso, o Copom precisa analisar.

Cheque especial

Campos Neto, afirmou, ainda, que o cheque especial é um produto que se caracteriza por ser “a exceção da exceção” e que, por isso, houve tarifação dele. De acordo com Campos Neto, há uma “disfunção do produto”, provada inclusive na literatura internacional.

Ele negou, no entanto, que a tarifação e posterior limitação dos juros do cheque especial abriria precedente para outras modalidades de crédito.

PUBLICIDADE

Invista seu 13º com quem conhece do assunto. Abra sua conta na XP – é grátis

Bolsonaro apoia as reformas, mas há um “timing” para agenda, diz Guedes a jornal

Paulo Guedes (Valter Campanato/Agência Brasil)

O ministro da Economia, Paulo Guedes, avaliou em entrevista ao jornal O Globo ter feito a “aposta” certa ao embarcar no projeto do presidente Jair Bolsonaro e que suas “expectativas” estão se confirmando. Segundo Guedes, o presidente o apoiou até agora em todas as suas propostas na área econômica – como a da reforma da Previdência –, mas pontuou que o avanço das demais iniciativas é uma questão “timing” político.

Para Guedes, o Congresso é “reformista” e a governabilidade se formou em torno da agenda econômica. “O que está acontecendo é o seguinte: já existe a nova política. Ela já está acontecendo. Temos um Congresso reformista sem que o governo tenha tomado a frente. Há um clima de total cooperação”, disse.

“Os senadores estão com as equipes acampadas no ministério (da Economia) tratando do pacto federativo. A governabilidade está sendo feita em cima da agenda de reformas”, acrescentou Guedes.

PUBLICIDADE

Especialmente sobre a reforma administrativa, ele afirmou também ter o apoio do presidente, mas que “não quer dar um pretexto” para quebra-quebra nas ruas. “Quando você bota quatro reformas, pelo menos uma começa a fazer bagunça”, disse.

Cheque Especial

Ele também reconheceu que, inicialmente, achou uma “esculhambação” o projeto do Banco Central de limitar juro do cheque especial, mas terminou convencido de que isso não fere preceitos liberais. Segundo ele, o presidente do BC, Roberto Campos Neto, estudou por cinco meses o problema do “descalabro dos juros do cheque especial”.

“É um negócio completamente absurdo. Os juros estavam em torno de 400% ao ano. Quem recorre ao cheque especial é quem não tem dinheiro. A classe média também usa muito, mas o pobre recém-bancarizado é o usuário intensivo”, afirmou.

O ministro reforçou que “sempre advertiu” que não gostaria do tabelamento dos juros. “Qualquer liberal pode, sim, intervir num mercado em que haja alta concentração de poder econômico. Você tem fundamento teórico para intervir. Quando a economia é competitiva, você não precisa se preocupar com exploração do uso”, disse.

Déficit fiscal

Guedes respondeu também sobre a promessa de campanha de zerar o déficit público, o que, segundo ele, “deu tudo errado”, porém ficou no menor patamar em seus anos. “O previsto era R$ 139 bilhões e vai ser R$ 80 bilhões. Então você tem de trabalhar com a meta ousada”, afirmou.

“Tem economista que trabalha diferente: ‘vamos baixar de R$ 139 bilhões pra R$ 122 bilhões e aí você cumpre a meta’. O meu é big, bold target. Todo ano eu vou tentar. Vai ser possível? Não sei. Mas vou tentar. E privatização? Vou vender tudo. Essa é a meta. Tem uma particularmente que pode ser de R$ 250 bilhões”, enfatizou.

PUBLICIDADE

Invista nos melhores fundos com a ajuda da melhor assessoria: abra uma conta gratuita na XP