Magalu lança maquininha, conta PJ e descontos na guerra por lojistas virtuais

O Magazine Luiza (MGLU3) lançou na terça-feira, 17, uma série de programas voltados para os lojistas virtuais da plataforma. De maquininhas a incentivos para os empreendedores que venderem mais, a estratégia da companhia é crescer o número de sellers e seus níveis de serviços junto com uma alta de vendas e receita para a sua plataforma, que funciona como marketplace.

A primeira novidade foi o lançamento de três maquininhas para comerciantes e uma conta para pessoas jurídicas, além de dar descontos progressivos em taxas, a lojistas de suas plataformas que atinjam determinados patamares de crescimento.

Segundo o diretor de fintech da companhia, Robson Dantas, a estratégia é, por meio dos novos serviços financeiros, trazer novos lojistas virtuais para a plataforma e aumentar o relacionamento com eles.

O anúncio acontece um dia depois de o chinês AliExpress abrir sua plataforma para lojistas brasileiros com taxas de 5% e 8% (bem menores do que as praticadas nos marketplaces já presentes no País) e de a Via reduzir suas taxas para lojistas menores.

No Magazine Luiza, as taxas funcionam da seguinte maneira: 3,99% para as vendas dos chamados “parceiros Magalu”, que ainda operam as vendas digitais sem processos automatizados e não tem grade volume de vendas; 12,8% para os lojistas que já têm volume e, assim, já tem uma infraestrutura mais automatizada no cadastramento de produtos e gestão e 16% para vendedores nesse mesmo patamar, que antecipam recebíveis com a companhia.

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Há três opções de maquininhas do Magalu. A primeira custa 10 parcelas de R$ 19,90, é simples e depende da conexão de um celular. A segunda, que tem a parcela de R$ 29,90, atende a um comércio médio.

E a última, chamada “smart”, tem parcelas mensais de R$ 49,90, e integra o lojista ao marketplace do Magazine Luiza, de forma que os estoques da loja física e digital do vendedor passam a ser integrados.

Já a conta para pessoa jurídica não tem custos para o lojista. A ideia é, no futuro, oferecer mais serviços ao comerciante como, por exemplo, um cartão de crédito para empresas.

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Questionado se tantos serviços gratuitos e custos de maquininhas subsidiados não devem afetar os números da empresa, como acontece em alguns casos na concorrência, Dantas afirma que o fato de a fintech estar embarcada no aplicativo principal do Magazine Luiza torna os custos de aquisição de clientes mais baratos.

Bônus para microempresas

O Magazine ainda abrirá mão de mais taxas para ganhar volumes. Em outra campanha lançada nesta terça, que terá duração de três meses, os lojistas que atingirem R$ 10 mil em vendas e crescerem 30% em relação ao último mês, terão desconto de 1 ponto porcentual na taxa paga à plataforma. Se as vendas superarem em 60% o resultado do mês anterior, o desconto chega a 2 pontos porcentuais.

Caso o lojista faça uso da antecipação de recebíveis, é possível receber mais 0,5 p.p. em desconto. Além disso, para quem vende menos de R$ 10 mil por mês, as vendas gerarão cupons para concorrer a vales de R$ 1 mil para compras na plataforma do Magazine Luiza.

O Magazine Luiza anunciou ainda um serviço de anúncios. Chamada Magalu Ads, a plataforma permite que os vendedores contratem campanhas de forma autônoma, estabelecendo quais produtos serão anunciados, por quanto tempo e quanto dinheiro será investido.

A cobrança é feita por número de cliques que os anúncios receberem. Assim, no momento da contratação do serviço, o empreendedor recebe uma previsão de quantos cliques o anúncio deve receber.

Esse projeto já era testado desde junho, com cerca de 10 lojistas, e entra no ar agora para alavancar as vendas da empresa, mas também para ser uma nova fonte de receitas para a companhia, explica Eduardo Galanternick, vice-presidente de Negócios do Magazine Luiza.

Além disso, a companhia vai passar a subsidiar o frete grátis dos lojistas de acordo com o nível de serviço oferecido por eles ao consumidor final. Quem atingir o nível de excelência (97 pontos de NPS) terá 100% do frete subsidiado pela empresa.

Leandro Soares, diretor executivo de Marketplace da companhia, afirma que essa é uma forma de respeitar o princípio da empresa de crescer com sustentabilidade, já que com um nível de serviço melhor nos produtos de terceiros, a empresa tende a vender mais como um todo.

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A empresa ainda vai oferecer “entregas ultra rápidas” em produtos de lojistas virtuais e não só para o seu estoque próprio. Essa modalidade de entrega no mesmo dia ou no dia seguinte da compra estará disponível para lojistas virtuais que já utilizam a logística de entregas do Magazine Luiza e têm volume de vendas mais altos.

Aqui, a proposta é retirar os produtos das lojas físicas dos sellers, sem manter, ao menos por enquanto, o estoque desses lojistas em um “fulfillment” do Magalu.

O presidente do Magazine Luiza, Frederico Trajano, disse que não vai forçar os vendedores a deixar estoques na logística da empresa, mas que a plataforma vai oferecer entregas rápidas para que o vendedor não fique “travado”. Ele lembra que quando o lojista deixa produtos nos centros de distribuição de uma varejista, não pode vendê-los por outra plataforma.

Brasil para os brasileiros

Trajano, disse – em evento com lojistas da plataforma –, que não há mais volta para a digitalização que o comércio brasileiro viveu nos últimos meses. No entanto, ele pontua que vendedores de produtos importados também se beneficiam com esse crescimento. “Não podemos perder esse mercado (e-commerce) para ‘sellers’ gringos”, afirmou.

Ele pontuou que a afirmação não carrega preconceitos, mas, sim, uma reafirmação da autoestima dos vendedores brasileiros. “Quem tem de digitalizar o Brasil são os sellers brasileiros e, eu gostaria, uma plataforma brasileira”, disse.

Ele afirma que o diferencial dos vendedores brasileiros deve ser a entrega mais rápida, a confiabilidade dos produtos e da plataforma. Como pontos das plataformas estrangeiras, ele pontua a variedade de produtos e preço.

Ele afirma que a abertura do AliExpress para vendedores brasileiros não se trata de uma ameaça ao seu negócio, pois o Magalu está focado em ampliar a logística, entregas rápidas e meios de pagamento aos clientes daqui, enquanto as demais plataformas como AliExpress e Shopee, ainda estão voltando a maior parte dos seus negócios para a venda de cross border (quando o consumidor compra de forma online de lojistas localizados fora do País).

Trajano diz que o Magalu pode vir a fazer vendas de cross border. No entanto, pontua que, assim como com os lojistas virtuais brasileiros, esses vendedores têm de ser regularizados.

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Ele defende, aliás, que o governo brasileiro deveria impor a obrigatoriedade de emissão de notas para os produtos vendidos em marketplaces no Brasil. “Aqui não é camelódromo digital. Se está aqui, é sério”, disse Trajano em uma menção ao fato da companhia só trabalhar com sellers que emitem nota fiscal.

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“O Cade precisa ter regras claras e pró-competitivas”, diz novo presidente do órgão antitruste

Alexandre Cordeiro Macedo (Foto: Waldemir Barreto/Agência Senado)

Depois de mais de dois anos como conselheiro e quase quatro anos como superintendente-geral do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), o advogado e economista Alexandre Cordeiro, de 45 anos, assumiu nesta semana o posto máximo do órgão como o novo presidente da autoridade responsável por resguardar a concorrência no Brasil.

Em entrevista ao Estadão/Broadcast, Cordeiro disse que tenderá a ser “menos intervencionista” em sua atuação na presidência nos próximos quatro anos. “Controlar e regular de maneira antecedente o mercado tem risco maior de prejuízo à sociedade do que fazer esse controle a posteriori.”

Na entrevista, Cordeiro falou de casos específicos que vão a julgamento pelo conselho nos próximos meses, como a fusão das locadoras de veículos Localiza e Unidas, operação que, segundo ele, “demanda atenção”. O novo presidente também comentou a compra da Oi por um consórcio de teles concorrentes, que depende do aval do conselho: “A tendência mundial é que tenha efetivamente poucos players no mercado de telefonia”.

O sr. assume a presidência do Cade depois de ter passado pelos cargos de conselheiro e superintendente-geral. Quais seus objetivos na presidência?

Precisamos ter maior atuação em diversos mercados da economia brasileira. Temos sofrido um aumento inflacionário e a forma de mitigar isso é investimento e competitividade. A pressão de demanda vai gerar aumento de preços. O Cade tem de dar segurança jurídica, não pode brincar com o mercado. Tem de ter normas claras, transparentes, pró-competitivas.

A pandemia levou a um aumento nas fusões e aquisições, que terão de ser analisadas.

Tivemos um aumento de 33% na quantidade de atos de concentração, sem recebermos novos servidores. Isso será um desafio. Outro desafio é como o Cade vai se posicionar nessa nova onda do direito concorrencial que começou na Europa e ganhou força com a chegada de (Joe) Biden na presidência dos Estados Unidos, que tem uma característica mais intervencionista, que considera questões sociais, ambientais.

E qual sua opinião sobre isso?

Tendo a ser menos intervencionista, porque a chance de errarmos no nível de intervenção é muito grande. Controlar e regular de maneira antecedente tem risco maior de prejuízo à sociedade do que fazer esse controle a posteriori, partindo de abuso na posição dominante. Não quer dizer que pleitos sociais, de igualdade e de questão ambiental não são importantes, mas isso não é papel da autoridade antitruste.

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Uma das últimas decisões do ex-presidente Alexandre Barreto no Cade foi determinar a reabertura da fusão Nestlé/Garoto, julgada pelo conselho há 17 anos e judicializada desde então. Qual a sua opinião sobre o processo?

O caso está em discussão judicial e estamos perdendo, com chances nulas de reversão. O que o ex-presidente fez foi determinar que a Superintendência-Geral do Cade cumprisse a decisão judicial (que determinava novo julgamento).

Essa fusão tem mais chance de ser aprovada hoje?

A análise de hoje é, sem dúvida, diferente do que em 2004, então eu acho que tem mais chance de ser aprovada, sim. Como relator do caso em 2016, quando fizemos um acordo (que determinava a venda de marcas da Garoto pela Nestlé), já achei isso e proferi decisão de que a operação poderia ser aprovada.

Falando sobre casos específicos, a fusão entre Localiza e Unidas pode ser aprovada com restrições?

Não posso falar do caso concreto porque vou julgar o processo. Mas é um caso que realmente demanda atenção.

E em relação à compra da Oi pelas concorrentes Claro, Tim e Vivo?

Também não posso falar especificamente, mas a tendência mundial é que tenha efetivamente poucos players no mercado de telefonia.

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No setor de combustíveis, o Cade fechou um acordo em 2019 para que a Petrobrás vendesse suas refinarias, mas a empresa vem pedindo mais prazo para que isso ocorra. O Cade vai adiar?

Depende da justificativa. O que a Petrobrás tem pedido é para mudar prazos intermediários, como publicação de editais e etapas desse processo. A ideia é que o prazo final permaneça (dezembro de 2021).

A Europa e os EUA têm fechado o cerco a grandes conglomerados da internet, como o Google e o Facebook. Qual sua visão sobre os mercados digitais?

Ser grande não é um problema, o problema é abusar dessa posição dominante. Pode ser um paradoxo, mas, se você começa a regular setores da economia para impedir que empresas cresçam, pode inibir inovação e eficiência. A diferença do mercado digital e de outros é a velocidade.

Passamos por um momento político turbulento que tem efeitos na economia. Como isso afeta o Cade?

O Cade, pelo fato de ter característica de uma autarquia, não se mistura com a questão política. Todos os membros têm mandato, são cargos que cruzam governos. Não estou dizendo que estamos completamente alheios ao que está acontecendo no Brasil e no mundo, mas o Cade tem sua autonomia administrativa e financeira e capacidade de autogestão que independe do que efetivamente está acontecendo na política brasileira.

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Fim de uma era: o que esperar da Amazon sem Jeff Bezos?

(Divulgação/Amazon – montagem/IM)

SÃO PAULO – Nesta segunda-feira (5), Jeff Bezos oficialmente deixou de ser o CEO da Amazon. A multinacional de comércio eletrônico terá agora a liderança para Andy Jassy, até então CEO do serviço de hospedagem em nuvem Amazon Web Services (AWS).

Aos 57 anos de idade, Bezos é o homem mais rico do mundo. Sua fortuna é estimada em US$ 203 bilhões, segundo o Bloomberg Billionaires Index.

A Amazon, que começou como uma livraria na década de 90, é hoje uma gigante da tecnologia que vale cerca de US$ 1,7 trilhão na Bolsa de Valores americana Nasdaq. A empresa comercializa de eletrônicos e produtos de higiene a alimentos e bebidas, tudo online. Também investe em frentes que vão de computação até entretenimento e saúde. Assim, já ultrapassou a marca de US$ 100 bilhões em receita trimestral em 2020.

Após ir de livraria a uma empresa bilionária, o que esperar da nova fase da Amazon, sem Bezos? O InfoMoney conversou com alguns especialistas para entender. Confira:

Quem é o novo CEO?

Para entender a nova fase da empresa, é necessário entender quem é Andy Jassy. O norte-americano de 53 anos de idade participou da criação e desenvolvimento da plataforma online de armazenamento e processamento de dados AWS a partir de 2003. Em 2016, Jassy passou a ter o título de CEO da AWS. Antes, o executivo era vice-presidente sênior de Serviços Web da Amazon.

Homem de confiança de Bezos, Jassy é descrito como um sujeito simpático, em contraste com a personalidade dura de seu antecessor. No entanto, é bastante exigente: traça grandes expectativas para sua equipe e espera que seus colaboradores estejam à altura. Ao contrário de outros executivos do setor, ele não é formado em engenharia ou computação – é um administrador.

Além disso, é conhecido por se manifestar publicamente sobre questões políticas, sociais e sobre a concorrência. Jassy já fez declarações públicas contra políticas de imigração dos EUA e a favor de direitos LGBTQ+.

O InfoMoney preparou um perfil completo de Jassy e sua história – saiba mais aqui.

Grande fase da Amazon

Os negócios da Amazon (AMZO34) foram muito bem durante a pandemia. No primeiro trimestre deste ano, as vendas aumentaram 44% em relação ao mesmo período do ano anterior – a melhor taxa de crescimento trimestral da empresa desde 2011. O lucro líquido foi de US$ 8,1 bilhões, seu maior lucro trimestral de todos os tempos.

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Com o aumento da demanda, a Amazon contratou mais de 500 mil pessoas em 2020, aumentando seu quadro total de funcionários para mais de 1,3 milhão de pessoas ao redor do mundo.

As vendas da AWS cresceram 32% no primeiro trimestre, para US$ 13,5 bilhões. Isso torna a Amazon uma das maiores empresas de computação em nuvem do mundo – maior do que a Oracle, a SAP ou a Salesforce.

O negócio de varejo online da Amazon teve receita de US$ 52,9 bilhões, um aumento de 41%. Os serviços de terceiros, como atendimento e logística, aumentaram 60%, para US$ 23,7 bilhões (aproximadamente o tamanho da FedEx, empresa americana de entrega de produtos que é uma espécie de versão privada dos Correios).

Os serviços de assinatura, que têm como principal representante o Amazon Prime (concorrente da Netflix), tiveram receita de US $ 7,6 bilhões, um aumento de 36%. Ainda, a receita de “outros negócios”, que inclui a área de publicidade, atingiu US$ 6,9 bilhões, aumento de 77%.

O valor de mercado da Amazon é de US$ 1,7 trilhão, atrás apenas da Apple (AAPL34) e da Microsoft (MSFT34) entre as empresas listadas nos EUA.

Mudanças e desafios andam juntos

O consenso entre os especialistas consultados pelo InfoMoney é de que a chegada de Jassy na cadeira de CEO deve trazer algumas mudanças e novos desafios – mas o cenário ainda é positivo.

Para Vinicius Araujo, analista de ações globais da XP, a figura do CEO é muito importante para os investidores. “A perspectiva de que líderes capacitados podem trazer melhores resultados para a empresa é realidade”, diz. Mas, segundo ele, essa transição de Bezos para Jassy não dá a impressão de perda de qualidade para o mercado.

“Não foi uma troca radical. O Jassy já está na empresa há mais de 25 anos, era CEO da AWS e conhece muito bem o negócio”, avalia. “A principal mudança que deve acontecer é um direcionamento ainda mais forte no segmento de Cloud, da AWS. E isso é positivo, porque esse segmento é o principal gerador de lucro operacional hoje e um dos segmentos mais importantes para a empresa. Ao colocar um cara especialista dessa área na liderança geral, a empresa dá um recado de que há uma intenção em expandir ainda mais os negócios nessa direção, que já é muito lucrativa.”

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Ainda segundo o analista, a expectativa é de que a empresa comece a agir mais no sentido dos princípios ESG, que representa a busca por melhores práticas ambientais, sociais e de governança. A sigla se tornou conhecida inclusive no mundo dos investimentos. “O que devemos ver são mais ações focadas nos quesitos ESG, a fim de criar um ambiente de trabalho com mais empatia e com cultura mais inclusiva”, diz.

Mas aí também surge o primeiro desafio. Segundo Araujo, a empresa está buscando melhorar a qualidade de vida do funcionário em decorrência de vários processos trabalhistas. “Há a meta, inclusive, de ser o melhor lugar do mundo para trabalhar, com satisfação dos funcionários altíssima. Então, imagino que a chegada de Jassy ajude nessa promoção dos aspectos sociais, de governança e ambientais”, avalia.

Durante a pandemia, à medida que sua cadeia de suprimentos se estabiliza, a empresa passou a reverter as políticas de aumento de salário introduzidas no início de 2020 para manter seus funcionários trabalhando durante a crise sanitária. Mas, segundo relatos de funcionários, as medidas adotadas caíram enquanto o vírus avançava pelos armazéns da Amazon na Europa e nos EUA.

Também há preocupações de que o crescimento do comércio eletrônico da Amazon desacelere com a reabertura da economia, e esse é mais um desafio para Jassy, que vai precisar projetar uma retomada sólida e impulsionar o crescimento em outras áreas e compensar qualquer desaceleração do varejo online.

Outra preocupação tem relação com o escrutínio regulatório que continua assombrando a Amazon. “A comissão antitruste e os órgãos reguladores locais olham muito de perto essas gigantes de tecnologia e tentam criar regulações para impedir práticas anticompetitivas. No caso da Amazon, no entanto, não há comprovação de qualquer tipo de monopólio. A empresa tem muitos braços, e até agora nenhum deles parece apresentar características monopolistas, mas todos ficam de olho nos próximos passos”, diz o analista da XP.

Existe um receio de que o maior foco regulatório possa prejudicar a capacidade da Amazon de crescer por meio de aquisições. A empresa está recebendo atenção considerável dos reguladores e legisladores pela aquisição pendente de US$ 8,5 bilhões pelo estúdio cinematográfico MGM.

É verdade que estar no centro dos holofotes nesse contexto não é exatamente bom, mas segundo Fernando Martin, analista da Levante Investimentos, a aquisição foi um negócio caro. “Não animou o mercado, nem é determinante para o sucesso do Prime Video. Então acreditamos que, se não der certo, vida que segue. Não é uma aquisição crucial”, diz.

O resultado da transação MGM pode servir como um teste. Se aprovada, a aquisição deverá levar obras audiovisuais conhecidas do MGM para os consumidores da Amazon. O movimento é um caminho para levar robustez ao catálogo da Amazon e competir com outras empresas de transmissão online de conteúdo, como Disney e Netflix.

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De um jeito ou de outro, a expectativa dos analistas consultados é positiva. “Acreditamos que a história deve ser bem-sucedida, devido à mentalidade de Bezos que deve continuar e também à história das big techs que passaram por isso e conseguiram manter uma operação eficiente”, diz Martin.

Efeito nas ações

Apesar dos bons resultados diante da pandemia, as ações da Amazon não acompanham no mesmo ritmo. Nos últimos 12 meses, os papéis subiram 14,85%, enquanto seu benchmark, o S&P500, subiu 36,88% no mesmo período.

Entre os motivos para a cautela do investidor está a rotatividade do CEO. Grandes empresas de tecnologia têm um histórico misto no que diz respeito à substituição de CEOs fundadores. A história de sucesso mencionada pelos entrevistados é de Tim Cook, atual CEO da Apple, que assumiu o cargo de Steve Jobs em 2011. As ações da Apple subiram 1.000% desde que ele assumiu.

A história menos bem-sucedida é da Microsoft, na qual Steve Ballmer sucedeu Bill Gates como CEO em janeiro de 2000 e permaneceu no cargo por 14 anos. As vendas da Microsoft triplicaram com Ballmer no comando, mas as ações não acompanharam. Desde 2014, o CEO da Microsoft é Satya Nadella.

“As ações da Amazon estão de lado desde fevereiro, quando foi anunciada a mudança, e embora não tenham subido de forma super positiva, dá para afirmar que o anúncio não foi visto como negativo pelo mercado. Há investidores que ainda se importam com essa figura de liderança e estão em uma espécie de compasso de espera para entender como vai funcionar”, avalia Araujo, da XP.

No caso da Apple, segundo Araujo, o perfil de Cook foi complementar ao de Jobs. Se Jobs era o gênio do produto, a visão de negócio e mercado de Cook ajudou e alavancou a Apple.

“A Amazon pode surpreender positivamente nesse sentido, uma vez que o Bezos teve genialidade de criar e o Jassy pode trazer um crescimento exponencial. Há uma pressão enorme em ser o sucessor de Bezos, e manter os patamares atuais já é difícil, mas entendemos que Jassy tem experiência”, diz.

Mais que isso, Martin, analista da Levante Investimentos, pontua que nos casos citados a transição foi bem feita, o que no longo prazo deu resultados mesmo sem um boom nas ações.

“Na Microsoft, Bill Gates saiu de CEO para o conselho, como o Bezos agora. Mas nesse contexto, a visão do fundador ainda estará presente na alma da companhia e ele vai participar das grandes decisões que virão. Avaliamos essa transição de maneira positiva. Aparentemente, está sendo bem feita. Bezos está saindo, mas a cultura que criou e ajudou a manter vai ficar na empresa”, diz.

Segundo ele, há uma forte associação entre Amazon e varejo, “mas grande parte do lucro operacional vem da AWS, operação administrada por Jassy por anos”. “Mesmo com as ações performando abaixo do seu principal benchmark, é uma boa oportunidade e um caso interessante para investimentos. Somos compradores do papel”, afirma Martin.

Nesta segunda, às 15h30 do horário de Brasília, os papéis da empresa subiam 2,3%, cotados a US$ 3.510. Enquanto isso, os BDRs (#AMZO34) subiam 0,03%, cotados a R$ 112,99 no mesmo horário.

E os próximos passos de Bezos?

Para Bezos, deixar o cargo de CEO da Amazon não necessariamente significa menos trabalho. Além da varejista, o executivo tem outros projetos em andamento – como a empresa aeroespacial Blue Origin e a Amazon Studios, divisão da empresa que desenvolve e produz programas, filmes e séries.

Blue Origin 

No próximo dia 20, Bezos vai participar de um voo espacial durante a primeira viagem tripulada da Blue Origin – que deve se tornar a segunda empresa privada a realizar o feito depois da Virgin Galactic, do também bilionário Richard Branson, que espera fazer a viagem para o espaço uma semana antes.

No entanto, o fundador da Amazon foi o primeiro a anunciar seus planos para uma viagem espacial na cápsula espacial New Shepard da Blue Origin, junto com seu irmão Mark Bezos.

Os investimentos na empresa foram bilionários com o objetivo de promover o turismo e a infraestrutura no espaço. “Desde os cinco anos de idade, sonhava em viajar para o espaço”, disse Bezos em uma postagem na rede social Instagram. “Vou fazer essa viagem com meu irmão. A maior aventura, com o meu melhor amigo”, acrescentou.

Além da dupla, também estarão presentes no voo convidados como Wally Funk, uma astronauta de 82 anos, e passageiros que compraram assentos em um leilão. Um dos lances chegou a US$ 28 milhões, disse a empresa.

Amazon Studios

Na última semana, Bezos repostou no Instagram uma selfie com o ator Dwayne ‘The Rock’ Johnson, anunciando uma parceria entre a Amazon Studios e a Seven Bucks Productions, produtora do ator, para novos filmes.

“Uma semana emocionante chegando, pois a Amazon Studios e o Seven Bucks Production se reúnem para um grande anúncio que proporcionará diversão às famílias em todo o mundo. Paixões compartilhadas e sempre trabalhando duro com as próprias mãos. Estou ansioso por este. Teremana está a caminho!”, escreveu o ator no post. Teremana pode ser o nome da nova produção em conjunto.

Outros interesses

Bezos também deve se concentrar mais no jornal The Washington Post, que ele comprou por US$ 250 milhões em 2013. Ele é creditado por modernizar o jornal e conduzi-lo para o ambiente digital, depois de um período de declínio por décadas.

Outro interesse do bilionário é a filantropia: no ano passado, anunciou a criação do chamado Bezos Earth Fund (“Fundo Bezos para a Terra”, em tradução livre), de US$ 10 bilhões, que visa “acelerar a transição para 100% de energia limpa e acesso equitativo a ar, água e terra saudáveis.”

No entanto, vale lembrar que ele é uma das cinco pessoas mais ricas do mundo que não se comprometeram com o Giving Pledge, iniciativa filantrópica criada por Bill Gates e Warren Buffett para encorajar bilionários a direcionar pelo menos metade de sua fortuna para caridade.

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Para Bradesco BBI, temores sobre concorrência estão mais do que precificados na ação da B3

SÃO PAULO – Nos últimos pregões, as ações da B3 (B3SA3) têm registrado forte queda em meio às especulações – e algumas confirmações – sobre a concorrência em mercados em que a empresa operadora da Bolsa é monopolista.

A última notícia sobre o tema foi da última terça-feira (8), dia em que os ativos B3SA3 caíram 5,55%. Ontem, a empresa de tesouraria digital Mark 2 Market (M2M) recebeu licença da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) para atuar como Central Depositária de Recebíveis do Agronegócio (CRA), passando a competir no setor com a B3.

A M2M já havia recebido autorização em dezembro passado, mas aguardava aval final do colegiado, que veio na véspera. A empresa prevê começar o serviço no início do segundo semestre. Criada em 2010, a M2M afirma gerir mais de R$ 310 bilhões em suas plataformas, recursos de securitizadoras e empresas na gestão de dívidas, aplicações, derivativos, com clientes como Burger King (BKBR3), EcoAgro, Natura (NTCO3), CCR (CCRO3) e Alpargatas (ALPA4).

Após a notícia, nesta quarta, as ações B3SA3 abriram em queda, que chegou a ser de 3,18%, para depois amenizar a baixa que, no começo da tarde, era de cerca de 1%. Às 13h33, os ativos caíam 0,98%, a R$ 16,17, mas ainda acumulando baixa de 7,81% apenas no acumulado de junho e de 9% nos últimos trinta pregões.

Porém, na avaliação dos analistas Otavio Tanganelli, Gustavo Schroden e Lucca Brendim, analistas do Bradesco BBI, o mercado está precificando agora os mesmos múltiplos para B3 do que em meados de 2019, quando o volume médio de negociações diárias (ADTV, na sigla em inglês) estava em torno de R$ 15 bilhões e R$ 16 bilhões, em comparação com os atuais R$ 30 bilhões a R$ 35 bilhões, o que implicaria em perdas de participação de mercado de mais de 40% no segmento.

“Não acreditamos que a recente queda seja justificada, especialmente porque a dinâmica dos volumes continua muito forte ao longo do segundo trimestre”, avaliam os analistas do BBI. Os analistas seguem com visão positiva para a B3, vendo um múltiplo de 17 vezes o preço sobre o lucro esperado para 2022, implicando mais de 30% de desconto para os pares globais nos atuais níveis (desconto este que consideram excessivamente exagerado).

Os analistas apontam que muito se tem discutido sobre a concorrência ultimamente. Para eles, mesmo se houver uma nova bolsa (ou mesmo um broker potencialmente internalizando ordens), o impacto nas receitas não deve ser próximo ao que o mercado está precificando atualmente.

O que estaria em jogo, de acordo com cálculo dos analistas, compreende cerca de 15% do total de tarifas de negociação mais o pós-negociação, que é o que eles veem como a receita potencial que estaria em risco.

O pós-negociação compreende a maior parte da taxa, pois os requisitos operacionais e de capital são muito maiores e mais
complexos. Os analistas veem o negócio de compensação / liquidação como um monopólio natural, pois requer garantias para cada negociação (atuando como contraparte em caso de inadimplência). Portanto, ter mais de uma câmara de compensação poderia elevar exponencialmente a necessidade de garantias no sistema (para evitar riscos sistêmicos, apontam, as duas câmaras provavelmente precisariam ser interoperáveis).

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A necessidade de maior alocação de capital e “interoperabilidade” não só faria a operacionalização mais difícil (ou seja, conectar-se a todos os corretores e participantes), mas também provavelmente aumentaria as taxas de negociação para o usuário final (devido a requisitos de capital mais elevados).

Quanto à discussão sobre internalização, se potencialmente se materializar, os analistas acreditam que a compensação / liquidação continuaria a acontecer na Câmara de Compensação (CCP), a fim de preservar a formação de preços e a transparência do mercado. Desta forma, o potencial impacto também ficaria restrito às receitas de negociação apenas.

Os analistas avaliam que as receitas de negociação sejam de aproximadamente R$ 400 milhões por ano, em comparação com a receita da pós-negociação entre R$ 3 bilhões e R$ 3,5 bilhões.

Uma vez que acreditam que a concorrência deve ser restrita apenas às receitas de negociação, se houver um ou mais entrantes no mercado chegando a 20% de participação (o que os analistas consideram como uma estimativa agressiva), o  impacto seria de cerca de 0,7% para a receita e de 1% no lucro líquido da B3.

“Como sensibilidade, mesmo que a competição aconteça no pós-negociação também, as receitas e o lucro líquido em risco são de 6% e 9% frente as nossas expectativas para 2022, respectivamente, o que implica que o mercado já precificou, em grande medida, o pior cenário possível”, apontam.

Os analistas seguem com recomendação outperform (desempenho acima da média) para os ativos B3SA3, com preço-alvo de R$ 23, o que configura um potencial de valorização de 41% em relação ao fechamento de terça.

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Controladora das Lojas Americanas, B2W paga caro para ganhar terreno

O consumidor correu para o comércio eletrônico na pandemia, e as empresas do setor se apressaram para conquistar uma fatia maior dos gastos dos clientes. A B2W – que concentra marcas como Americanas.com e Submarino – viu as vendas crescerem 90% no primeiro trimestre, na comparação com o mesmo período do ano passado. O avanço foi forte, mas veio a custo da lucratividade. De janeiro a março, a empresa viu seu prejuízo subir mais de 50%, para R$ 163,6 milhões.

Em um mercado disputado – e cheio de rivais fortes como Mercado Livre, Magazine Luiza e Via (dona da Casas Bahia) -, a opção foi abrir mão de margem para ganhar terreno, de acordo com o diretor de relações com investidores da B2W, Raoni Lapagesse. Ele lembrou que a concorrência também fez isso em algum momento.

Os analistas, porém, não compraram a tese totalmente. “Nossa visão é de que qualidade importa, e os investidores precisam ser seletivos e demandar uma visibilidade maior de rentabilidade, em vez de simplesmente comprar a história de crescimento de GMV (volume de vendas)”, afirmou o analista Guilherme Assis, do Banco Safra.

Assis disse ainda que a B2W igualou as condições oferecidas aos vendedores de seu marketplace às ofertadas pela rival argentina Mercado Livre. Além disso, ofereceu cupons de descontos agressivos aos consumidores.

Apesar dessa cobrança por rentabilidade, há um ponto positivo que pesa nas análises sobre a companhia. No fim do mês passado, a empresa anunciou que vai unir as operações da B2W ao seu braço de varejo físico, a Lojas Americanas.

O novo grupo que surgirá deverá ser listado na bolsa americana. Esse movimento, segundo João Pedro Soares, analista do Citi, pode trazer vantagens competitivas para ambos os negócios. Trata-se ainda de uma resposta da empresa a uma cobrança antiga do mercado financeiro.

Apetite

As declarações da empresa também apontam para um pé firme no acelerador. O presidente da operação chamada de Universo Americanas, Miguel Gutierrez, disse na semana passada que a companhia definiu as fusões e as aquisições como uma de suas principais estratégias. “Buscamos novos negócios em novas marcas”, disse. Também em abril, o grupo anunciou a compra do Uni.co, que engloba marcas de moda, estilo de vida e decoração, como Imaginarium e Puket.

A companhia fez oito aquisições via B2W desde 2020. No caso da fintech da empresa, a Ame, as compras levam o braço financeiro a crescer em serviços bancários. A Ame atingiu 19 milhões de downloads e 3 milhões de estabelecimentos conectados. O volume total de pagamentos coletados do primeiro trimestre chegou a R$ 5,1 bilhões, alta de 350% ante o mesmo período do ano passado.

A categoria de supermercado da B2W multiplicou seu faturamento por oito no primeiro trimestre, em relação ao ano passado, e totalizou mais de 50% dos itens vendidos da B2W entre janeiro e março.

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“A plataforma segue em rápida expansão para novas praças, por meio de parcerias como Pão de Açúcar, Carrefour e Grupo Big, e já está disponível em mais de 60 cidades”, disse a companhia na semana passada.

Um desafio que a B2W está tentando enfrentar é o da rapidez na entrega – fator que pressiona todas as varejistas online. O diretor de relações com investidores da Lojas Americanas, Fabien Picavet, disse que a companhia tem como prioridade expandir as entregas rápidas e de até três horas. Segundo ele, a recente aquisição da Ship, empresa da área de logística, pode reduzir ainda mais o tempo de espera dos clientes.

Franquias

Entre as vias de crescimento exploradas pelo Universo Americanas – que engloba tanto a Lojas Americanas quanto o braço digital B2W – está a ampliação da presença física via abertura de franquias. A empresa ganhou mais presença nesse segmento ao firmar parceria com a BR Distribuidora para o segmento de lojas de conveniência e também pela aquisição do grupo Uni.Co, que opera centenas de lojas nesse formato. O presidente do Universo Americanas, Miguel Gutierrez, também disse que o grupo poderá aumentar o total de unidades próprias.

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Ambev: recuperação ou concorrência avançando ainda mais? Balanço do 4º tri trará resposta para acionistas

SÃO PAULO – O Carnaval costuma ser uma data positiva para as fabricantes de bebidas alcoólicas. Porém, os investidores da líder do setor no Brasil estarão de olho num evento que vai acontecer logo após a folia, mais precisamente na quinta-feira, 27 de fevereiro. Afinal, antes da abertura dos mercados, a Ambev (ABEV3) revelará os seus números referentes ao quarto trimestre de 2019 e também em relação ao ano como um todo.

Após números considerados bastante negativos no terceiro trimestre de 2019, com destaque para a forte queda do volume de vendas de cerveja no Brasil, de 2,8% na base anual, a expectativa dos analistas, como do Credit Suisse e do Itaú BBA, era de certa recuperação nos números. Isso tanto por conta do período sazonalmente mais forte quanto pelo aumento de preços da concorrente Heineken podendo favorecer as vendas da Ambev.

“A nossa expectativa para venda de volume de cerveja no quarto trimestre está perto de 2,5% de crescimento na base de comparação anual, enquanto as indicações são de que os competidores seguiram os passos da Ambev com relação a aumento de preço”, destacou o Credit em relatório de prévia para a companhia datado de meados de janeiro.

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Para o segmento de não-alcoólicos no Brasil, a expectativa apontava para um crescimento de 5,5% e 6% anual de volume e receita por hectolitro respectivamente, mantendo os níveis vistos nos trimestres anteriores.

Nos outros segmentos, América Latina e o Canadá ainda deveriam apresentar números fracos, agravado pela piora da economia na Argentina, mas a América Central continuaria reportando resultados fortes.

Porém, no último mês, alguns dados mostraram que o resultado da Ambev poderia não seguir a tendência de recuperação como se apontava no início do ano. O primeiro deles foi revelado pela empresa de inteligência de mercado Nielsen, que apontou que a Ambev teve uma perda de 2,3 pontos percentuais da sua participação de mercado de cerveja (para 59,4%) ao longo de 2019, enquanto Heineken, o Grupo Petropólis e marcas independentes angariaram esse percentual.

Cerca de uma semana depois, foram divulgados os números da Heineken, que animaram os investidores da empresa holandesa. No quarto trimestre de 2019, o volume consolidado de vendas de cerveja pela Heineken subiu 4,1% no mundo, alta atribuída aos crescimentos de dois dígitos em Brasil, Vietnã e Camboja.

Com o avanço, o Brasil se tornou o país com o maior mercado da marca Heineken (que não inclui os demais produtos) no mundo todo, apesar de não ter sido revelado números específicos sobre a operação no país. Após a divulgação dos números, ficou praticamente confirmado que o ambiente para a Ambev do final do ano passado era ainda mais desafiador do que parecia à primeira vista.

Ao falar dos números da Heineken, Betina Roxo, analista da XP Investimentos, destacou: “os volumes surpreendentemente fortes da Heineken corroboram o cenário competitivo desafiador e por isso, temos uma leitura negativa para Ambev”.

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Ricardo Alves, analista do Morgan Stanley, escreveu em relatório que os números da Heineken corroboram a visão de que a Ambev perdeu participação de mercado no quarto trimestre de 2019. “Baseado em nossas recentes conversas com agentes do mercado estamos surpresos em ver o principal concorrente da Ambev elevando volumes em dois dígitos no Brasil. Vale lembrar que esperamos que os volumes da Ambev cresçam em um dígito baixo no mesmo período”, destaca.

Mas, antes mesmo desses números virem à tona, o Bradesco BBI já havia jogado um balde de água fria nos investidores mais otimistas com os números da companhia – não só em relação a volumes, mas também em relação a preços. “Nosso ‘rastreador de preços’ indica que a Ambev aplicou descontos em outubro de 2019, sugerindo que os preços podem frustrar as expectativas do mercado, crescendo abaixo da inflação no quarto trimestre de 2019”, avaliam os analistas do banco.

A equipe de análise reuniu dados para os preços de cerveja de seis grandes varejistas no Brasil desde julho de 2018 (os supermercados representam cerca de 40% dos volumes de cerveja no país) e notou que, depois que a Ambev aplicou seu cronograma de aumento de preço no terceiro trimestre de 2019, o preço médio ponderado semanal acabou recuando no início de outubro.

“Em nossa opinião, esses descontos ocorreram no contexto de: i) período prolongado de preços mais baixos da Heineken, sendo que a empresa elevou os preços posteriormente e ii) um mercado brasileiro ainda desafiador em termos de crescimento de volume”, avaliam os analistas.

Eles observam uma tendência positiva nos preços da Heineken desde o fim de outubro. Contudo, estão atentos aos impactos da remoção dos gargalos de produção da Heineken mais para frente, especificamente em junho de 2020, mais que duplicando a capacidade das marcas Heineken, Amstel e Eisenbahn.

“Além disso, o Grupo Petrópolis poderá abrir uma planta considerável em julho de 2020 e expandir sua capacidade no Nordeste. Como consequência deste aumento de capacidade dos concorrentes, estamos preocupados com a possibilidade dos preços serem mais pressionados”, aponta o banco.

Assim, os analistas possuem uma postura mais conservadora sobre os preços na comparação com o mercado, assumindo que os valores colocados pela Ambev podem ter subido abaixo da inflação em meio aos desafios competitivos. Com isso, a estimativa é de um crescimento da receita para o segmento de cerveja no Brasil para alta de 4,5% na base anual no quarto trimestre de 2019 versus expectativa de alta de 7% anteriormente.

Os desafios devem continuar em 2020, com os analistas assumindo que os preços crescerão abaixo da inflação, enquanto mantêm a previsão de crescimento de volume em 2%. A recomendação é neutra baseada em três fatores: i) preocupações com a concorrência da Heineken e Petrópolis, ii) uma mudança na embalagem que, apesar de bem-vinda em termos de inovação, deve pressionar as margens da Ambev e iii) o valuation, que não é particularmente atraente, já que a ação ABEV3 está sendo negociada com múltiplo preço sobre o lucro próximo à sua média histórica.

Em meio ao desafio da grande concorrência, o Credit Suisse elaborou um estudo justamente explorando a possibilidade da Ambev abrir mão da rentabilidade no curto prazo, com o intuito de recuperar os volumes, em uma estratégia de forma bem-sucedida e já aplicada no México pela controladora AB Inbev. Isso porque a estratégia apresentou por lá uma combinação perfeita de elevação do consumo de cerveja per capita, aumento da participação global no mercado e ganhos de participação de mercado dentro do setor – algo que poderia se repetir também aqui no Brasil.

A companhia poderá dar mais sinais se essa estratégia é uma boa opção durante teleconferência com analistas de mercado, que acontecerá durante a tarde da quinta-feira. Enquanto isso, o Carnaval poderá ser de tensão para os acionistas da empresa, já que os últimos dados apresentados mostraram que o cenário é ainda mais difícil do que se estava observando no início do ano.

Confira o que esperar para a Ambev no quarto trimestre, segundo consenso Bloomberg: 

Dados da Ambev (em R$ milhões)  4T18 4T19E 4T19E/4T18
Lucro líquido ajustado 3.720 4.045 +8,7%
Ebitda ajustado 7.470 7.043 -5,7%
Margem Ebitda 46,6% 43,5% -3,1%
Receita líquida  16.020 16.179 +1,0%

CVM propõe novas regras no mercado de valores mobiliários de olho em maior concorrência

SÃO PAULO – A Comissão de Valores Mobiliários (CVM) apresentou nesta sexta-feira (27) propostas para aperfeiçoar o ambiente de negociação de ativos no país. A autarquia abriu audiência pública nesta sexta (até 28 de fevereiro) com três propostas para o mercado de negociação de valores mobiliários, considerando uma possível elevação da competição.

A CVM divulgou três minutas. A Minuta A pretende substituir a Instrução CVM 461 introduzindo novas disposições na regulamentação sobre o funcionamento dos mercados regulamentados de valores mobiliários e sobre a constituição, organização e funcionamento das entidades administradoras de mercado organizado.

Já a Minuta B dispõe sobre a constituição, a organização e o funcionamento da autorregulação unificada dos mercados organizados e das infraestruturas de mercado financeiro atuantes no mercado de valores mobiliários, assim entendidas as entidades que realizam, cumulativa ou isoladamente, o processamento e a liquidação de operações, o registro e o depósito centralizado de valores mobiliários.

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A Minuta C, por sua vez, altera a Instrução CVM 505 para dispor sobre a execução de ordens no interesse do cliente em contexto de concorrência entre ambientes de negociação (best execution).

As 3 minutas têm como principal objetivo dar novo tratamento regulatório a determinados aspectos considerados pela CVM como essenciais para assegurar o bom funcionamento do mercado em cenário de coexistência de mais de um ambiente de negociação no Brasil.

Vale destacar que as ações da B3 chegaram a cair 5,7%, para R$ 44,01 na mínima, o menor valor intradiário desde 10 de outubro. Essa notícia na CVM elevou a preocupação com a concorrência, que já foi um fator de tensão no início da semana.

Na segunda-feira, a ação da B3 caiu mais de 4% após anunciar a conclusão de um processo de arbitragem que permitiu a outra empresa acessar sua central; o resultado permite que um novo concorrente entre no mercado de ações da B3, escreveram os analistas do Safra Luis Azevedo e Silvio Doria em relatório no início desta semana.