Reservas em ouro do BC quase dobram em 3 meses

(Pixabay)

Em movimento iniciado em maio, o Banco Central, comandado por Roberto Campos Neto, voltou a comprar ouro para estocar nas reservas internacionais do Brasil. Em julho, o BC adquiriu no mercado o equivalente a 8,5 toneladas do metal. Em três meses, as compras já somaram 62,3 toneladas e fizeram as reservas em ouro quase dobrar.

Os dados sobre as reservas mostram que o BC adquiriu 11,9 toneladas do metal em maio – ou 384 mil onças troy, considerando a medida utilizada internacionalmente. Em junho, foram mais 41,8 toneladas (1,344 milhão de onças troy), um recorde para um único mês considerando a série histórica do BC, iniciada em dezembro de 2000. Em julho, 8,5 toneladas (274 mil onças troy). Em comparação, as 62,3 toneladas compradas nos três meses pesam o mesmo que 16 elefantes asiáticos.

Com as operações, o BC elevou em 92,4% o volume de ouro nas reservas, para 129,7 toneladas. Em dólares, a quantidade de metal subiu 98,5%, para US$ 7,596 bilhões, já considerando a valorização do ativo nos últimos meses.

O movimento chama a atenção porque, de novembro de 2012 a abril deste ano, o BC pouco havia alterado o montante das reservas aplicado em ouro. Nesse período, comandaram a autarquia os economistas Alexandre Tombini, Ilan Goldfajn e o próprio Campos Neto, a partir de 2019.

Seguro

As reservas internacionais, que no fim de julho somavam US$ 355,7 bilhões, funcionam como uma espécie de “seguro” contra crises cambiais. Os recursos são suficientes para cobrir os atuais compromissos do Brasil em dólar e, por isso, o País se coloca hoje como um credor em moeda estrangeira – e não como um devedor.

A maior parte das reservas é formada por títulos conversíveis em dólares e por dólares depositados em bancos centrais de outros países, no Fundo Monetário Internacional (FMI) e no Banco de Compensações Internacionais (BIS). No fim de 2020, essa parcela chegava a US$ 332,0 bilhões, ou 93,4% das reservas. Em comparação, o montante de ouro no fim do ano passado era de US$ 4,101 bilhões, ou 1,2% do total.

Ao comprar 62,3 toneladas do metal nos últimos três meses, o BC elevou para US$ 7,596 bilhões a parcela de ouro nas reservas. O ativo corresponde agora a 2,1% do total.

O porcentual ainda não representa uma grande mudança no perfil de alocação dos recursos, mas marca uma diferença de postura do BC de Campos Neto em relação a seus antecessores.

Com a chegada de Campos Neto ao BC, em 2019, surgiram sinais de que a gestão das reservas internacionais poderia mudar, mesmo que pontualmente. Em maio daquele ano, Campos Neto confirmou a jornalistas que havia uma discussão dentro da autarquia sobre a gestão dos ativos. Na ocasião, o diretor de Política Monetária do BC, Bruno Serra, disse que um dos objetivos era rever a eficiência dos instrumentos de reserva, e não discutir os níveis do seguro.

PUBLICIDADE

Pandemia. No caso específico do ouro, a pandemia afetou de forma substancial as cotações. Em meio à crise, bancos centrais e empresas de todo o mundo foram em busca do metal como ativo de reserva.

Esse aumento de demanda fez a cotação à vista da onça troy na OTC Metals, nos Estados Unidos, subir de US$ 1.515,12 no fim de 2019 para US$ 1.896,49 no encerramento de 2020. O avanço foi de 25,2%. Este ano, com a continuidade da crise, o BC decidiu ir às compras.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Você pode fazer da Bolsa a sua nova fonte de renda. Inscreva-se, participe gratuitamente do maior evento de Trade do Brasil e aprenda como ganhar dinheiro com ações.

BC mantém ‘seguro contra crise’ intacto

(Getty Images)

O Brasil entrará em 2021 com um “seguro contra crises” praticamente igual ao visto no fim do ano passado. Apesar de ter vendido dólares nos últimos meses ao mercado financeiro, para segurar a cotação da moeda americana, o Banco Central manteve o nível das reservas internacionais após os piores momentos da crise provocada pelo novo coronavírus.

Depois de encerrar 2019 com reservas de US$ 356,88 bilhões, a instituição registrava montante de US$ 356,93 bilhões no início de dezembro.

O nível das reservas foi mantido apesar de, no auge da crise, o BC ter feito operações de montantes consideráveis para conter o dólar. Apenas em março, a instituição despejou US$ 10,67 bilhões das reservas internacionais no mercado financeiro. Em abril, foram mais US$ 6,59 bilhões. De março a novembro, o montante total somou US$ 24,24 bilhões.

Os recursos serviram para que os investidores internacionais, preocupados com o andamento da pandemia, pudessem desfazer posições no Brasil e remeter recursos para fora. Na prática, com essas operações, o BC evitou que o dólar subisse ainda mais ante o real, o que poderia provocar um descontrole geral no mercado.

Embora o BC tenha “queimado” US$ 24,24 bilhões de março a novembro, o nível das reservas se manteve próximo do visto no fim do ano passado e pouco abaixo do registrado em fevereiro (US$ 362,46 bilhões), antes do acirramento da pandemia.

Isso é justificado pela composição das reservas. Atualmente, cerca de 90% das reservas internacionais do Brasil são formadas por títulos de outros países – como os Treasuries americanos. Com a crise econômica provocada pelo novo coronavírus, houve valorização desses títulos ao longo dos meses. Na prática, as reservas internacionais do Brasil se sustentaram porque os Treasuries em sua carteira ganharam valor.

“O PU do Treasury subiu muito”, explica José Faria Júnior, diretor da Wagner Investimentos. O PU corresponde ao “preço unitário” e, na prática, representa o valor do título. O PU sempre tem relação inversa com a taxa do título. Assim, quando a taxa de juros do Treasury cai, o preço unitário sobe.

Fatores

O que ocorreu na crise provocada pela covid-19 é que surgiu uma série de fatores que levaram à alta do PU dos Treasuries (queda dos juros). Faria Júnior lembra que, com a crise, os juros básicos americanos recuaram, a inflação caiu e houve maior demanda, por parte dos investidores, por esses títulos, considerados um “porto seguro” em momentos de crise.

O resultado foi que o juro do Treasury de 10 anos – uma das principais referências desse mercado – caiu de 1,1543% no fim de fevereiro para 0,9114% em 15 de dezembro. Isso representa recuo de 21,04% da taxa, com consequente avanço do PU.

PUBLICIDADE

Esse movimento favoreceu as reservas brasileiras. No fim de fevereiro – antes do acirramento da pandemia -, apenas a parcela de títulos das reservas internacionais contabilizava US$ 335,36 bilhões. No fim de abril, esse montante era de US$ 309,48 bilhões, em função das vendas de dólares feitas pelo BC ao mercado. No fim de novembro, o montante de títulos já estava em US$ 317,02 bilhões, em função da valorização dos Treasuries em carteira.

“O ouro também contribuiu para a sustentação das reservas”, cita Faria Júnior. De fato, os dados do BC mostram que, em fevereiro, o Brasil tinha o equivalente a US$ 3,43 bilhões em ouro nas reservas. Com a valorização do metal, em meio à busca dos investidores globais por ativos considerados seguros, o valor das reservas em ouro subiu para US$ 3,84 bilhões no fim de novembro.

Por outro lado, o economista Bruno Lavieri, da 4E Consultoria, afirma que o nível atual das reservas brasileiras pode ser considerado “um pouco inflado”, porque a valorização do preço dos ativos é transitória. “O preço do Treasury vai cair”, alerta. Ainda assim, conforme o economista, a situação das reservas não preocupa, porque o País segue como credor internacional – ou seja, seu nível de reservas está acima da dívida externa.

De fato, os dados mais recentes do BC mostram que, no fim de outubro, a dívida externa bruta somava US$ 307,44 bilhões. Na mesma época, as reservas estavam na casa dos US$ 354,55 bilhões. Mesmo quando as reservas atingiram US$ 339,32 bilhões, em abril deste ano, na esteira das atuações do BC no câmbio, o montante se manteve acima da dívida externa de US$ 321,47 bilhões. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Quer migrar para uma das profissões mais bem remuneradas do país e ter a chance de trabalhar na rede da XP Inc.? Clique aqui e assista à série gratuita Carreira no Mercado Financeiro!

Atuação pontual do BC para conter alta do dólar divide analistas

SÃO PAULO – Apesar de encerrar uma sequência de 12 altas seguidas nesta sexta-feira (6), quando fechou em queda, o dólar comercial ainda acumula uma valorização de 9,33% contra o real em apenas um mês.

Uma depreciação da moeda brasileira era esperada em meio ao cenário de maior aversão ao risco por conta do coronavírus, levando os investidores a buscar ativos mais seguros. Ainda assim, o real se destaca como a pior moeda dos mercados emergentes no ano, ao cair mais de 15%.

Esse movimento causa divergências entre os analistas. Alguns consideram que a alta da divisa americana é exagerada, enquanto outros defendem que é reação natural de um mercado que vive um momento atípico de incerteza exacerbada.

PUBLICIDADE

Enquanto isso, o Banco Central segue atuando apenas de forma pontual, seguindo um discurso feito desde o início do ano de que só iria intervir no mercado quando enxergasse uma problema de liquidez.

Na próxima semana, a autoridade monetária já anunciou leilão de venda à vista de dólar no valor de US$ 1 bilhão.

Mas este posicionamento da autoridade monetária já começa a incomodar analistas e investidores, que aguardam por uma atuação mais forte para tentar conter a desvalorização do real dado que a atual cotação é considerada exagerada.

“Há indícios de que o real, à margem de todos os demais fatores de influência, esteja sob ataque especulativo, e se for o caso, a ação do BC com intervenções com leilões de swaps cambiais tradicionais deveria ser mais contundente e firme”, afirma em relatório Sidnei Nehme, diretor executivo da corretora de câmbio NGO.

Para Nehme, é esperado que o BC dê início à venda de dólares à vista de forma a suprir a demanda, que tem mitigado com oferta de linhas de financiamento em moeda estrangeira. Por outro lado, os bancos já estão com posições vendidas da ordem de US$ 38,0 bilhões, o que, segundo ele, indica que precisarão de oferta de dólares moeda efetiva.

Na mesma linha, José Faria Júnior, diretor da Wagner Investimentos, aponta que um programa de venda de dólares à vista é necessário para acalmar o mercado. Apesar disso, ele ressalta que não pode seguir o mesmo modelo de como foram programas de intervenção anteriores.

PUBLICIDADE

“O BC não pode indicar o volume de vendas e dar um prazo para atuar. Tem que deixar os especuladores com dúvidas. O BC pode até indicar quanto será vendido, mas sem apontar quando fará isso. A surpresa nestas horas é mais eficiente”, afirma o analista.

Mostrando a saída

Por outro lado, alguns analistas entendem que não é recomendável que o Banco Central tenha uma atuação mais agressiva no câmbio.

Bruno Lavieri, sócio da 4E Consultoria, instituição top 5 do Banco Central no ranking de previsões de longo prazo, avalia que, se a autoridade monetária decidisse vender dólares à vista, poderia paradoxalmente aumentar a pressão compradora no curto prazo e até estimular os especuladores a comprarem a briga para saber até onde vai o dólar.

“Não conseguimos entrar na cabeça do investidor que está tirando o dinheiro dele do Brasil”, explica. “O investidor não está sendo muito racional. Muitos poderiam querer sair ao mesmo tempo se o BC oferecesse mais moeda e [o BC] poderia acabar enviando a sinalização equivocada de que há um patamar ideal do câmbio”, diz.

A venda de reservas, na opinião do analista, poderia ter ainda o efeito deletério de diminuir no mercado as expectativas e a confiança de que o governo possui ferramentas poderosas para se defender de um ataque especulativo. Algo que ele não acredita que esteja ocorrendo ainda.

Na avaliação de Lavieri, a abordagem atual é a mais eficaz, pois mostra ao investidor que existe liquidez para sair do real, dando até mais segurança para os investimentos no Brasil. “O que é preciso combater é apenas a volatilidade, não adianta defender patamar do dólar”, argumenta.

Luiz Fernando Figueiredo, CEO da Mauá Capital e ex-diretor de política monetária do BC, vai na mesma linha e diz que as atuações do BC “são efetivas” e buscam manter a normalidade do sistema –  provendo liquidez – e não atenuar o movimento.

“Em momentos como este, em que você tem um choque muito grande, o que o Banco Central tem que fazer é isso: prover liquidez onde ela estiver faltando, seja no câmbio ou onde for. É isso que os bancos centrais estão fazendo”, disse ele em entrevista ao InfoMoney.

Carry trade

Outra preocupação que surge na cabeça dos investidores é acerca do carry trade, uma vez que as apostas estão altas para que o Comitê de Política Monetária (Copom) corte os juros na reunião deste 18 de março.

A operação de carry trade ocorre com a combinação entre fazer uma posição vendida em moeda com taxa de juros mais baixa e outra comprada em moeda com juro mais alto. Além da diferença entre os juros, o investidor também lucra com a variação cambial implícita.

Se o Brasil reduz as taxas de juros, a diferença entre as taxas pagas no país e as pagas nos Estados Unidos (que têm os títulos soberanos mais seguros do mundo) diminuem, prejudicando a operação.

Contudo, Lavieri afasta qualquer preocupação neste sentido, lembrando que o Federal Reserve já reduziu os juros dos EUA em 0,5 ponto percentual este mês e pode fazer isso de novo no dia 18.

“Baixar juros junto com os EUA não deveria ter efeito sobre o carry trade, mas nem sei se esse fenômeno ainda é tão relevante assim, visto que as pessoas estão correndo para o dólar de qualquer jeito”, defende.

Um outro fator que está derrubando o real é o baixo crescimento do PIB brasileiro. Em 2019, a atividade econômica cresceu 1,1% e, para 2020, várias casas de análise vêm cortando projeções para a economia nacional,

Com a Selic baixa e sem crescimento econômico, há baixa atratividade para a entrada de capital estrangeiro no país, impulsionando o dólar.

Sobre esse cenário, aponta o Itaú Unibanco em relatório, há a perspectiva de aceleração do crescimento da economia brasileira na segunda metade do ano, o que deve compensar, pelo menos em parte, o impacto do menor diferencial de juros atraindo capitais para o país e permitindo apreciação da moeda.

O banco tem projeção de um dólar a R$ 4,15 em 2020 e 2021, 10% abaixo do patamar atual. Porém, no curto prazo, avalia que a moeda deva seguir pressionada por conta do elevado nível de incerteza global.

Quer investir melhor o seu dinheiro? Clique aqui e abra a sua conta na XP Investimentos