Dólar a R$ 4,50 ou R$ 5,40 em dezembro? Gestoras e bancos divergem sobre rumo cambial; confira suas alocações

SÃO PAULO – A taxa de câmbio foi criada por Deus apenas para humilhar os economistas. A frase atribuída a Edmar Bacha, um dos idealizadores do Plano Real, dá bem a dimensão da dificuldade que é acertar a projeção para a cotação do dólar ao fim de cada ano, haja vista a grande quantidade de variáveis que afetam sua oscilação.

No mercado local, o desafio para se prever para onde vai a moeda pode ser visto hoje na discrepância em estimativas de bancos e gestoras para a performance do real frente ao dólar, durante o segundo semestre do ano.

De um lado, estão os mais otimistas com o desempenho da divisa brasileira, devido ao aumento da taxa Selic e dos preços das commodities. Eles chegam a prever a cotação do dólar em uma faixa entre R$ 4,50 e R$ 4,75 até o fim de 2021.

É o caso, por exemplo, da gestora Persevera Asset Management e do banco francês BNP Paribas, que enxergam em apostas compradas (que ganham com a alta) no real uma boa estratégia para o investidor carregar hoje nos portfólios. Seja contra o dólar, caso da própria Persevera e da Kairós Capital, ou contra pares emergentes que negociem com um prêmio em relação ao real, como avaliam a Gap Asset e o BNP Paribas.

Já do outro lado, estão os mais pessimistas com o real, que preveem a moeda mais perto de R$ 5,30 a R$ 5,40 em um horizonte de seis a 18 meses, como o UBS BB e o JP Morgan Brasil.

No meio do caminho, a mediana das projeções para o dólar no mais recente relatório Focus, do Banco Central (BC), aponta a cotação da moeda americana a R$ 5,05 no fim de 2021, chegando a R$ 5,20 em dezembro do ano que vem.

Em meio a discussões sobre a reforma tributária no Brasil e as denúncias na CPI da Covid, bem como as preocupações com a inflação nos Estados Unidos, a divisa americana acumula alta de 2,3% em julho, até o dia 14, após a queda de 4,7% de junho, que levou o dólar à vista a escorregar para baixo dos R$ 5.

Blindado fiscalmente

No time dos que apostam em um fortalecimento do real, o aperto monetário em curso pelo Banco Central, que tem gradualmente trazido de volta o interesse do estrangeiro, e a forte alta das commodities, com impacto positivo sobre as contas externas, são os principais pilares que embasam a expectativa para o câmbio.

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Entre os mais otimistas, está Guilherme Abbud, sócio fundador e diretor de investimentos da Persevera. Ele acredita que o dólar tem espaço para tranquilamente testar o patamar de R$ 4,50 nos próximos seis meses, ou até abaixo disso, o que leva o gestor a carregar nos multimercados uma “importante” posição comprada na moeda brasileira. “Vai sobrar dólar”, prevê Abbud.

Segundo o gestor da Persevera, assim como houve um exagero quando a cotação encostou nos R$ 5,80 no primeiro semestre, no movimento de correção, é bem provável que o ponto neutro do câmbio, que o especialista calcula ao redor dos R$ 4,50, também seja furado.

“O mercado é marcado por movimentos de pêndulos, de exageros para um lado, que, algum tempo depois, são compensados para o outro”, afirma Abbud, acrescentando que a expectativa fora do consenso para o câmbio se deve a uma visão também mais positiva que os pares quanto à situação fiscal do país.

A soma das reformas nos últimos anos, além de uma taxa de juros estruturalmente menor, faz com que o Brasil seja mais blindado fiscalmente do que muitas vezes o mercado precifica, afirma Abbud.

André Digiacomo, estrategista de juros e moedas para América Latina do BNP Paribas, também vê espaço para uma apreciação do real, tendo como pano de fundo a alta da taxa Selic acompanhada de uma balança comercial cada vez mais forte.

“Existe uma discrepância entre a velocidade com que melhoraram as contas externas e a velocidade com que a moeda apreciou”, afirma.

Em junho, o BNP Paribas revisou sua estimativa para o câmbio no fim do ano, até então de R$ 4,50 em dezembro, para R$ 4,75. O motivo do reajuste está relacionado aos riscos despertados pelo ambiente global, mais especificamente o eventual início considerado prematuro do aperto monetário pelo Federal Reserve (Fed, o banco central americano).

Na visão de Digiacomo, mais do que uma valorização do real frente ao dólar, que pode vir a surpreender em meio ao debate sobre alta de juros nos Estados Unidos, o maior potencial de ganhos está em posições compradas em moedas de países emergentes exportadores de commodities (como Brasil, Rússia, África do Sul, Colômbia e Malásia), com contrapartes vendidas (que ganham com a queda) em emergentes importadores das matérias-primas, como Tailândia, Taiwan, República Tcheca e Polônia.

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Com o enxugamento da liquidez global no horizonte, mas com uma visão positiva para a moeda brasileira, Renato Junqueira, CIO da Gap Asset, também defende que apostar na valorização do real não contra o dólar, mas ante pares emergentes, se mostra a melhor estratégia hoje no câmbio.

“A descompressão do estresse fiscal, com uma política monetária mais apertada, dá as condições para fazer com que a moeda brasileira devolva um pedaço da performance abaixo da média que teve contra os pares”, afirma Junqueira.

O CIO conta que tem carregado nos multimercados da Gap posições compradas no real contra moedas de países como México, Chile, Colômbia, África do Sul e Austrália, que, pelos cálculos do especialista, ainda estão entre 15% e 20% sobrevalorizadas em relação à divisa brasileira.

Fiscal e eleições

Na ala dos que não se mostram assim tão confiantes com o fortalecimento do real, está o JP Morgan Brasil. O banco prevê o dólar negociado a R$ 5,40 em dezembro.

Durante participação em live do Melhores da Bolsa 2021, Cassiana Fernandez, economista-chefe do JP Morgan Brasil, disse que, conforme se aproximar o fim do ano, a tendência é termos um ambiente mais delicado para os ativos brasileiros por conta do risco fiscal, com os investidores atentos ao debate sobre o Orçamento do ano eleitoral.

A maneira como se dará a utilização do provável aumento de gastos para 2022, ainda que amparado pelo teto, é uma incógnita, destacou Cassiana.

“Sabemos que, se existir espaço para os políticos [aumentarem os gastos] durante o ano eleitoral, esse espaço vai ser usado. E ainda temos uma incerteza grande se [esses recursos] serão utilizados da melhor forma, que aumente a eficiência da economia e o crescimento. Isso não está claro”, afirmou a economista-chefe.

Fabio Ramos, economista do banco de investimento UBS BB, projeta que as oscilações do dólar sigam ainda relativamente comportadas durante o segundo semestre, mas com um aumento da volatilidade a partir de 2022, à medida que o debate eleitoral no Brasil e sobre os juros nos Estados Unidos aumente a aversão ao risco.

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O banco trabalha com uma projeção para o câmbio de R$ 5,00 no fim deste ano, subindo para R$ 5,30 até dezembro de 2022.

Segundo o economista do UBS BB, o valor justo para o dólar apontado pelos modelos matemáticos rodados internamente pela equipe está mais perto dos R$ 4,50, tomando como base as principais variáveis macroeconômicas conhecidas hoje. No entanto, as incertezas que rondam o país sobre as novas variantes do coronavírus, ou sobre os rumos que as eleições podem vir a tomar em 2022, levam a estimativa para níveis mais elevados.

No BNP Paribas, Digiacomo também vê o risco político como um fator que tende a colocar pressão sobre o real, ainda que apenas momentânea.

Embora trabalhe com uma projeção de R$ 4,60 no fim de 2022, a estimativa do BNP Paribas é que a cotação do dólar, influenciada pelo ruído político, chegue a encostar nos R$ 4,90 em meados do terceiro trimestre do ano que vem.

Curto prazo x Longo prazo

Com o início das operações neste ano, a gestora Meraki Capital esteve a maior parte do tempo com uma posição comprada em dólar, isto é, com a aposta no fortalecimento da moeda americana em relação à brasileira.

Dois meses atrás, contudo, a alocação foi desfeita e hoje a casa focada em ações tem optado apenas por posições táticas, em meio a incertezas mais elevadas com o câmbio.

Embora goste da equação comprada em Bolsa e em dólar, Roberto Reis, sócio-fundador e CIO da Meraki Capital, vê a moeda brasileira defasada em relação a divisas de outros mercados emergentes, o que pode abrir espaço de alta no curto prazo.

O problema é que, em um horizonte mais longo de tempo, a gestora ainda vê o dólar próximo a R$ 5,00 como um ótimo patamar para compra. “Nosso crescimento é cíclico, não estrutural. Não consigo ver o investidor muito animado com o Brasil para o médio e o longo prazo, considerando a eleição”, diz Reis.

No caso da Kairós Capital, o sócio e diretor de investimentos, Fabiano Godoi, afirma que, embora também siga com uma visão cética para a evolução do quadro fiscal e eleitoral do país, nos níveis atuais, entende que ainda faz sentido manter uma posição comprada no real, já no portfólio dos multimercados desde o início do ano.

Na avaliação do gestor da Kairós, apesar das incertezas sobre a condução das contas públicas, a moeda brasileira negociada abaixo de R$ 5 parece mais condizente com as condições macroeconômicas do país.

De toda forma, em linha com o gestor da Meraki, Godoi ressalta que a visão favorável para o câmbio se deve mais a uma janela de oportunidade que enxerga para o mercado local, do que a uma evolução estrutural da economia brasileira.

Oposição na Verde Asset

As incertezas em relação aos rumos do dólar são tantas, que não se restringem apenas às divergências entre diferentes casas.

Luiz Parreiras, gestor dos fundos multimercado de previdência da Verde Asset, disse durante live da gestora ao fim de junho que ele e Luis Stuhlberger têm divergido quanto à tendência esperada para o câmbio.

Enquanto Stuhlberger vê espaço para um fortalecimento da moeda brasileira, Parreiras entende que existem fatores importantes que agem na direção contrária.

Entre eles, o fato de a poupança do brasileiro ainda estar quase toda investida no mercado doméstico. Com os juros em níveis estruturalmente mais baixos no país, a tendência, prevê o gestor, é que o fluxo de capital em busca de melhores retornos além-mar impeça uma apreciação significativa do real.

“Assumindo que o Brasil consiga manter taxas de juros reais e nominais relativamente controladas, o processo de diversificação para o exterior vai manter o real talvez estruturalmente mais barato até do que  a experiência dos últimos 20 anos, onde historicamente o real esteve sempre um pouco caro”, disse Parreiras.

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BNP Paribas vê dólar a R$ 4,50 no 2º trimestre de 2022 com commodities e juros mais altos

(Getty Images)

SÃO PAULO, 29 Jun (Reuters) – O dólar cairá para 4,50 reais ao fim do segundo trimestre de 2022, depois de fechar 2021 em 4,75 reais, de acordo com Gustavo Arruda, chefe de pesquisa para a América Latina do BNP Paribas, que cita o ajuste na política monetária brasileira como um dos fatores de suporte ao real.

A última vez que a cotação oscilou em torno de 4,50 reais foi no começo de março de 2020, às vésperas do mercado global sofrer um sacolejo com o início da crise da pandemia de Covid-19.

“Com a política monetária voltando a se ajustar, a ter um pouco mais de equilíbrio, a gente acha que o câmbio tem chances, tem espaço para se valorizar”, afirmou Arruda, citando ainda o benefício derivado também dos preços valorizados das commodities.

Ele ressalvou, no entanto, que o caminho não deve ser linear. A expectativa dele é que o dólar feche 2022 em 4,60 reais.

“Isso não quer dizer que isso (a queda do dólar) não vem sem volatilidade. A gente sabe que é ano de eleição no Brasil (2022). Então esse cenário está sujeito a muita volatilidade devido ao ambiente político.”

Ainda assim, o cenário do BNP indica valorização cambial ante os patamares atuais. O dólar à vista BRBY era cotado em torno de 4,93 reais nesta terça-feira.

O juro básico no Brasil subiu da mínima histórica de 2% que vigorou até março para 4,25%, e analistas de mercado veem a taxa chegando a pelo menos 6% ao fim do ano. Juros mais altos aumentam a atratividade do real por elevarem o retorno de ativos que operam diferencial de taxas.

Arruda calcula uma meta Selic de 7,5% já no início do ano que vem, com altas ininterruptas da taxa até lá –o que deixaria o Brasil com juros nominais bem acima dos de vários pares emergentes.

O BC tem subido os juros desde março ao ritmo de 0,75 ponto percentual. Mas, apesar da sinalização mais dura emitida recentemente pela autarquia e dos números mais elevados de inflação, Arruda não vê intensificação da velocidade no ajuste monetário.

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“Como o ciclo está próximo do fim, não faria muito sentido aumentar mais uma de 100 pontos-base agora, a não ser que ele (BC) procurasse fazer mais uma ou duas ou três de 100 (pontos-base)”, disse.

“Mas não faria muito sentido, porque se for para fazer uma de 100 pontos-base para depois desacelerar para 75 pontos-base é melhor manter o passo de 75 pontos-base daqui para a frente, na nossa opinião.”

Sobre inflação, o BNP calcula que a taxa fechará este ano em 6,5% para depois desacelerar a 4,5% no acumulado de 2022. Ambos os números estão acima das respectivas metas: ​3,75% e 3,50%.

“Tem muito risco envolvido aqui: para onde vai o câmbio, para onde vai a bandeira tarifária… Se a bandeira tarifária fechar este ano na 2 e mudar para amarela no ano que vem, então tem desaceleração considerável de inflação.”

Os preços no curto prazo serão bastante impactados pela energia elétrica em meio à crise hídrica, afirmou o economista, que por ora vê desdobramentos maiores das preocupações com energia apenas no lado da inflação.

“Tem mais impacto na inflação do que para a atividade. Só começa a gerar dúvidas (sobre a atividade) se for muito pior do que o cenário desenhado por especialistas.”

O BNP projeta que a economia brasileira crescerá 5,5% em 2021 (após retração de 4,1% em 2020) e expandirá 3,0% em 2022.

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BNP vê investidor mais seletivo para títulos de risco da América Latina

Gráfico de ações (Crédito: Shutterstock)

(Bloomberg) — Empresas latino-americanas de maior risco terão mais dificuldade em acessar mercados de dívida internacionais no segundo semestre, pois o ritmo de emissão de títulos deve diminuir após a onda de ofertas nos últimos meses, segundo o diretor de mercado de capitais de dívida para a região do BNP Paribas.

Governos e corporações venderam US$ 84 bilhões em dívida no mercado externo no primeiro semestre, um aumento de 55% em relação aos primeiros seis meses de 2019, disse André Silva, que coordena emissões de dívida da América Latina para o banco francês. Embora ainda haja muito apetite por novas emissões, Silva acredita que os investidores se tornarão mais seletivos no segundo semestre, criando obstáculos para a venda de títulos de créditos mais arriscados.

Segundo ele, para nomes corporativos puros de alto rendimento que acessam o mercado, o custo será maior e as ofertas serão mais difíceis de executar.

A Braskem vai testar o piso do mercado para empresas classificadas como junk com sua próxima emissão de títulos. A Fitch disse que a petroquímica planeja uma emissão de títulos híbridos.

O estímulo injetado por bancos centrais ajudou a normalizar os mercados depois do congelamento para emissores latino-americanos em março. Ao mesmo tempo, governos abandonaram metas fiscais e empresas suspenderam os planos para reduzir índices de alavancagem, levando a um aumento das ofertas de dívida, mesmo depois que a região se tornou epicentro global da Covid-19.

Silva disse que houve um cabo de guerra entre o vírus e os bancos centrais. Ele acha difícil fazer uma previsão, mas, em sua opinião, por enquanto os bancos centrais “estão vencendo”.

O BNP participou de várias ofertas, incluindo a emissão de US$ 3,25 bilhões em títulos da Petrobras em maio, a oferta de US$ 800 milhões da mineradora Codelco em abril e a venda de US$ 500 milhões da Colombia Telecomunicaciones no início deste mês. O banco também participou de emissões soberanas do México, Chile e República Dominicana, segundo dados compilados pela Bloomberg.

Silva disse que, embora a maioria dos governos da região já tenha acessado os mercados para financiar custos relacionados à pandemia, pode haver uma nova rodada de vendas de títulos soberanos no segundo semestre, pois a Covid-19 continua avançando.

Países como Brasil, Colômbia, República Dominicana e Bolívia avaliam levantar mais capital, disse Silva.

Mesmo países considerados muito bem financiados consideram acessar os mercados, afirmou.

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