Câmara chama Vale para explicar ganho com usina soterrada em Mariana

Em reunião realizada nessa terça-feira, 13, o colegiado da Comissão de Minas e Energia (CME) da Câmara aprovou, por unanimidade, um requerimento de audiência pública para que a mineradora Vale explique os ganhos que tem recebido desde 2015 com sua hidrelétrica Risoleta Neves, em Minas Gerais, apesar de a usina ter sido inviabilizada pelo desastre causado pela Samarco, da própria Vale (VALE3).

O pedido para audiência pública se baseou em reportagem publicada pelo Estadão no dia 7 de abril, a qual demonstrou que a Vale já recebeu cerca de R$ 500 milhões desde novembro de 2015, quando houve a catástrofe, apesar de sua usina não gerar nenhum watt de energia elétrica.

“O setor elétrico é cheio de assombrações. Foge à compreensão do homem comum entender como é que uma usina que não gera mais nada continua a receber, mesmo sem prestar serviço”, diz o deputado Edio Lopes (PL-RR), autor do requerimento. “Faremos tudo o que for possível para estancarmos esses pagamentos. E vou mais distante ainda. Pelo menos na parte de todos os consumidores do Brasil, a Vale terá de ressarcir esse dinheiro. Não daremos trégua até resolvermos isso.

A audiência pública prevê a participação de representantes da Vale e da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel). A previsão inicial é de que o encontro aconteça no dia 4 de maio, data que ainda deve ser confirmada pela comissão.

Hoje a situação sobre o pagamento pela energia inexistente da hidrelétrica Risoleta Neves é alvo de um processo judicial que está em andamento no Superior Tribunal de Justiça (STJ). A hidrelétrica Risoleta Neves pertence ao consórcio Candonga, do qual a Vale é dona de 77,5% e a Cemig, de 22,5%. A usina parou de funcionar em novembro de 2015, quando a Samarco protagonizou uma das maiores tragédias ambientais do planeta. A hidrelétrica ficava no caminho da barragem do Fundão, que rompeu e causou a morte de 19 pessoas, com o lançamento de milhares de toneladas de rejeito de minério de ferro sobre a floresta e o Rio Doce. A lama varreu 40 municípios, até chegar ao Atlântico, no litoral do Espírito Santo.

A paralisação total da hidrelétrica levou a Aneel a pedir a suspensão dos pagamentos para a usina Risoleta Neves, já que esta não poderia gerar mais energia. A Vale, no entanto, não só recorreu do processo administrativo da agência, como entrou na Justiça e conseguiu uma decisão que mantém, até hoje, o pagamento ao consórcio Candonga, para que continue a receber normalmente, por meio de repasses feitos por um mecanismo contábil do setor elétrico que é compartilhado por todas as hidrelétricas do País.

Na prática, todas as usinas pagam as mensalidades para a usina Risoleta Neves, um custo que, depois, é gradativamente repassado aos consumidores de energia do Brasil, por meio da conta de luz. Os dados da Aneel apontam que a situação já gerou um prejuízo direto ao consumidor superior a R$ 100 milhões.

A reportagem questionou a Vale e a Samarco sobre o assunto. O posicionamento da companhia, da qual a Vale é sócia, é que a Samarco não iria comentar.

Em dezembro do ano passado, a Aneel deu prazo de seis meses para a retomada da usina Risoleta Neves, que entrou em um processo de caducidade da concessão. A usina ficava instalada nos municípios de Santa Cruz do Escalvado e Rio Doce, com capacidade de 140 megawatts. A hidrelétrica, que entrou em operação em 2004 com o nome de usina Candonga, foi rebatizada em 2005, quando passou a se chamar Risoleta Neves, em homenagem a Risoleta Guimarães Tolentino Neves (1917-2003), esposa do ex-presidente Tancredo Neves (1910-1985).

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Com minas paradas e usinas vendo “abundância eterna”, preço baixo do urânio é insustentável

(Crédito: Pixabay)

Semana passada conversei com Mark Gordon, CIO do Ascent Oil Fund, um fundo de investimentos focado no setor de energia, mais especificamente, petróleo, no podcast da L2 Capital (episódio disponível aqui). A conversa foi excelente, muito educativa e uma parte, que Mark defende, foi marcante para mim: a influência da mudança do sentimento do mercado, de abundância para escassez.

Mark salienta que o mercado passa por períodos em que o sentimento é de escassez de petróleo e qualquer notícia torna-se relevante para fazer o preço subir. Da mesma forma, quando o sentimento é de abundância, como é agora, há pouco investimento no setor, o que gera um déficit futuro e fomenta o próximo bull market.

Estive pensando sobre esse conceito de escassez e abundância e acredito que podemos traçar o mesmo paralelo para várias commodities (ou para a maior parte das coisas), começando pelo urânio.

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Há no momento um sentimento de abundância no mercado que já perdura há anos. Uma parte desse sentimento se deve à parte do ciclo que estamos vivenciando no momento. As utilities, acostumadas a pagar menos pelo urânio hoje do que pagaram ontem, sofrem de um viés comportamental conhecido como “recency bias” e acreditam que esse movimento é duradouro e sustentável.

Assim, como na visão delas existe um excesso de  urânio no  mercado, ainda  que os números mostrem exatamente o contrário, elas se tornam cada vez mais complacentes e adiam as compras por contrato, preferindo usar o mercado spot (à vista) e traders para suprir suas necessidades mais imediatas (até 2 anos).

Com isso, o preço do urânio, que ainda está na casa dos US$25/libra, não dá nenhum incentivo a mineradoras para desenvolver novos projetos ou mesmo aumentar a produção.

Na verdade, esse nível de preço sequer encoraja a continuidade da produção existente, de sorte que várias empresas já optaram por fechar minas, inclusive a de McArthur River, a maior e mais concentrada do mundo, por exemplo.

Além de reduzir a capacidade atual, isso faz com que, quando a retomada aconteça, e acredito piamente que ela vá acontecer num futuro próximo, o preço do urânio possa sofrer um overshooting.

A demanda já é maior que a oferta há dois anos consecutivos e é certo que também será em 2020. Aliás, é certo que a demanda será maior que a oferta por muito mais tempo, já que não se retoma a atividade de uma mina parada em menos de dois anos e para começar um projeto de mineração desde o começo, leva-se pelo menos uns 8-10 anos.

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Obviamente, para isso acontecer, o preço do metal deve estar bem acima de onde está hoje, para prover incentivo suficiente às mineradoras.

Assim, a hora de se investir é quando há um sentimento de abundância no mercado e os compradores estão complacentes, achando que o passado recente se repetirá no futuro, a despeito dos avisos. Estamos vendo hoje talvez o período na história de maior apelo ao investimento em urânio, com produção em queda, demanda em alta e preços de venda abaixo do custo de produção.

Leia também: como investir em urânio morando no Brasil?

Disclaimer: Esse texto reflete a opinião do autor e não constitui uma sugestão, recomendação, indicação e/ou aconselhamento de investimento. Nenhuma decisão de investimento deve ser tomada com base nas informações ora apresentadas, cabendo unicamente ao investidor a responsabilidade sobre qualquer decisão que venha a tomar.

O autor detém e negocia ativos ligados ao tema abordado em sua carteira proprietária e/ou na de clientes sob sua gestão remunerada.