Dona da Riachuelo fica mais perto de transformação na B3 e ação sobe – mas outras iniciativas estão no radar

SÃO PAULO – Algo bastante esperado pelo mercado para destravar o valor para as ações da companhia, a Guararapes (GUAR3), dona da Riachuelo, anunciou em fato relevante na noite da última segunda-feira que o seu Conselho de Administração aprovou o início do processo para sua migração para o Novo Mercado, maior nível de governança da B3. As ações reagiram e, apesar de uma forte queda do Ibovespa nesta terça-feira, de 1,40%, os papéis GUAR3 subiram 3,87%, a R$ 15,57.

A aprovação inclui o início de negociações entre a administração da empresa e a B3, o que implicará em requisitos adicionais de governança corporativa a serem adotados pela Guararapes, como a apresentação de novos estatutos. Depois de concluído o processo, a diretoria realizará nova reunião para deliberar sobre a aceitação interna desses requisitos antes da migração.

O Itaú BBA aponta que a notícia é positiva, uma vez que a migração para o Novo Mercado pode desbloquear valor para o caso de investimento da Guararapes, dadas as expectativas de que isso irá melhorar a governança corporativa e aumentar a liquidez para as suas ações.

A migração para o Novo Mercado exige que todas as companhias abertas tenham um free float (ações que uma empresa destina à livre negociação no mercado) de 25%, enquanto o free float atual do GUAR3 é de 17,3% – o restante está nas mãos da família controladora.

“Dito isso, embora esperássemos esse movimento da administração, o anúncio foi feito antes do previsto”, avaliam os analistas do BBA.

Vale destacar que, no final de setembro, a ação GUAR3 registrou forte queda com o fundo do Itaú Fênix Ações vendendo 10,8 milhões de papéis (equivalente a 12,2% do free float) com uma nova estratégia de estar menos exposto a nomes menos líquidos, conforme destacou o Brazil Journal em reportagem. Com a ida ao Novo Mercado, a expectativa é de que as ações registrem maior liquidez.

O percentual do free float é bem abaixo de outras companhias, como a Lojas Renner (LREN3), o que também se reflete do valor dos papéis na Bolsa.  Enquanto as ações da Guararapes são negociadas a um múltiplo de 10,31 a relação preço/lucro, as ações da Renner são negociadas a um múltiplo de 27,62 vezes. Em 27 de outubro, a Guararapes valia R$ 7,48 bilhões na bolsa e a Renner tinha um valor de mercado de R$ 32,77 bilhões.

A ida ao Novo Mercado era um projeto antigo de Flávio Rocha, atual presidente do conselho de administração da Guararapes, mas ainda esbarrava na resistência de seu pai, o lendário Nevaldo Rocha, que faleceu em junho passado.

Em entrevista recente ao canal Neofeed, Flávio Rocha tinha dados sinais de que a companhia poderia buscar novos níveis de governança. “Não há motivos para ficarmos fora do Novo Mercado. É o caminho natural da empresa”, afirmou.

Longo caminho

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Porém, esse pode ser o primeiro – mas importante – passo de um longo caminho para a companhia ganhar mais visibilidade na B3 e pelo menos aproximar os seus múltiplos frente a Lojas Renner.

Um assunto que vez ou outra sempre acaba por voltar à tona no mercado é a possível venda de ativos que pode destravar para a companhia, como é o caso do Midway Mall, além de imóveis de 50 lojas próprias, o que deve acontecer em algum momento, segundo aponta Rodrigo Glatt, sócio da GTI.

Glatt ainda ressalta que, após o primeiro passo com o estudo para a entrada no Novo Mercado, a oferta de ações por parte dos controladores para a companhia atingir o nível de exigência para a entrada no Novo Mercado ainda deve demorar para acontecer, uma vez que a empresa deve esperar que a ação reflita melhor os seus fundamentos.

Apesar da alta desta sessão, os papéis ainda registram queda de 34,37% no acumulado de 2020, em um ano em que o varejo de vestuário foi bastante impactado por conta das restrições à abertura de lojas por conta da pandemia do novo coronavírus.

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Contudo, neste ponto, Glatt ressalta que a companhia está em um caminho de crescimento no online e de mudança no seu segmento financeiro através da criação de contas digitais, ponto este que será monitorado atentamente pelos investidores.

Em meados de outubro, o Itaú BBA havia reforçado em relatório que a companhia estava em um momento transformacional ao ressaltar que os ajustes na gestão de estoques e no modelo de aprovação de crédito deveriam render frutos neste ano, mas que foram postergados para 2021 em meio à pandemia.

“Novos formatos de loja, como Casa Riachuelo e Carter’s, e a transformação da Midway Financeira podem levar a um viés de alta para nossas estimativas”, apontaram os analistas Thiago Macruz, Helena Villares, Emerson Vieira e Gabriel Simões em relatório do último dia 16. Eles possuem recomendação outperform (desempenho acima da média do mercado) para os ativos GUAR3, com preço-alvo de R$ 31, o que representa um potencial de valorização de 99,10% em relação ao fechamento da ação nesta terça.

No fim de setembro a Midway Financeira recebeu a aprovação, pelo Departamento de Organização do Sistema Financeiro do Banco Central (BC), para prestar serviços de pagamento relativos à modalidade emissor de moeda eletrônica. Com isso, apontou a dona da Riachuelo, o objetivo é transformar a Midway em uma “grande plataforma digital de serviços financeiros”. O emissor de moeda eletrônica é um tipo de instituição que gerencia conta de pagamento do tipo pré-paga, na qual os recursos devem ser depositados previamente.

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Em julho, a empresa havia informado que iria solicitar ao BC a autorização para oferecer contas digitais através de uma estrutura mais ágil e focada no cliente.

Para 2021, os analistas do Itaú BBA possuem expectativa de que a Midway Financeira entregue as melhorias em resultados operacionais em 2021, visto que os desafios de 2020 obrigaram a empresa a investir em melhorias em seu modelo de scorecard e aprovação de crédito, fortalecendo ainda mais seu modelo de negócios.

Resultados no radar

Em meio à expectativa pelos próximos passos para a entrada da varejista do Novo Mercado, um novo catalisador de curto prazo e que pode dar mais indicações sobre os rumos e iniciativas da companhia além da governança corporativa será a divulgação dos resultados do terceiro trimestre, no próximo dia 11 de novembro.

Na avaliação do Bradesco BBI, no geral, esse deve ser mais um trimestre difícil para o varejo de moda, mas com as sinalizações das companhias de que “há uma luz no fim do túnel” com as tendências de fortes quedas nas vendas se revertendo entre os meses de agosto e setembro depois de um mês de julho bastante difícil com as lojas ainda fechadas e liquidação dos estoques de inverno.

A expectativa do BBI, que possui recomendação neutra para as ações GUAR3, é que a companhia registre um prejuízo de R$ 19 milhões no terceiro trimestre, revertendo o lucro de R$ 55 milhões do mesmo período de 2019, mas bem inferior ao prejuízo de R$ 296,2 milhões no segundo trimestre deste ano.

Vale destacar que, no segundo trimestre, no auge das medidas de restrição à mobilidade urbana por conta do coronavírus, a companhia já havia reforçado a sua estratégia de multicanalidade e viu sua receita online crescer quase cinco vezes – passando de R$ 30 milhões no primeiro trimestre para R$ 140 milhões no segundo.

Se os resultados de varejistas de vestuário já seriam acompanhados de perto pelos investidores pelos sinais de como se dará a recuperação, o da Guararapes ainda tem outro elemento em meio às transformações pelas quais ela está passando. Assim, além do resultado do dia 11 após o fechamento, a teleconferência no dia 12 com os executivos da companhia também serão acompanhados de perto pelos já investidores – e por possíveis novos investidores – da Guararapes.

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Nevaldo Rocha, dono das lojas Riachuelo, morre aos 92 anos

Nevaldo Rocha (Foto: Canindé Soares)

SÃO PAULO – Nevaldo Rocha, dono e presidente do Grupo Guararapes (GUAR3), faleceu aos 92 anos na noite desta quarta-feira (17), em sua residência em Natal (RN). A causa da morte ainda não foi revelada.

Nevaldo fundou a companhia, controladora da Riachuelo, ao lado do seu irmão Newton Rocha, em 1947.

“Nascido na cidade de Caraúbas (RN) teve uma infância humilde no sertão nordestino. A sua trajetória como empreendedor é marcada por ousadia e superação desde cedo. Com apenas 12 anos, ele partiu para Natal em busca de trabalho e assim juntou capital para começar sua primeira loja de roupas”, destacou a Guararapes em comunicado ao mercado.

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Com o falecimento de Nevaldo Rocha, “o Grupo Guararapes perde um grande líder e conselheiro, que serviu de exemplo e inspiração por seus valores, como honestidade, simplicidade, foco, transparência e meritocracia. E o Brasil perde um entusiasta do empreendedorismo, que defendia o papel social da iniciativa privada para a construção de um país melhor e mais justo, com trabalho e educação de qualidade para todos”, complementa a nota da companhia.

Nevaldo Rocha era viúvo e deixa três filhos: Flávio Rocha – atual presidente do conselho de administração do Grupo Guararapes -, Lisiane Rocha e Élvio Rocha, além de netos e bisnetos.

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Por que a Renner decepcionou mesmo os analistas pessimistas com seu resultado – e o que esperar para o futuro

SÃO PAULO – O impacto do isolamento social nas vendas de roupas em tempos de pandemia de coronavírus já era esperado. Ainda assim, o resultado das Lojas Renner (LREN3) no primeiro trimestre deste ano conseguiu decepcionar os analistas e acendeu uma luz de alerta para o futuro da companhia.

A Renner reportou um lucro líquido de R$ 10,4 milhões nos três primeiros meses de 2020, o que representa uma retração de 94% em comparação com o mesmo período do ano passado. O lucro antes de juros, impostos, depreciações e amortizações (Ebitda, na sigla em inglês) despencou 65% para R$ 110,9 milhões e a receita caiu 6%, para R$ 1,55 bilhão.

De acordo com os analistas Victor Saragiotto e Pedro Pinto, do Credit Suisse, os resultados da varejista foram derrubados pelas circunstâncias do cenário atual, que contribuíram para uma queda de 10,7% nas vendas em mesmas lojas com perdas em crédito crescendo 175%.

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“A performance das Lojas Renner deve ser prejudicada pelo tempo que durar a pandemia, já que [a quarentena] se traduz em menos tráfego nas lojas e menor disposição dos consumidores em comprar bens discricionários”, escrevem os analistas em relatório.

Na opinião da equipe do banco, apesar das perspectivas serem positivas para a empresa no longo prazo e a execução de projetos seja historicamente exemplar, a relação risco/retorno no curto prazo não é boa.

“Nós tememos uma prolongada ‘ressaca’ no consumo enquanto os pilares da demanda estiverem enfraquecidos graças a uma taxa de desemprego mais elevada e uma confiança do consumidor em baixa”, aponta o Credit.

A recomendação do Credit Suisse para as ações das Lojas Renner é neutra, com preço-alvo de R$ 55,00 em 12 meses, o que corresponde a uma valorização de 34,9% sobre a cotação de fechamento dos papéis LREN3 no pregão de ontem (21).

Os analistas Gustavo Piras Oliveira, Gabriela Katayama e Rodrigo Alcântara, do UBS, têm uma visão parecida sobre o resultado da Renner no primeiro trimestre. Na avaliação deles, menos de um mês de impacto de Covid-19 revelou um poder devastador maior que o esperado.

“A administração não teve tempo de ajustar sua base de Opex [capital empregado para melhorar ou garantir a manutenção dos bens físicos da empresa], o que resultou em uma contração da margem Ebitda [obtida por meio da divisão do Ebitda de uma companhia pela receita líquida dela] de 742 pontos-base, para 5,8%”, analisa a equipe do banco.

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A recomendação do UBS para as ações das Lojas Renner também é neutra, com preço-alvo de R$ 40,00 para cada papel em 12 meses, o que significaria uma desvalorização de 1,89% nos preços das LREN3.

Nem tudo é tragédia

A XP Investimentos, por outro lado, tem uma visão mais otimista para a companhia. O analista Pedro Fagundes afirma que apesar da perspectiva de curto prazo ser desafiadora a empresa ainda tem boas condições de ganhar participação de mercado no médio prazo.

Não obstante a queda de vendas em mesmas lojas ter sido maior que a projetada pela XP, que esperava -9,4% na base anual, o desempenho foi afetado principalmente pelo fechamento de todas as lojas físicas a partir da segunda quinzena de março, sendo que o ritmo de crescimento até o dia 13 de março era semelhante ao do quarto trimestre de 2019 (+6,2% na base anual).

Além disso, embora a margem Ebitda tenha despencado 7,1 pontos percentuais em meio a um aumento de 12,2% nas despesas operacionais em relação ao primeiro trimestre de 2019, isso deve, na opinião do analista, ser corrigido no futuro pelas medidas de redução de despesas implementadas pela Renner a partir de abril.

Outro ponto citado pela XP é que a varejista reforçou seu caixa de maneira relevante nos últimos dois meses, com R$ 1,8 bilhão em emissões de novas linhas de crédito a taxas atrativas no cenário atual (em torno de CDI + 3%).

“Dessa forma, acreditamos que a Renner terá fôlego não só para atravessar o período mais crítico da crise, mas também para continuar investindo nas alavancas de crescimento corretas (e-commerce/multicanalidade) e fortalecendo os seus diferenciais competitivos (relacionamento próximo com fornecedores e clientes, operação de serviços financeiros e sistema de abastecimento push-and-pull)”, aponta Fagundes.

O analista ressalva que para ter certeza de que o cenário irá se concretizar é preciso que o investidor acompanhe a evolução dos resultados da companhia ao longo da retomada gradual das atividades. Também é importante ficar de olho nos indicadores de consumo ao longo dos próximos meses, como desemprego, renda e confiança do consumidor.

A XP tem recomendação de compra para Renner, com preço-alvo de R$ 50,00 por ação ao final de 2020, um upside de 22,64%.

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Na mesma linha, o analista Richard Cathcart, do Bradesco BBI, ressalta que o Ebitda dos serviços financeiros só caiu 80% devido ao aumento das provisões da Renner por conta de uma visão mais cautelosa da administração da companhia em relação ao contexto econômico.

Cathcart notou ainda que agora 18% das lojas estão abertas e o comércio eletrônico está crescendo mais rápido do que no período pré-crise. Apesar disso, ele ressalva que mesmo que o e-commerce atinja mais consumidores durante a quarentena ainda é um negócio relativamente pequeno, então não tem potencial para ofuscar o impacto nos fechamentos de lojas físicas.

O veredicto do analista do Bradesco BBI é que os números ruins não devem deixar os investidores tão preocupados, uma vez que a Renner é claramente uma das empresas mais bem equipadas “navegar nas águas turvas adiante”.

A recomendação do Bradesco BBI para as ações das Lojas Renner é outperform (desempenho acima da média do mercado) com preço-alvo de R$ 45,00, o que representa uma valorização de 10,38% sobre o fechamento da véspera.

Concorrentes: o caso Riachuelo

Ontem, a Guararapes (GUAR3), controladora da Riachuelo, também divulgou seu resultado do primeiro trimestre de 2020, mostrando prejuízo líquido ficou em R$ 47,5 milhões, ante lucro de R$ 29,3 milhões apurados entre janeiro e março de 2019.

O Ebitda recuou 46,4%, para R$ 101,1 milhões, e a margem passou de 18% no primeiro trimestre do ano passado para 10% no primeiro três meses de 2020.

Richard Cathcart, do Bradesco BBI, argumenta que as vendas em mesmas lojas estavam fortes (crescimento de 12,1% em janeiro e de 12,8% em fevereiro) antes do fechamento dos pontos físicos por conta da quarentena, o que demonstra que a Riachuelo conseguiu resolver seus problemas de distribuição que impactaram negativamente os resultados do segundo semestre de 2018 e do segundo semestre de 2019.

Todavia, o isolamento social atingiu em cheio a operação da empresa, fazendo as vendas em mesmas lojas desabarem 38,4% em março. Além disso, os lucros de serviços financeiros caíram 47%, para R$ 67 milhões, bem abaixo da projeção do analista, que era de uma contração a R$ 90 milhões.

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A recomendação das ações da Guararapes pelo Bradesco BBI é neutra com preço-alvo de R$ 12,00 por papel, o que representa uma queda de 4% sobre a cotação de fechamento da véspera, que foi R$ 12,50.

Por fim, os analistas Thiago Macruz, Helena Villares, Emerson Vieira e Gabriel Simões, do Itaú BBA, apontaram que o resultado foi levemente negativo, com uma queda de 71% do Ebitda causada especialmente pelo braço financeiro das operações da empresa, a Midway Financeira.

Isso ocorreu por causa do aumento de 10% na base anual das provisões para devedores duvidosos, o que reverteu a melhora observada nesta métrica no quarto trimestre de 2019.

“O lado positivo foi a sólida melhora de 180 pontos-base na comparação anual da margem bruta do varejo. Isso ocorreu apesar do mix de vendas mais fraco e dos efeitos da Covid-19, refletindo ajustes de estoques e uma coleção mais assertiva no caminho certo”, destaca a equipe do BBA.

A recomendação do Itaú BBA para as ações GUAR3 é outperform com preço-alvo de R$ 31,00, o que significaria uma valorização de 148% em relação ao fechamento da véspera.

Tanto as ações das Lojas Renner quanto as da Guararapes caíram forte nessa sessão. Os papéis LREN3 recuaram 8,34%, a R$ 37,37, e as ações GUAR3 registraram perdas de 6%, a R$ 11,75.

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