Stock Pickers completa 2 anos e realizará série de lives para comemorar; veja os confirmados

(CONDADO DA FARIA LIMA) – O Stock Pickers completa 2 anos de vida neste domingo, 25 de abril de 2021. E para celebrar esta data, realizaremos dois super eventos: um mais descontraído no próprio domingo e o outro mais “sério” que vai acontecer ao longo da próxima semana.

O primeiro é a 2ª Aniverlive Stock Pickers, que terá início às 14h e vai durar por toda tarde. Vamos juntar mais de 30 convidados (entre gestores de investimentos, jogadores de futebol, artistas) para celebrar o dia – ou seja, não espere um papo sério de investimentos. A live será no youtube e o link para acompanhá-la está aquiConfira abaixo todos os convidados:

Já o segundo evento terá um conteúdo de altíssimo nível: faremos a primeira edição do “Stock Week“, que acontecerá entre os dias 26 e 30 de abril. Em cada dia da semana, faremos uma live super especial, sempre às 18h (horário de Brasília).

A transmissão será no Youtube do Stock Pickers. Confira abaixo os convidados e todos os detalhes de cada palestra:

SEGUNDA (26/abr): Um “remember” do nosso 1º episódio
(com Luiz Aranha da, Moat Capital, e Alexandre Sabanai, da Perfin)

Vamos reviver o primeiro debate que deu origem à nossa história. O Aranha é um talentosíssimo Stock Pickers com viés “agnóstico”: dificilmente aquelas açõe super populares e que todo mundo tem em carteira estarão nos fundos da Moat. Já o Sabanai eu defino como um “Stock Pickers defensivo”, pela expertise da Perfin nos setores de utilities e energia.

TERÇA (27/abr): Entrevista com o Ministro da Infraestrutura Tarcisio de Freitas

Nossa primeira entrevista com um ministro em exercício: Tarcísio conquistou o mercado não só pela agenda robusta de vendas de ativos e projetos, mas pela praticidade e gosto pelo trabalho (quem não lembra do “sem tempo, irmão!” no twitter?). Participação especial de Pedro Bruno, analista de infraestrutura da XP, que nos ajudará na entrevista.

QUARTA (28/abr): Entendendo as startups antes do “start”
(com Monica Saggioro e Lara Lemann, da Maya Capital)

Antes que muita gente entendesse o modelo de negócios de empresas como Méliuz, Enjoei, Mosaico e Locaweb, as ações delas subiram brutalmente na bolsa, dando um prenúncio de que mais empresas “techs” podem chegar na B3. Como entender melhor qual tech vai ser a próxima porrada da bolsa e qual pode ser uma cilada? Vamos descobrir isso com duas investidores que caçam essas startups muito antes do do “start”. Monica Saggioro e Lara Lemann são fundadoras do fundo de venture capital Maya Capital. Participará dessa conversa Lucas Chaise, head da cobertura de empresas techs na XP.

QUINTA (29/abr): Por que o Agro é tão importante no PIB mas não na bolsa?
(com Leonardo Alencar, da XP, e José Americo Basso, CEO da Jotabasso)

A pergunta do painel define bem ele: por que um dos setores mais pujantes do nosso PIB não possui representatividade no mercado de ações da B3? Nossos dois convidados têm uma vivência grande no setor: Leonardo Alencar cobre alimentos e agro no Research da XP e já foi RI da Minerva; já o José Basso, também ex-Minerva, hoje é CEO de uma empresa de grãos.

SEXTA (30/abr): Uma conversa com um value investor e um day trader
(Com Claudio Copolla, gestor do R&C, e Florian Bartunek, da Constellation)

Eu aposto que essa será uma das experiências antropológicas mais interessantes que já fizemos. Preparamos um mesmo roteiro de perguntas e vamos fazê-lo para dois profissionais de grande experiência e com resultados inquestionáveis no mercado, mas que seguem filosofias completamente diferentes.

Um deles é o trader “Claudinho” Copolla, que ganhou muito destaque com nossa audiência depois do episódio 90 do Stock Pickers, onde ele conta como o fundo dele já chegou a ter mais de 1.000.000% de rentabilidade acumulada; o outro é o Florian Bartunek, um “Stock Picker raíz”, daqueles que gosta de gastar sola de sapato para estudar as empresas que entrarão nas carteiras dos fundos da Constellation.

Para não perder nenhuma novidade sobre as lives, fique de olho no Telegram do Stock Pickers. O acesso é grátis, basta você baixar o aplicativo em seu celular e clicar aqui.

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Não é preciso abrir mão de resultado para ajudar o mundo, diz Florian Bartunek, da Constellation: “O retorno é melhor”

SÃO PAULO – Com uma bagagem de atuação ao lado de grandes nomes do mercado financeiro, como André Jakurski (JGP), Guilherme Aché (Squadra) e o ministro Paulo Guedes na antiga Pactual, e também com Jorge Paulo Lemann (AB InBev), um de seus sócios atuais, Florian Bartunek está próximo de completar 20 anos da fundação da gestora Constellation Investimentos.

O reconhecimento pelo desempenho de seus fundos, contudo, pode esconder um dia a dia de muita dedicação ao negócio propriamente, e não apenas à gestão dos produtos.

Para Bartunek, a administração do “empreendimento” tem peso igualmente importante ao da gestão para a sustentação da Constellation, fundada em 2002.

“Há três características importantes para um gestor de sucesso: ser um bom stock picker, um bom gestor de portfólio e um bom gestor do negócio. Tem que ter as três coisas para tocar um negócio robusto”, diz.

O sócio fundador e CIO da gestora é o convidado do décimo episódio do podcast Outliers, apresentado por Samuel Ponsoni, analista de fundos da XP.

Com foco 100% em ações, a Constellation tem hoje mais de R$ 12 bilhões sob gestão. Nomes diversos de empresas compõem o portfólio, que tem como foco o longo prazo, como B3, XP, Stone, Totvs, Rumo, Weg, Natura, Lojas Americanas, Suzano e Mercado Livre.

Nascido na Áustria, mas com sotaque carioca, Bartunek conta que seu caminho foi trilhado à base da experiência.

Especialmente na antiga distribuidora Pactual, na qual aprendeu de fato a fazer análise de ações, muito amparado pela atuação junto a investidores estrangeiros.

“Não sou aquele que nasceu com valor no berço, aquele que começou a investir com cinco anos de idade, não sou aquele que é apaixonado por ações. Eu caí por acaso no mundo de ações”, disse o gestor.

Aprendizados com Lemann e Jakurski

E para o sucesso do negócio, além da dedicação, Bartunek chamou atenção ao aspecto de gestão de pessoas, com lições ensinadas a ele principalmente por Lemann.

“Aprendi com ele a escolher muito bem as pessoas, a dar oportunidade para os jovens, a dar um osso às vezes maior do que a pessoa tem capacidade de morder, ética total, não fazer nenhum atalho, pensar simples”, resume.

Com Jakursi, conta ter aprendido a não ter vergonha de estar errado, a ter um olhar pragmático e, claro, honrar a ética absoluta nos negócios.

E o que analisar na hora se selecionar uma gestora? Nesse caso, Bartunek defende que a longevidade é parte importante de um negócio, assim como a forma com a qual a sociedade é estabelecida, e ressalta o lema de que quem não é competente não se estabelece.

“Para criar um negócio grande, robusto, com bons investidores, dá trabalho. 50% do seu tempo precisa ser tocando o negócio e a gente não aprende isso”, diz.

Outra lição que o gestor carrega diz respeito às limitações do trabalho quando não tem o conhecimento necessário de determinado modelo de negócio ou setor.

Ele separa as empresas em três pilhas: interessantes, não interessantes e difícil de entender. “Uso isso hoje em dia para a Tesla. Tem muita gente que quer shortear Tesla, e eu falo que, para mim, está na pilha do muito difícil, eu não sei. E não tem vergonha nenhuma botar algumas empresas na pilha do muito difícil para entender.”

ESG

No episódio, Bartunek também comentou sobre o tema do momento: ESG, referente a melhores práticas ambientais, sociais e de governança. A gestora, diz, tem uma regra elevada para o tema, e o gestor defende que o assunto precisa ser amplamente discutido pelo mercado financeiro, inclusive pelo potencial de retorno envolvido.

“Não é só para fazer o certo, mas também para ter um retorno melhor. É para ganhar mais dinheiro, performar melhor, fazer o bem e ter sócios melhores.”

“Há uma percepção errada de que aquecimento global é coisa da esquerda. Isso é besteira”, afirmou. “A crise da Covid deixou claro que não dá pra ficar brincando com a natureza.”

O gestor disse ainda que o investidor não precisa abrir mão de retorno “para ajudar o mundo”. “Seu retorno vai ser melhor. Vários estudos científicos mostram que empresas com bons padrões ESG têm um retorno melhor.”

Confira o episódio completo para conhecer melhor a visão de Bartunek, sua maneira de enxergar o mercado de gestão de ativos, suas recomendações de leituras e mais aprendizados de peso que o ajudaram a moldar a carreira.

É possível conferir o episódio completo e os anteriores do Outliers por Spotify, Deezer, Spreaker, Apple e demais agregadores de podcast.

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Comprando ações no “dia em que a Terra parou”

No auge da década de 70, o cantor e compositor baiano Raul Seixas, um dos precursores do Rock Nacional, perseguido político na Ditadura Militar e um dos grandes ‘gênios’ que o país já teve, lançou a música “O dia em que a terra parou”. Não é tão difícil viajar nas músicas dele, mas essa, em especial, é no mínimo curiosa diante dos tempos difíceis que estamos vivendo. Observe como os versos rimam com os dias atuais:

Sendo ele profeta ou não, a verdade é que no mundo todo, empregado, patrão, pobre, rico, branco, preto ou amarelo, todos estão sofrendo com a situação. Algumas cidades do Brasil, felizmente, ainda não foram atingidas pela ‘peste invisível’, mas a observarmos por São Paulo, coração financeiro do Brasil, o fluxo de pessoas nas ruas diminuiu consideravelmente diante da exponencial capacidade de transmissão do vírus. A Europa passa por uma crise sem precedentes após o surto pegar em cheio vários de seus países e, principalmente, a Itália. Nos EUA, à medida que o vírus se alastra, Nova York parou.

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Diferentemente do que Raul Seixas ‘profetizou’, não é que as pessoas combinaram de não sair de casa, elas simplesmente são obrigadas a não saírem. Essa crise já está sendo considerada uma das piores senão a pior que o mundo já enfrentou, uma vez que não envolve somente riscos financeiros, mas sim riscos relacionados à saúde das pessoas, o que deixa muita gente preocupada e com medo.

Em entrevista à CNBC, Ray Dalio, gestor da Bridgewater Associates, o maior Hedge Fund do mundo, soltou: “o que está acontecendo nunca aconteceu em nossa vida antes. O que aconteceu foi que [a crise] não veio dos lugares habituais, ela não veio da maneira convencional que as viradas costumar vir”. Nem Dalio, muitas vezes citado em nossos Ricos Matinais, se salvou nessa crise: seus fundos chegaram a perder 20% neste ano.

No Brasil, o rápido aumento no número de casos de coronavírus já tem provocado o ‘efeito shutdown’, com fechamento de escolas, eventos, shoppings e comércios.

Diante dessa difícil realidade e visto que ao longo da semana falamos com vocês sobre os motivos para comprar bolsa ‘aos poucos’, traremos a seguir uma análise detalhada sobre o que olhar em uma empresa e as peculiaridades de cada setor nesse momento. A análise foi extraída do relatório setorial completo feito pela XP Investimentos nessa semana.

Ok, quero comprar uma ação, qual eu escolho?

Você não está comprando só um pedaço de papel, atrás de uma ação existe uma empresa. Muitas ações caíram entre 60 e 80%, mas saiba o que essa empresa faz e como ela pode ser impactada pelo coronavírus. Veja a seguir como os impactos econômicos gerados pela paralisação de muitas atividades e restrições na circulação de pessoas e mercadorias, afetam os principais setores da bolsa:

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(i) companhias aéreas: seja a turismo ou a trabalho, a verdade é que as pessoas estão sendo obrigadas a não viajarem. Como a maior parte dos custos dessas companhias é fixo, ou seja, dívidas foram tomadas, aviões comprados e os funcionários contratados, a não ocorrência de viagens continuará corroendo o caixa da empresa. Para piorar, a forte alta do dólar, que nessa semana furou a barreira dos R$ 5,10 prejudica o setor visto que 35% do custo das aéreas é dolarizado. Sem ganhar dinheiro e tendo em vista que elas têm conta para pagar, o cenário pode ficar caótico. Calibre o risco que o setor trará com o tamanho da participação que você destinará a ele dentro da sua carteira.

(ii) varejo: em momentos como esse as pessoas priorizam o consumo básico em detrimento de gastos que podem ser postergados (compra de geladeiras, celulares, móveis, roupas por exemplo), além do que a própria redução do tráfego nas lojas diminui o número de vendas. Com o mundo fechando as fronteiras e restringindo viagens, podemos ter eventuais problemas no abastecimento das lojas, em função de possíveis rupturas na cadeia de suprimento de algumas indústrias (especialmente eletrônicos). Por outro lado, o varejo farmacêutico ganha relevância, principalmente pela busca por itens básicos de saúde (remédios e produtos de higiene pessoal). Empresas mais expostas ao e-commerce podem passar com menores sustos pelo caminho.

(iii) bancos: a solidez do setor bancário, que está capitalizado, faz dele defensivo em cenários de estresse. Contudo, são eles que fornecem crédito às empresas pequenas, médias e grandes. Se o Brasil para, as empresas postergam investimentos impactando assim a expansão da carteira dos bancos com o risco de muitas empresas não honrarem seus pagamentos. Além disso o menor consumo também leva a uma desaceleração nas receitas de serviços tais como conta corrente, anuidade de cartões, transferências e adquirência.

(iv) energia elétrica e saneamento básico: o impacto do coronavírus nesses segmentos é marginal, uma vez que são bens que todos continuarão consumindo mesmo em quarentena. É claro que se as grandes fábricas, shoppings e aeroportos fecharem, o setor será impactado, mas enxergamos eles entre os que menos serão impactados em suas operações pela pandemia do coronavírus, tendo em vista que suas receitas são reguladas. No caso dos setores de geração e transmissão de energia, as receitas praticamente não estão ligadas à atividade econômica. Já no caso da distribuição, poderia haver algum impacto caso houvesse interrupção das atividades dos setores comercial e industrial, embora não acreditemos que esse ainda seja o caso.

(v) commodities: é o setor que mais sofre com a perspectiva de queda do crescimento econômico global, justamente porque são as empresas que fornecem os insumos para o crescimento. Podemos separá-lo em diferentes segmentos: petrolífero, mineração, frigoríficos, celulose. Como o preço da commodity independe da sua análise (vide o que aconteceu com o petróleo após a Arábia Saudita oferecer desconto e dizer que elevará a sua produção) o peso dela dentro da sua carteira deve estar ajustada ao risco que você quer correr.

Agora que você sabe como os setores serão impactados, é fundamental que você escolha empresas que vão conseguir superar a crise. Para aumentar as suas chances de acerto, é importante se atentar ao endividamento e necessidade de pagamento (ou liquidez) de cada empresa separadamente. Vamos aos três principais indicadores de sustentabilidade financeira:

1) Níveis de alavancagem

O nível de rentabilidade e resultado operacional das empresas melhorou bastante nos últimos anos: no relatório, a XP traz que “desde 2015, as empresas do Ibovespa tiveram uma redução de endividamento superior a 7,0 dívida liquida/EBITDA (baixos preços de commodities pressionaram esse índice) para 2,5x atualmente. Mais precisamente, a partir de 2016 com a queda dos juros e a melhora gradual econômica e a recuperação das commodities, as margens operacionais (EBITDA) das empresas do Ibovespa melhoraram de 12% em 2015 para 22% em 2019”.

Contudo, em um cenário de queda abrupta no consumo e forte recuo dos preços de algumas commodities que deverão impactar a geração de caixa das empresas e consequentemente o pagamento de suas dívidas, acreditamos que os níveis de endividamento devem aumentar nos próximos meses.

Veja como exemplo Suzano e Klabin, que são empresas de endividamento elevado. Nos próximos dois anos Suzano tem R$ 9 bilhões em vencimentos de dívida (com caixa de R$12,5 bilhões) e Klabin tem R$3 bilhões em vencimentos (com caixa de R$9,7 bilhões);

2) Liquidez Corrente

O segundo risco é de uma menor capacidade de honrar pagamentos de dívidas com vencimento para 2020 e 2021. “Neste ponto, vale observar individualmente as empresas que apresentam caixa menor do que o montante a ser pago da dívida no curto prazo, dado que a capacidade de geração de caixa e flexibilidade de pagamentos são pontos positivos nesse cenário e variam para cada uma. Isso pode levar a condições piores de refinanciamento (rolagem) dessas dívidas, dado as condições mais difíceis no mercado de crédito.”, diz o relatório

Vamos lembrar que as grandes empresas listadas em bolsa dificilmente devem vir a ter problemas de liquidez e refinanciamento das suas dívidas. Esse risco potencialmente será maior para companhias privadas e menores, que têm acesso mais restrito ao mercado de crédito. Isso até poderia fazer as empresas listadas ganharem participação de mercado num cenário mais complexo de crédito.

A seguir, seguem dois exemplos dentro do setor de varejo: Magazine Luiza, com exposição relevante no segmento online (50% das vendas totais), e Via Varejo, com maior exposição ao varejo físico (mais impactado).

Magazine Luiza: com índices de alavancagem (Dívida Líquida/Ebitda) negativo de -3,0x, ou seja a Magalu tem 3x o seu Ebitda em caixa, é a empresa com o balanço mais sólido do setor, com uma posição de caixa líquido de R$ 3,9 bilhões.

Via Varejo: apesar do índice de alavancagem relativamente baixo (0,7x), a empresa possui cerca de R$ 1,7 bilhão em dívidas bancárias vencendo no curto prazo e uma posição de caixa de R$ 1,4 bilhão. Porém, no 3T19 ela tinha uma posição de recebíveis de cartão de crédito no valor de R$ 1,4 bilhão, que podem ser descontados e gerar liquidez imediata para a companhia, sendo superior as dívidas de curto prazo. Além disso, ressaltamos que a companhia apresenta outros passivos no montante de R$ 4,4 bilhões, dos quais R$1 bilhão é referente a fornecedores convênio e R$3,4 bilhões a passivos de carnê. Existem também contrapartidas equivalentes no ativo via estoque e contas a receber, mas veja que a situação é mais delicada do que a de Magazine Luiza.

3) Dívidas em dólares

O dólar em forte alta pressiona ainda mais empresas com endividamento ou custos atrelados à moeda. Mesmo as companhias que são exportadoras tendem a sofrer no curto prazo já que o balanço é ajustado com o câmbio de fechamento de trimestre, enquanto o fluxo de receitas demora até se ajustar ao novo patamar cambial.

Por exemplo, o setor aéreo, conforme dissemos na parte setorial:

Parte relevante das obrigações de companhias aéreas consiste em contratos de arrendamento de aviões, que por sua vez possuem um prazo atrelado à vida dos jatos e pagamentos de periodicidade anual. Essas obrigações são denominadas em dólar. Sem considerar o efeito do hedge (proteção), praticamente a totalidade da dívida das companhias, entre arrendamento e empréstimos, é atrelada ao dólar.

Elas podem ‘quebrar’? Sim, não à toa ambos Azul e Gol caem quase 80% no ano, embora a alavancagem de ambas esteja controlada (Azul 3,3x e Gol 2,4x) quando comparadas a 2015 (Gol bateu 11x), caso a demanda cesse por completo, os custos fixos e as dívidas podem tornar a operação de ambas inviáveis. Será que as autoridades deixariam isso acontecer um ano após a quebra da Avianca, outra cia do setor? Acho difícil, mas vamos aos números. No final de 2019, a Azul possuía uma dívida bruta de R$ 15,6 bi, caixa e aplicações de R$ 1,7 bi ou R$ 4,3 bi se somarmos contas a receber e aplicações de longo prazo. Entre 2020 e 21, o montante a pagar entre arrendamentos e amortizações somava ~37% da dívida total. Já a Gol possuía uma dívida bruta de R$ 15,0 bi, caixa e aplicações de R$ 2,9 bi ou R$ 4,3 bi se somarmos contas a receber e aplicações de longo prazo. Entre 2020 e 21, o montante a pagar entre arrendamentos e amortizações somava ~42% da dívida total.

Uma frase (meio trágica, mas real) que ouvi de um gestor e se encaixa no caso das aéreas: “Você não precisa correr mais rápido do que o leão, você precisa correr mais rápido que a pessoa que está correndo do leão”.

O texto ficou longo, mas o recado final que eu gostaria de falar é: se você souber o que está comprando e os riscos embutidos, a chance de sua carteira de ações passar imune a essa situação apocalíptica é grande.

Lembrando de uma frase muito dita pelo Florian Bartunek, da Constellation: “não há mal que sempre dure, nem bem que nunca se acabe”.

Melhores momentos do 1º Stock Pickers ao vivo, com Florian Bartunek

Florian Bartunek Florian Bartunek, da Constellation

A maior queda semanal do Ibovespa desde 2008 também trouxe impacto ao Stock Pickers: pela primeira vez desde a criação do podcast (abril de 2019), não publicamos um episódio semanal – o episódio que seria publicado era sobre o livro “Fora da Curva 2”.

Por ele estar totalmente desconectado dos eventos desta semana histórica, “trocamos” a publicação do episódio por uma live no nosso Instagram com uma das maiores lendas do mercado brasileiro de ações: Florian Bartunek, gestor da Constellation e, por coincidência, co-autor da série “Fora da Curva”.

A entrevista foi feita pelo Thiago Salomão (apresentador do Stock Pickers e analista da Rico Investimentos) na quinta-feira (12), às 19h, e contou com mais de 5 mil espectadores simultâneos durante os quase 40 minutos de conversa.

Aos que não conseguiram acompanhar, selecionamos os melhores momentos desta entrevista:

Thiago Salomão: Fazendo aquela “análise de retrovisor” que todo mundo acerta, parecia previsível saber que a bolsa iria cair, mas o que assustou foi a magnitude da queda, caímos muito e em pouco tempo…

Florian Bartunek: Além disso, caímos sem ter muita oportunidade de venda. Alguns dias, a bolsa já abriu com papel caindo 15%, 20%, tivemos circuit breakers na bolsa em um dia que algumas ações nem tinham aberto… Não é aquela queda que “se o papel cair 5% eu stopo (aciono o stop loss)”, não dá, porque você já abre com uma queda maior, isso é assustador.

TS: Que paralelo você pode fazer entre outros circuit breakers, o que essa tem de diferente e o que essa tem de igual às outras paralisações que tivemos em 2008, por exemplo.

FB: O que ela tem de igual: ela machuca muito quem está alavancado. Você não pode estar alavancado porque você é forçado a liquidar suas posições, esse risco se repete frequentemente nessas crises. Alvancagem é mortal, quem tem um peso em ações maior do que deveria ter está tendo que vender, na época que era para comprar está tendo que vender.

Segundo ponto: tudo cai meio que igual, então não teve muito como se defender. O Peter Lynch [um dos maiores investidores da história] contava uma história interessante dos maias: primeiro os maias moravam na beira do mar, daí veio uma enchente que matou metade deles; aí eles aprenderam e foram morar em cima das árvores, mas aí veio um raio e pegou fogo e matou mais gente; daí aprenderam e foram morar nas montanhas, mas veio um terremoto, as pedras rolaram e morreu mais metade… Você acaba para as crises do passado e as da frente acabam sendo diferentes. Quiseram se proteger dessa crise com empresas de commodities, mas foram pegos porque essa crise pegou a China no começo. As crises são parecidas mas elas sempre mudam, então é muito difícil você “se hedgear” e se preparar para a próxima crise.

O que ela tem de igual: apesar de tudo estar caindo mais ou menos igual, tem ações com mais “beta” (correlação mais alta com o Ibovespa) e que acabam sofrendo mais, e a gente aprende um pouco isso, as ações quase têm personalidade, você sabe que uma Weg ou uma Ambev, por exemplo, são mais defensivas, e você sabe que uma Magalu, Banco Inter tem mais “beta”, até pelos negócios com mais alavancagem, empresas mais defensivas sofrem menos, empresas mais agressivas sofrem mais.

TS: Mas o que explica uma queda tão mais rápida que de outras crises?

FB: Existe uma diferença entre risco e incerteza, o problema não é o risco, se eu sei a perda potencial, eu não fico feliz mas eu sei que minha perda potencial é essa, agora quando eu tenho incerteza eu não sei o que pode acontecer, as pessoas começam a criar cenários paralelos, do tipo “e se fechar as escolas, metrô, o que causa na economia? E se começa a quebrar empresa, e se morrer tantas pessoas?” Estamos naquela fase aguda da incerteza, aí você pega investidores alavancados, fundos que não têm mandato específico de ações e dentro de um ambiente de incerteza, que você pode pensar em qualquer cenário, isso acelera as quedas.

Agora, confesso que quedas de 20% de uma ação no dia, 30%, eu raramente vi, e acho que é interessante que se você olha em um cenário mais normal, numa Raia Drogasil por exemplo. Eu até entendo isso em uma ação de uma empresa aérea ou uma empresa hoteleira, esse é o epicentro da crise, pois quem está sofrendo é agência de viagem, turismo, isso até entendo… mas Raia Drogasil? Qual a chance de ter um impacto relevante no negócio da Raia? No cenário que eu vejo hoje, não é muito grande, posso dizer que o lucro pode cair 10% se tivermos uma quarentena, mas a ação caiu muito mais do que isso, então nessas horas as pessoas sempre fazem o pior cenário, boa parte da queda vem de investidores alavancados e que tem um percentual maior do que deveria ter no portfólio.

TS: Teve uma coisa muito legal que você falou na entrevista para o Brazil Journal: essa crise de agora tem começo, meio e fim, enquanto em 2008 parecia que o mundo ia acabar, ninguém sabia até onde a crise de crédito nos EUA iria e quanto ela poderia impactar a economia do mundo todo. Agora, essa crise atual tem prazo de validade, basta ver que a China está vencendo o coronavírus. Com isso em mente, como explicar o Ibovespa cair de 120 mil pontos para 70 mil pontos em tão pouco tempo? Foi apenas investidor alavancado vendendo, ou é uma nova fase do mercado que tem muito mais dinheiro disponível e mais gente comprada?

FB: Durante períodos de alta volatilidade, é comum os investidores acompanharem freneticamente os preços e esquecerem que atrás de cada um daqueles números piscando rapidamente na tela existe uma empresa que continua operando no dia-a-dia. Ao invés de congelar em frente à tela, o investidor deve “voltar aos fundamentos” e estudar os possíveis impactos reais da crise na geração de caixa da empresa da qual o investidor decidiu se tornar sócio, pois é isso irá realmente impactar o valor da empresa.

TS: Deixe um recado para os mais de 1 milhão de investidores que entraram nos últimos 12 meses na bolsa e devem estar apavorados com essas quedas.

FBComprar ação é o início. O grande teste do investidor é o que fazer no caminho. Decidir qual ação colocar na carteira pode levar um tempo, mas, após feita essa lição, o investidor começa o período de testes que, dependendo da tese, pode durar décadas. Nesse trajeto, os investidores passam, sem dúvida, por alguns períodos de teste. Quem começou essa jornada há pouco tempo pode pensar que os gestores com mais experiência não ficam aflitos. Mas todos, independentemente do tempo de mercado, ficam preocupados e aflitos. Nesses períodos é importante estudar e ver se sua posição está adequada.

Apresentado por Thiago Salomão, analista da Rico Investimentos, e Renato Santiago, do InfoMoney, o Stock Pickers vai ao ar toda quinta-feira. Você pode seguir e escutar em sua plataforma de podcasts preferida clicando aqui.