A carteira de investimentos do jardim de infância

Na semana passada, comecei a ler um livro que foi eleito uma das melhores obras sobre negócios de 2018 pela Bloomberg e pelo Library Journal.

Você se engana se acredita que vou falar sobre mais um livro totalmente focado em investimentos, um livro do Nassim Taleb, do Howard Marks ou até mesmo do Ray Dalio. Não.

Desta vez, o assunto é bem mais leve.

Como líder da equipe de Renda Fixa na Spiti, procurei me aprofundar um pouco mais no tema de gestão de equipes com uma das obras mais conceituadas até então em formar uma cultura forte em um time.

O livro em questão chama-se Equipes Brilhantes, do jornalista e editor Daniel Coyle. Nele, o autor busca entender como grandes equipes de sucesso trabalham e como elas formam sua cultura – este, do ponto de vista dele, é o principal fator na hora de verificar as equipes e empresas que mais prosperaram no mercado norte-americano.

O fator interessante é que ele vai muito além das empresas e acompanha a trajetória, ao longo de vários anos, de um time de basquete, uma unidade militar especial, uma escola pública da periferia, um time de comediantes e, acredite ou não, até mesmo de uma gangue de ladrões de joias.

Coyle conclui que o sucesso de cada uma dessas unidades está muito mais ligado à cultura da equipe do que necessariamente à soma das habilidades técnicas de seus indivíduos.

Em um de seus experimentos para verificar o poder de uma cultura forte para o desenvolvimento de uma tarefa por um determinado time, o autor separa alguns grupos formados por pessoas de perfis muito distintos e lhes fornece os mesmos materiais para a execução de uma simples tarefa: construir a maior torre de macarrão possível.

Para a execução dessa tarefa, cada equipe tem direito aos mesmos materiais:

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– 20 unidades de espaguete (cru, obviamente);
– 1 metro de fita adesiva;
– 1 metro de barbante;
– 1 marshmallow.

A única regra do exercício era que o marshmallow deveria ficar no topo da estrutura.

Mas o experimento não era em si o fator mais interessante. O fato é que as equipes eram formadas por grupos de alunos de pós-graduação em administração, advogados, CEOs de empresas e, pasmem, crianças do jardim de infância.

Se eu pedisse que você chutasse quais as estruturas foram as mais altas, em média, provavelmente você apostaria em qualquer grupo, exceto o grupo de crianças do jardim de infância.

Mas o fato é que as estruturas construídas pelas crianças atingiram, em média, uma altura de 66 centímetros. Enquanto isso, as torres dos estudantes de pós-graduação não conseguiram atingiram uma altura média maior que 25 centímetros.

Além dos estudantes da pós, as crianças deixaram para trás os advogados, com uma altura média de 38 centímetros, e até mesmo os CEOs de empresas, com 55 centímetros.

Parece inacreditável, não é? Mas, acredite, é verdade. Além disso, estamos aqui falando de médias, ou seja, os experimentos não foram feitos uma única vez nem somente por um único grupo de cada uma das “categorias”, o que significa que as crianças realmente foram muito melhores em resolver esse problema complexo, sem qualquer conhecimento de matemática ou de engenharia e sem qualquer experiência de trabalho em grupo.

Aqui eu me desculpo com você, porque eu não vou te contar a razão pela qual o autor acredita que as crianças têm um desempenho melhor do que o muitos adultos ditos “mais qualificados” – você vai precisar ler o livro, e, acredite, você vai me agradecer.

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Mas o fato é que o experimento me lembrou de uma outra atividade que, do meu ponto de vista, as crianças tendem a desempenhar melhor, e, tenho certeza, você vai ficar ainda mais surpreso ou surpresa.

Crianças e jovens adolescentes podem montar carteiras de investimentos mais eficientes do que advogados, alunos na pós-graduação e até mesmo CEOs. Duvida?

Bom, aqui eu me refiro a um ponto muito específico; uma carteira eficiente, como diria o dicionário, é uma carteira que se caracteriza pelo poder de produzir um efeito real. Ou seja, uma carteira real criada por uma criança pode ter um poder de trazer um resultado maior do que uma carteira criada por profissionais.

E isso pelo simples fato de que a carteira de uma criança, ou de um adolescente, tem o maior dos fatores ao seu favor: o tempo.

Quanto maior o tempo disponível para uma carteira de investimentos render, maiores são os seus resultados no longo prazo.

Para te provar isso, fiz o seguinte exercício: se crianças escolhessem ações, títulos de renda fixa e fundos imobiliários presentes nos principais índices de cada segmento no mercado brasileiro, elas poderiam alcançar uma rentabilidade média de 8% ao ano.

E não estou exagerando. Hoje, um título público prefixado de longo prazo paga um retorno bem próximo a esse. É de se esperar que as ações e fundos imobiliários presentes nos principais índices brasileiros, como Ibovespa e Ifix, apresentem retorno semelhante no longo prazo.

Se essas crianças – vamos supor que tenham 10 anos – escolherem aleatoriamente esses ativos e quiserem se aposentar com 50 anos, elas terão um prazo de 40 anos para ver o seu dinheirinho ir crescendo.

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Do outro lado estou eu: especialista em investimentos, dez anos de mercado financeiro, gestão de fundos de renda fixa, multimercados e carteiras de investimentos de grandes gestoras brasileiras.

Vamos supor que, no longo prazo, eu consiga uma rentabilidade média anual de 20% ao ano. Ou seja, muito superior ao dobro do que a carteira aleatória das crianças. Porém, eu tenho 30 anos e quero me aposentar com 50 anos: portanto, tenho apenas mais 20 anos para que meu dinheiro continue crescendo.

Se considerarmos valores iguais de aportes, a carteira das crianças entregará um retorno mais do que 30% superior à minha carteira, e isso porque o tempo que o dinheiro fica investido pesa muito, muito mesmo nas suas decisões de investimento.

Eu disse tudo isso e citei todos esses estudos para que você entenda a importância de começar a investir o quanto antes, não importa se não investiu quando tinha 10, 20 ou 30 anos. O importante é que você comece agora, pois o tempo é o seu maior aliado.

Claro que, diferentemente do estudo realizado por Daniel Coyle, não estamos colocando os investidores, as crianças e os especialistas com as mesmas condições de tempo e material – mas esse é justamente o meu ponto.

Ao contrário dos analistas especialistas, você pode possuir algo tão importante quanto seu conhecimento: o tempo.

Não precisa necessariamente entender muito de investimentos, nem escolher os melhores entre os melhores investimentos. Isso porque, no fim das contas, um dos fatores mais importantes para que o seu dinheiro renda é o tempo. Quanto antes você começar, mais forte vai ser o efeito dele sobre seu patrimônio investido.

Por isso hoje eu dou o nome à carteira dos que começam investir cedo, sem grandes e geniais análises, mas também evitando grandes riscos, de “a Carteira do Jardim de Infância”.

Ela pode não te surpreender agora, mas com certeza, no longo prazo, pode fazer frente às posições de economistas, advogados e até de grandes gestores de investimento.

Um abraço,
Gui Cadonhotto

Value ou Growth: as duas principais estratégias de quem investe em ações

Durante toda a minha vida, minha irmã e eu tínhamos gostos muito parecidos em relação a praticamente tudo.

Eram os mesmos gostos tanto para as roupas, sapatos, bolsas, quanto para filmes, videogames, shows e artistas. Mas, como eu disse ali em cima, praticamente tudo não significa tudo.

Algumas coisas obviamente não batiam, como por exemplo sabor preferido de sorvete. E o dela não fazia o menor sentido na minha cabeça. Ela amava tudo que envolvia chocolate (bolo, brigadeiro, doces, barras de chocolate), mas o sorvete ela não tomava de jeito nenhum. Ela preferia qualquer outro sabor.

Para mim, aquilo era totalmente irracional. Mas, para ela, o gosto do sorvete de chocolate não agradava. E esse item diferente já nos levou a altas discussões sobre o que era melhor. E, obviamente, foram discussões inúteis que não nos levaram a lugar algum.

Da mesma forma, ao longo da minha vida profissional, sempre presenciei inúmeras discussões e debates de gestores sobre duas famosas estratégias de investimento em ações: valor (value) ou crescimento (growth), qual é a melhor? Qual faz mais sentido na sua carteira?

Para iniciar o debate, primeiro vou explicar o que são esses dois conceitos.

A começar pela estratégia de crescimento (growth): essa filosofia de investimento envolve concentrar esforços em buscar companhias que possuem forte potencial de crescimento, tanto em termos de tamanho das operações da empresa quanto em termos de significância no setor em que atuam. Ou seja, o foco aqui é no que a empresa pode se tornar, e não no que ela é hoje.

Em geral, são companhias que atuam em mercados crescentes, com demandas cada vez maiores de seus produtos e serviços, mas que ainda não mostraram resultados consistentes ou consolidados. Por essa razão, não espere dividendos dessas empresas – e, provavelmente, vai haver uma maior volatilidade de suas ações.

E quando olhamos múltiplos como EV/Ebitda ou Preço/Lucro, elas podem parecer “caras” ou dar entender que os múltiplos estão “esticados”. Nessas características, podemos encaixar aqui os setores ligados, por exemplo, à tecnologia, e-commerce, saúde ou qualquer outro em franca expansão e desenvolvimento.

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Já para a tese de investimentos em valor (value), as características são outras. Investidores dessa filosofia acreditam que vão maximizar seus retornos ao encontrar empresas que estão valendo menos do que o seu valor intrínseco. Ou seja, por alguma assimetria do mercado, as empresas estão com preço abaixo do seu valor justo.

E, em geral, são companhias já consolidadas no mercado em que atuam, possuem menor volatilidade quando comparada às ações de crescimento; não é esperada uma taxa de crescimento exponencial das suas operações, e sim que a cotação de suas ações convirja com seu valor justo (encontrado por meio de modelos de precificação, como o fluxo de caixa descontado, por exemplo).

Adicionalmente, você vai encontrar companhias que possuem múltiplos como Preço/Lucro, Preço/Valor Patrimonial e EV/Ebitda mais baixos que seus pares, o que pode caracterizar “desconto” ou que a empresa está “barata”.

Nessa categoria de valor, em geral encaixamos setores que são considerados “tradicionais” ou da “velha economia”, ou ainda de setores cíclicos, como bancos, petrolíferas, mineradoras, siderúrgicas, dentre outras.

E, afinal, qual é a melhor filosofia de investimento? Eu acredito que o ideal é ter um pouquinho dos dois mundos.

Para a minha irmã, quando surgiram essas sorveterias italianas que colocam pedaços de brownie no meio do sorvete, foi o ápice. Como ela amava o doce, ao unir o melhor dos dois mundos, acredito que conseguimos chegar a um consenso de que realmente aquela combinação era dos deuses!

E, para melhor balancear e diversificar uma carteira de investimentos, acredito que um pouco das duas filosofias é o mundo ideal. E, como prova disso, temos um dos maiores gestores de fundos de ações do mundo que comprovou essa teoria: Peter Lynch.

Durante a gestão por 13 anos do Magellan Fund da gestora Fidelity Investments, Lynch teve um retorno médio anualizado de 29,2% ao ano, performando melhor que o índice S&P 500 em quase todas as janelas de comparação.

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Mas o que ele fazia? Ele juntava os princípios das duas filosofias de investimentos em sua carteira através do índice PEG Ratio. Esse índice utiliza o múltiplo Preço/Lucro ajustado por uma taxa de crescimento esperada da empresa.

Para o resultado de PEG Ratio maior que 1, segundo Peter Lynch, o investimento nessa ação deveria ser desconsiderado, dado que o potencial de crescimento da companhia já estaria incorporado no preço das ações. Para um PEG Ratio menor que 1, são companhias que devem ser consideradas, já que o crescimento destas está subavaliado pelo mercado.

Ações de valor e de crescimento possuem dinâmicas diferentes.

Focar excessivamente na filosofia de valor pode fazer com que você perca oportunidades nas empresas de crescimento. Focar muito nas empresas de crescimento pode trazer frustrações se você pagar muito caro e o crescimento não vier.

Então, por que não aproveitar a combinação dos dois mundos? Ter ambas as filosofias em sua carteira de investimentos pode te proporcionar equilíbrio e diversificação. E pode te render bons frutos. Peter Lynch é uma das provas de que a união dos dois mundos pode dar muito certo – e o sorvete de chocolate com brownie também.

Abraços,
Aline Tavares

Investindo em ações: entenda qual é a diferença entre dividendos e juros sobre capital próprio

celular ações investidor compra venda home broker (Getty Images)

SÃO PAULO – Que o mercado financeiro brasileiro tem vivido uma verdadeira reviravolta nos últimos meses não é novidade. Com a queda intensa na taxa básica de juros, a Selic, levada ao seu menor patamar histórico em 2%, os investidores brasileiros têm realizado uma migração em massa para a bolsa, em busca de investimentos mais lucrativos do que a poupança.

Neste cenário, entender mais sobre as propriedades dos produtos de investimento é crucial para quem está chegando agora na renda variável. Quem investe em ações, por exemplo, pode ver seu patrimônio aumentar de duas maneiras: a primeira e mais conhecida, é por meio da valorização dos ativos, enquanto a segunda se dá através da distribuição de parte do lucro das empresas de capital aberto. Para saber mais sobre como montar uma carteira de investimentos na prática, clique aqui.

Esses lucros são distribuídos de acordo com a quantidade de ações que cada investidor possui e podem vir por meio de dividendos ou de juros sobre capital próprio. Para te ajudar a entender um pouco mais sobre cada um desses métodos, conversamos com Leandro Rassier, especialista em administração financeira e investimentos, que explicou com detalhes a diferença e as vantagens e desvantagens de cada um. Confira:

O que são dividendos?

Como já dito, dividendo é o nome dado a uma das formas de distribuição de lucro das empresas listadas na bolsa entre seus acionistas. Essa remuneração é feita em dinheiro e anunciada pelo Conselho de Administração com datas específicas de pagamento.

“Esse pagamento é feito de forma proporcional, ou seja, quanto mais ações da empresa você tiver, mais dividendos você vai receber periodicamente”, explica Rassier.

Segundo o especialista, uma das vantagens deste modelo de distribuidor é que o investidor pessoa física não precisar pagar imposto sobre o valor recebido. “Se trata de um resultado positivo líquido sobre o valor do lucro, ou seja, o investidor já recebe o valor descontado dos tributos”, afirma.

E quanto aos juros sobre capital próprio?

Já os juros sobre capital próprio são uma outra forma de remuneração do acionista, bastante utilizada por empresas de capital aberto como um mecanismo de reduzir parte de sua carga tributária.

Segundo Rassier, neste formato de pagamento, o dinheiro destinado aos acionistas entra na contabilidade da empresa como despesa financeira, o que reduz a base de cálculo da empresa. “No caso, quem paga os impostos são os investidores, que são tributados em 15% sobre esse valor no imposto de renda”, explica.

“Tudo depende da empresa que o investidor decidir ser acionista. Algumas empresas optam pelas duas modalidades de distribuição de lucro e, por isso é interessante estudar bem a empresa antes de comprar suas ações.”

Rassier também é professor de investimentos da Xpeed School e, nesta semana, ele disponibilizou uma série gratuita para ajudar quem deseja começar a investir, mas não sabe por onde começar. Para acessar a série na íntegra, clique aqui.

Qual empresa escolher para investir?

Chegada a hora de escolher em qual empresa investir, Rassier recomenda que os investidores analisem os balanços de cada uma, já mentalizando qual estratégia de pagamento de lucros é mais condizente com seus interesses.

“Tanto os dividendos quanto os juros sobre capital próprio proporcionam uma renda recorrente para o acionista. Se o objetivo do investidor for ter foco nos proventos, o ideal é procurar por ações de empresas boas pagadoras de dividendos”, explica.

Sobre quais pontos levar em consideração durante esse processo de análise, Rassier destaca a análise de balanços e dos setores nos quais essas empresas estão inseridas.

“Para quem tem essa visão de longo prazo, o ideal é olhar com calma os números dessa empresa, se ela é lucrativa, se ela é boa pagadora de dividendos e como ela está posicionada no seu setor. Ela é líder desse setor? O mercado em que ela atua é um mercado promissor?”, destaca.

Em sua série, Rassier deu mais detalhes sobre como escolher uma empresa para investir e também sobre como montar uma carteira diversificada. As aulas já estão liberadas, mas ficarão disponíveis apenas até domingo, 08. Para ter acesso a este conteúdo gratuito, clique aqui.

Setor elétrico tem boas ações para uma carteira anti-inflação, mas o segredo está no balanço

ações índices fundos investimentos bolsa alta gráficos (Shutterstock)

SÃO PAULO – A inflação voltou a ser pauta na economia brasileira. Se os 3,14% de aumento do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) em 12 meses confirmados nesta sexta-feira (9) não parecem tão assustadores assim (sendo mais preocupante a alta dos preços dos alimentos), os 17,94% de aumento do Índice Geral de Preços de Mercado (IGP-M) no mesmo período são bem mais alarmantes.

Vale lembrar que enquanto o IPCA segue uma cesta básica de mercadorias e serviços consumidos por famílias com renda de 1 a 40 salários-mínimos, o IGP-M reflete os preços do atacado e das atividades do agronegócio e da indústria.

Em uma realidade de taxa Selic em 2% ao ano, esses números chamam a atenção dos investidores, pois o rendimento dos títulos de renda fixa mais seguros já é menor que o da inflação. A solução, invariavelmente, é migrar para a renda variável.

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Fernando Ferreira, estrategista-chefe da XP Investimentos, ressalta que o Ibovespa entregou uma rentabilidade média de 18,7% ao ano contra uma inflação média de 13,2% ao ano desde o início do Plano Real. “Isso comprova que ações são ativos reais, pois as companhias têm a capacidade de repassar preços e crescer lucros em um cenário de inflação”, argumenta.

Fonte: Bloomberg

Contudo, a pergunta que fica é: dentro da Bolsa quais são as ações que mais se beneficiam do cenário de inflação mais alta?

Os analistas Marcelo Sá, Fernando Zorzi e Luiza Candiota, do Itaú BBA, apontaram em relatório que existem boas oportunidades no setor elétrico.

“No segmento de distribuição de energia, companhias com contratos de concessão mais antigos irão se beneficiar do IGP-M alto, ao passo que não haverá qualquer impacto para os novos contratos de concessão”, concluem os especialistas.

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Isso ocorre porque nos contratos antigos a Parcela B, que são os custos diretamente gerenciáveis pela distribuidora (custos operacionais, cota de depreciação, remuneração do investimento e outras receitas), são ajustados pelo IGP-M nos ajustes tarifários anuais. Já para os contratos novos de concessão, a Parcela B é ajustada pelo IPCA.

“As distribuidoras com contratos de concessão antigos ganharão eficiência nos reajustes tarifários porque suas Parcelas B aumentarão muito mais do que suas despesas controláveis”, explicam os analistas do Itaú.

Desse modo, quanto mais distante estiver o prazo para renovação da concessão melhor para a distribuidora que ainda usa contratos antigos. As empresas mais bem posicionadas de acordo com o Itaú BBA neste cenário são a Neoenergia (NEOE3) e a Energisa (ENGI11).

O potencial de criação de valor projetado pelos analistas por conta da diferença entre IGP-M e IPCA para essas duas companhias está em 11,1% do valor de mercado total da Neoenergia e 9,4% da Energisa.

Enquanto isso, os negócios de distribuição da CPFL (CPFE3) ganhariam 5,5%, os da EDP – Energias do Brasil (ENBR3) aumentariam e 4,7% e os da Equatorial (EQTL3) se expandiriam em 4,4%. Cemig (CMIG4) e Copel (CPLE6) não ganham nada com o diferencial inflacionário em distribuição de energia.

No setor de transmissão de energia, por sua vez, o fluxo de caixa já começou a ser mais positivo para as companhias expostas ao IGP-M. Em torno de 63,7% da receita anual da Taesa (TAEE11) está atrelada ao IGP-M, contra 42% da Alupar (ALUP11) e apenas 0,3% da Isa CTEEP (TRPL4).

Já entre as geradoras, a maioria tem Acordos de Compra e Venda de Energia (PPAs, na sigla em inglês) ajustados pelo IPCA, mas há exceções.

A CPFL tem 53,9% dos seus PPAs atrelados ao IGP-M, a Cemig tem 30%, a Engie (EGIE3) possui 17,4%, a EDP registra 16,6% e Eletrobras (ELET3; ELET6) tem 11,1% dos PPAs nesse índice inflacionário.

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Os analistas do Itaú estimaram o quanto essas geradoras irão ganhar em lucro antes de juros, impostos, depreciações e amortizações (Ebitda, na sigla em inglês) por conta da diferença entre o IGP-M e o IPCA.

A maior vencedora em ganho absoluto, pelo cálculo da equipe de análise do banco, seria a Cemig, que deve aumentar em R$ 225,8 milhões seu Ebitda por ano. Logo em seguida vem a CPFL, que pode expandir em R$ 218,7 milhões seu Ebitda. Engie, ganharia R$ 218,4 milhões, Eletrobras aumentaria em R$ 203,5 milhões e EDP geraria mais R$ 87,2 milhões.

Outro banco que pensou em ações capazes de proteger a carteira do investidor contra a inflação foi o Bank of America (BofA), que também cita companhias com contratos atrelados a índices inflacionários.

No caso, todavia, os analistas lembraram que, além das elétricas, ações como de shoppings, imobiliárias (contratos reajustados conforme a inflação), farmácias (os preços dos medicamentos são indexados à inflação) e empresas com poder de mercado o bastante para influenciar nos preços, tais quais os supermercados, operadoras de telecomunicações, peças automotivas, algumas commodities e companhias de meios de pagamento.

Entre as empresas de maior correlação com IGP-M estão nomes como Carrefour (CRFB3), BR Malls (BRML3) e CSN (CSNA3).

Carrefour também possui uma correlação relevante com o IPCA, assim como Cielo (CIEL3), Embraer (EMBR3) e IRB Brasil (IRBR3).

Vale lembrar, contudo, que mesmo sabendo que nesses setores que possuem uma exposição maior de suas receitas à inflação, é preciso ter cautela e ficar bem atento ao balanço. Além disso, no caso de empresas como de shoppings, a pandemia pode levar a adiamento no reajuste de contratos.

Cuidado na análise

Renato Pinto, analista da Eleven Financial Research, ressalva que apesar de ser bom para as receitas das companhias elétricas no curto prazo o aumento do IGP-M, é preciso ficar atento aos demais itens do balanço dessas empresas para não cair em ciladas.

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“Se a companhia tiver receita atrelada ao IGP-M, mas a dívida dela tiver juros num índice parecido não adianta nada a elevação do faturamento”, explica.

Para ele, inflação persistente é sempre ruim, até porque a reação dos governos costuma ser imprevisível. “No setor de saneamento a Sanepar (SAPR11) teve um reajuste de 9% proposto pelo órgão regulador e o estado não deu”, alerta.

Em suma, o analista da Eleven destaca que se a inflação aumentar apenas no curto prazo e a empresa não tiver dívidas denominadas em IGP-M, o cenário acaba sendo positivo. De outro modo, os ganhos não são o bastante para compensarem os impactos deletérios de um aumento geral nos preços.

Renato Pinto defende uma estratégia mais simples, focada em antecipar os movimentos do investidor institucional diante de um quadro de recessão no qual se buscam ativos defensivos. “A baixa exposição de uma Isa CTEEP, por exemplo, a variações no [Produto Interno Bruto] PIB, a torna uma boa opção defensiva apesar da empresa não ter tanta receita atrelada ao IGP-M.”

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